Josh Haner/The New York Times
Josh Haner/The New York Times

Nos filmes de terror, sementes da verdade

'Winchester' é mais uma das películas de horror que pretendem usar uma suposta veracidade de enredo

Robert Ito, The New York Times

18 Março 2018 | 10h00

A Misteriosa Mansão Winchester, de San José, Califórnia, é extravagante ou sinistra, dependendo de como as pessoas veem estas coisas, com escadas que levam ao teto e portas que se abrem para lugar nenhum.

Era a casa de Sarah Winchester, herdeira da fortuna da Winchester Repeating Arms Company, fabricante de rifles e carabinas de repetição que, segundo a lenda, manteve operários trabalhando na mansão durante dezenas de anos, de 1884 até a sua morte em 1922. Ela levou a cabo o projeto a mando de um profeta da Nova Inglaterra, com a finalidade de protelar a própria morte, diz uma versão da história, ou para acalmar os espíritos das milhares de almas dos que morreram ao longo dos tempos pelos fuzis Winchester, segundo outra.

A lenda tem todas as características de um bom filme de horror. E, o melhor de tudo, é que a história é verdadeira - ou será que não?

Em “Winchester”, que estreou mundialmente no mês passado, os diretores Peter e Michael Spierig (“O Predestinado”, “Jogos Mortais: Jigsaw”) levaram  ao pé da letra a história arrepiante, enchendo a mansão de fuzis que levitam, cadeiras de balanço que se movem sozinhas, e os fantasmas de um exército de veteranos de guerra,  mortos há muito tempo, e de vítimas de assassinatos. E ainda Helen Mirren, vestida da cabeça aos pés de trajes pretos de luto, como a misteriosa Senhora Winchester.

“Winchester” é o mais recente de uma linha de filmes de horror que usufrui de sua suposta veracidade. “Horror em Amityville”, de 1979, baseou-se no relato de uma suposta casa assombrada, de 1975. As macabras façanhas de Ed Glen, um assassino que fabricava móveis  e roupas com partes do corpo, inspirado no “Massacre da Serra Elétrica” do Texas, e no “Silêncio dos Inocentes”.

O interessante é que a “verdadeira história” de Sarah Winchester foi posta em dúvida há muito tempo. Sarah Winchester construiu de fato a casa, mas a maior parte da história foi inventada pelos jornalistas da sua época, afirma Mary Jo Ignoffo, autora de “Captive of the Labyrinth: Sarah L. Winchester, Heiress to the Rifle Fortune”.

As escadas vão mesmo até o teto, e as portas, abrem-se para lugar nenhum? Resultado da destruição provocada pelo terremoto de 1906. E todos aqueles quartos? Um reflexo do interesse de Sarah pela arquitetura e pelo design de interiores. E a sua suposta “culpa por causa dos fuzis”? “Ninguém se sentia culpado por causa de armas, na virada do século 20”, segundo a escritora. “Todo mundo as usava e precisava delas”.

“A mentira fundamental é que a construção da casa durou o tempo todo”, acrescentou. “Sarah sequer morou na casa nos últimos 15 anos de vida”.

Tanto o filme quanto a biografia chegam a conclusões semelhantes a respeito da Sra. Winchester: ela foi mais heroica e menos maluca do que a pintaram. No livro de Mary Jo Ignoffo, ela foi uma mulher de negócios muito sagaz, uma empresária estimada; irmã e tia generosa, e também uma filantropa. Em “Winchester”, ela é uma heroína que protege a família e o lar dos maus espíritos e dos executivos gananciosos da companhia.

Se o filme às vezes se desvia da verdade em nome de um bom horror - não há registros de que ela jamais tenha atacado um garoto possuído pelo espírito de um soldado confederado assassino, por exemplo - é isto que os seus criadores querem.

“Afinal, não estamos fazendo um documentário”, disse Michael Spierig. “Estamos fazendo uma obra para entretenimento”.

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