Lars Fehlandt / The New York Times
Lars Fehlandt / The New York Times

Nova espécie de tarântula suscita debate sobre ética na pesquisa

Entre cientistas e pesquisadores, amostras do animal levantam preocupação de que tenham sido levadas ilegalmente da Malásia

Rachel Nuwer, The New York Times

13 de abril de 2019 | 06h00

Em fevereiro, a revista Journal of the British Tarantula Society publicou um estudo descrevendo uma nova espécie de tarântula descoberta em um parque nacional da Malásia. Enquanto o macho era de uma cor marrom comum, a fêmea tinha impressionantes pernas de um azul elétrico.

Novas aranhas são descobertas o tempo todo, e o estudo provavelmente teria passado despercebido - não fosse por um artigo posterior da revista Science. O artigo afirmava que os pesquisadores de tarântulas  receberam as amostras de segunda mão de colecionadores privados da Polônia e da Grã-Bretanha, que as haviam recolhido ilegalmente na Malásia.

Peter Kirk, presidente da British Tarantula Society e editor da revista, afirmou que os colecionadores mostraram aos cientistas uma autorização de importação da Polônia, e “não tinham nenhuma razão para pensar que não tivesse havido a devida verificação”.

O incidente reacendeu um debate que ocorre há dezenas de anos entre cientistas e hobistas sobre a ética da pesquisa, a coleta de espécimes e a “biopirataria” - uso de recursos naturais sem a devida licença concedida pelas comunidades locais ou sem compartilhar com elas os respectivos benefícios.“A maioria das respostas que tenho visto são de pessoas que dizem: ‘Sim, precisamos acabar com isto’, mas também tem havido muitas outras tentando justificar a coleta ilegal e o contrabando dessas tarântulas”, afirmou Ernest Cooper, consultor da área de conservação da Colúmbia Britânica.

É possível que haja cientistas cúmplices de um comércio ilegal coletando eles próprios espécimes ilegalmente ou trabalhando com quem faz este tipo de atividade. Este crime contra a vida selvagem ocorre em uma escala menor, mas especialistas acreditam que não deixa de constituir uma questão relevante. “É um problema global, e acontece com muita frequência”, avaliou Sérgio Henriques, presidente do grupo das aranhas e escorpiões da International Union for Conservation of Nature.

Para Henriques e outros, este tipo de coleta suscita profundas preocupações éticas. “Nós somos os cientistas, somos as pessoas supostamente mais preparadas que deveriam dar o exemplo”, disse. “Se não seguimos as normas, por que exigir que os outros as sigam?”

Alguns argumentam que esta má conduta no ambiente científico é pouco registrada entre as tremendas ameaças enfrentadas hoje pela vida selvagem. “O fato é que as pessoas fazem um grande estardalhaço com o caso da tarântula ou qualquer outro, em lugar de destacar a necessidade de proteger o ambiente em que o animal vive, coisa que ninguém faz”, pontuou Heiko Bleher, especialista independente em peixes de água doce. 

Talvez seja difícil determinar quem pode ser definido como cientista e em que consiste infringir a lei. Por exemplo, hobistas no nível de especialistas muitas vezes publicam estudos na literatura científica. Mas, como não são funcionários de uma universidade ou de um instituto de pesquisa, não estão sujeitos aos rigorosos códigos de conduta, e podem estar mais propensos a tomar atalhos, explicou Cooper.

Por outro lado, a ética das aquisições científicas às vezes é um tanto vaga. “Há grandes zonas cinzentas, e há questões de ética e também de legalidade”, disse Peter Paul van Dijk, biólogo da organização sem fins lucrativos Global Wildlife Conservation. “Se tudo de que se necessita é uma pequena amostra de sangue, e você  procura um amigo hobista e retira algumas gotas de sangue de um animal em cativeiro, faria realmente a devida investigação para garantir que o animal foi tirado do seu ambiente da maneira legal?”, questionou. 

No futuro, informou Kirk, o Journal of the British Tarantula Society exigirá que os autores forneçam uma cópia das autorizações se o seu estudo tratar de espécimes  de outro país. Henriques disse que gostaria de ver a criação de um site gerido por uma organização global idônea, no qual cada país apresentaria a sua legislação e o processo de solicitação para a coleta de amostras e para a exportação destas.

“Pessoalmente acho que é bom que o caso da tarântula azul tenha chamado a atenção como aconteceu, porque despertou o interesse por este tópico”, afirmou. “Precisamos tentar manter viva a conversação a fim de usar isto como uma chance de encontrarmos soluções”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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