Kim Murton|The New York Times
Kim Murton|The New York Times

Nos laboratórios, o mundo é dos cães

Um levantamento mostra que pesquisas de laboratório envolvem mais cães do que gatos, embora a genética felina também mereça atenção

James Gorman, The New York Times

05 Março 2018 | 10h00

Elinor Karlsson, geneticista do Broad Institute e da Universidade de Massachusetts, tem três gatos, mas faz pesquisas sobre cachorros. Ela não é a única. Uma sondagem do Pub Med, um banco de dados que inclui a maioria das revistas biomédicas, reuniu 139.858 resultados para gatos e 328.781 para cachorros. Os resultados da ferramenta de pesquisa Google Acadêmico (Scholar) foram 1.670.000 para gatos e 2.850.000 para cachorros.

"A pesquisa mostra que os gatos perdem bastante para os cachorros", escreveu Elinor em um e-mail. "Acho que são levados menos a sério do que os cachorros, provavelmente por causa da discriminação da própria sociedade. Há uma veterinária no meu grupo que acha que, em grande parte, o câncer nos gatos poderia constituir um modelo bem melhor de estudo para o câncer humano, mas quase não existem pesquisas sobre ele”. 

Além disso, ela afirmou: "Quem não gosta de gatos costuma rir da ideia de estudar o comportamento genético dos gatos, ao passo que os treinadores de animais se queixam de que as pessoas menosprezam os gatos porque julgam que não podem ser treinados".

A veterinária Kate Megquier, que faz doutorado em genômica do câncer no Broad Institute, acredita que o câncer nos gatos mereceria mais atenção. Em sua opinião, os gatos sofrem de vários tipos de linfomas, e "certamente, eles têm algo a nos ensinar". Também sofrem de câncer de boca semelhante ao dos seres humanos, e é possível que ele possa estar relacionado às toxinas do ambiente. Investigar esta possibilidade "poderia nos fornecer informações sobre este câncer", acrescentou Kate, o que seria benéfico tanto para os animais de estimação quanto para as pessoas.

Elinor disse que há mais raças caninas - aproximadamente 400, em comparação a cerca de 40 felinas - o que significa maior diversidade genética e maior número de ferramentas para o estudo dos genomas. Mas, ela observou, um novo genoma felino de referência é mais detalhado do que o genoma canino mais recente.

Elaine Ostrander, dos National Institutes of Health, tem cachorros e estuda a genética canina. Em um e-mail, ela destacou que o ser humano se sente atraído pelas inúmeras raças e variedades de tamanhos e formatos dos cães. Alguns genes que afetam o crescimento, segundo ela, influem em certas "doenças degenerativas do crescimento, como o câncer". Além disso, ela aponta, a domesticação "aconteceu em um período de tempo muito reduzido, e não conhecemos toda a genética associada a este fato. Ela permanece uma das questões mais interessantes e desafiadoras da biologia".

Uma das pessoas responsáveis pelo recente genoma dos gatos, Leslie Lyons, da Universidade de Missouri, falou da dificuldade de conseguir recursos para a pesquisa eles, embora os gatos sejam superiores para o estudo de algumas doenças, como a do rim policístico.

Fiona Marshall, bioarqueóloga da Washington University em St. Louis, é coautora de um estudo que datou a primeira evidência de gatos domésticos em um sítio de 5.300 anos, na China. Ela explicou que os gatos são mais raros do que os cachorros nos sítios arqueológicos, em parte por serem animais solitários e também, aparentemente, porque não serviram com tanta frequência de alimento para os seres humanos da Antiguidade.

"Eu também acredito que havia discriminação da própria sociedade medieval europeia em relação aos gatos, e mesmo em períodos posteriores", ela disse. "Os gatos eram considerados animais maléficos por não obedecerem ao comando dos homens".

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