Andre D. Wagner para The New York Times
Andre D. Wagner para The New York Times

Nos EUA, cultura da patinação sobrevive a período de segregação

O elo entre americanos negros e as noites de patinação remonta a um passado de políticas racistas

Jim Farber, The New York Times

14 Fevereiro 2019 | 06h00

NEWARK, NOVA JERSEY - “Esvaziem a pista”, disse Nile Ahmid, DJ do Centro de Patinação Branch Brook. Era quase meia noite, e ele tinha passado as três últimas horas tocando house e hip-hop. “A próxima é só para os trenzinhos”, acrescentou ele. As luzes se acenderam, e 400 patinadores frearam suas rodinhas. Obedecendo ao comando, eles deram os braços uns aos outros formando grupos de três a 10 patinadores para formar os chamados trenzinhos, marca do estilo de patinação típico de Nova York e Nova Jersey.

As idades dos patinadores iam de menos de 20 a até mais de 60 anos, um público composto por gays e heterossexuais. Mas, em termos de raça, cerca de 95% eram americanos negros, um segmento demográfico que definiu e conferiu contexto histórico a eventos de patinação semelhantes nas cidades americanas.

“A patinação tem uma tradição antiga entre nós”, disse Brandon Young, 27 anos, funcionário do sistema de ensino púbico de Newark, que patina em Branch Brook. “É toda uma cultura”. O elo entre os americanos negros e as noites de patinação adultas remonta ao passado de segregação nos EUA. Essa relação, que inclui políticas racistas e a rica cultura que surgiu em reação a elas, é o tema do documentário “United Skates”, transmitido pela HBO este mês.

Sob o comando de Tina Brown e Dyana Winkler, em seu primeiro trabalho como diretoras, o filme detalha as manobras nefastas que mantiveram a separação entre patinadores brancos e negros e celebra o panorama da patinação noturna entre os negros. Há algo de urgente nessa comunidade. As pistas de patinação das principais áreas metropolitanas vêm fechando nos últimos dez anos, num processo mobilizado principalmente pela gentrificação.

Tina e Dyana não são patinadoras, mas, anos atrás, ficaram fascinadas com um grupo de patinadores do Central Park, em Nova York, supondo que fossem o último vestígio da moda dos patinadores e discotecas do final da década de 1970 e início de 1980. “Eles nos disseram que ‘a patinação não morreu. Ela sobrevive longe dos holofotes’”, conta Tina. “Fomos convidadas a uma festa nacional de patinação noturna”. Assim, às 3h daquela madrugada, elas embarcaram num ônibus para Richmond, Virgínia. Ao chegar ao rinque, viram milhares de patinadores de todo o país.

“Na igreja, as pessoas deixam seus problemas no altar”, disse Phelicia Wright, administradora imobiliária de Los Angeles que conhece diferentes estilos de patinação. “No rinque, deixamos nossos problemas na pista”. As pistas de patinação também desempenharam um papel de grande importância na divulgação dos primórdios do hip-hop.

Nos anos 1980, quando artistas como Salt-N-Pepa, Naughty by Nature e NWA, bem como seus fãs, eram vistos com maus olhos por muitas casas de shows tradicionais, que impediam suas apresentações, os rinques os aceitaram prontamente. Dr. Dre começou sua carreira como DJ tocando no Skate Town, de Los Angeles.

Mas a aparente união da comunidade dos patinadores esconde um histórico de violência e preconceito que lhe foram impostos. Durante o período da segregação racial, brancos e negros eram separados nas pistas de patinação. Mesmo após a integração, muitos rinques insistiram em manter a separação entre brancos e negros. Nos anos 1960 e 1970, se patinadores negros aparecessem no rinque em uma noite reservada aos brancos, alguns estabelecimentos contratavam capangas para derrubá-los na pista”, disse Tina.

E, hoje, muitoas pistas têm avisos dizendo “proibido usar roupas largas”, ou “proibido tocar hip-hop”, algo interpretado por alguns como forma de afastar os frequentadores negros. As repulsivas táticas que mantiveram separados os patinadores brancos e negros podem ter ajudado a consolidar uma cultura distinta. “Um das ironias da segregação é o fato de ela ter criado liberdade para que os americanos negros criassem magia nos seus próprios espaços”, disse Dyana.

Ao mesmo tempo, a patinação noturna é ameaçada pela alta no valor dos imóveis. Nos últimos dez anos, foi grande o número de rinques fechados. Entre as pistas de patinação que seguem funcionando à toda está a Branch Brook. Durante mais de quatro horas em um domingo, patinadores aceleraram, rodopiaram e se divertiram. Habilidosos patinadores como o segurança Shaquan Moore, de Newark, rasgavam pela densa constelação de patinadores como estrelas cadentes.

O entregador Antwan Vines, 25 anos, de Newark, um dos astros do rinque local, disse que prefere a patinação à qualquer outra atividade de lazer. “Quando vamos jogar basquete, não temos tanta liberdade para ouvir música como aqui”, disse Vines Said. “Quando vamos a uma casa noturna, estamos sempre interessados em saber quem está presente. Mas a patinação proporciona um tipo de diversão que fala à alma”.

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