Ilana Panich-Linsman para The New York Times
Ilana Panich-Linsman para The New York Times

Nova porta de entrada nos EUA: uma estação de ônibus no Texas

Organização assistencial católica oferece alimentação, roupas e outros tipos de ajuda aos imigrantes

Manny Fernandez, Mitchell Ferman, Ilana Panich-Linsman e Sarah Almuktar, The New York Times

24 Agosto 2018 | 15h45

McALLEN, TEXAS - Para milhares de imigrantes ilegais no Sul do Texas, a estação de ônibus lotada no centro de McAllen é uma nova Ellis Island improvisada. Diariamente, eles fazem filas, recém-saídos da prisão, sem ter tido o tempo sequer de amarrar os sapatos. Seguram firmes os sacos dados pelo governo com os seus pertences, e os filhos com mãos ainda mais firmes.

Como Ellis Island, a histórica porta de entrada no Porto de Nova York, a estação de ônibus é um ponto de ingresso e de saída na jornada dos migrantes rumo à fronteira sudoeste dos Estados Unidos ou mais além. Entretanto, ao contrário de Ellis Island, todos os que passam pelo terminal do Texas - jovens ou velhos, saudáveis ou doentes - foram efetivamente presos pelas autoridades ao chegar ao país.

A maioria dos imigrantes que chegam à fronteira deixaram suas casas na América Central e viajaram 

através do México. Enquanto alguns entram nos EUA pela Califórnia ou pelo Arizona, a maioria deles atravessa o Rio Grande no Texas, e depois se entrega à polícia ou é apanhada pela Patrulha de Fronteira. Daí, eles são levados para a prisão federal de McAllen e de outras cidades do sul do Texas, e então liberados.

Os ônibus fretados pelo governo deixam muitos na Estação Central, no centro da cidade. Ali, eles fazem uma fila do lado de fora para pegarem a sua passagem e depois são encaminhados a um centro de serviços para os imigrantes nas proximidades, dirigido por entidades assistenciais católicas. Mais tarde, entram nos ônibus rumo a outras cidades de todo o país, onde a maioria encontrará familiares que já vivem nos EUA.

Milhares de homens, mulheres e crianças continuam chegando na fronteira dos Estados Unidos. Eles dizem que vêm para cá porque querem fugir da violência, da pobreza ou das gangues em seus países de origem. A maioria vem da Guatemala, Honduras e El Salvador, alguns dos países mais pobres e caóticos do mundo.

“Na nossa terra, a situação da economia torna a vida difícil”, disse uma mulher de 36 anos, quatro filhos, com os quais saiu  de Olancho, Honduras, e percorreu cerca de 2 mil quilômetros em 33 dias.

“Vimos casos de pessoas que encontraram o sucesso aqui, então também decidimos tentar. A ideia da imigração é esta - vir aqui e mudar para melhor, certo?”

Recentemente, cerca de 125 imigrantes ilegais foram soltos da prisão e levados ao terminal rodoviário. Quatro ônibus os largaram em grupos de aproximadamente 30 entre o fim da manhã ao começo da tarde. Eles ficaram atrás de uma fileira de cones de trânsito em frente à entrada lateral de Estação Central.

Alguns seguravam caixas azuis dadas pelas autoridades ao libertá-los. Dentro delas havia carregadores para as tornozeleiras que teriam de usar. Outros não conseguiam andar, simplesmente arrastavam os sapatos sem  cordões. Enquanto estavam na prisão, os cordões dos sapatos, considerados armas em potencial, foram confiscados e devolvidos ao sair da cadeia.

Na sua maioria, os migrantes ficaram presos apenas alguns dias, em grande parte por não terem antecedentes criminais. As tornozeleiras servem para monitorar os seus deslocamentos e desencorajá-los a fugir, enquanto os seus casos são avaliados pela justiça, no setor de imigração. Alguns pediram asilo, porque temem ser condenados em seus países de origem.

Juana Susana Orozco Gomes, 21, estava em frente ao terminal, carregando no colo a filha de 3 anos. 

Ela descreveu a viagem  da Guatemala. “Atravessamos a fronteira depois de cruzar uma passagem na montanha”.

Alguns arriscavam a vida ficando ali, pagando milhares de dólares aos contrabandistas conhecidos como coiotes para guiá-lo, ou enfrentando a jornada por conta própria. Centenas de corpos foras encontrados recentemente  no meio da vegetação do deserto desolado do sul do Texas, ao norte da rodoviária - migrantes cuja jornada se encerrou com a desidratação, a insolação ou mesmo com a hipotermia.

Muitos acabavam de ser libertados de um lugar que chamam de La Hielera - a geladeira. É o centro de triagem da polícia de fronteira de McAllen, conhecida pela baixa temperatura no seu interior.

Todos os imigrantes soltos na estação de ônibus são assistidos por entidades católicas da Rio Grande Valley, que administra um centro de descanso a algumas quadras de distância. Seus voluntários ajudam os migrantes a retirar as passagens de ônibus e os levam ao centro de descanso, onde podem alimentar-se, repousar, chamar os parentes e vestir novas roupas, tudo gratuitamente.

A condição dos imigrantes em geral é incerta. Mas eles estavam ansiosos por enfrentar o que desse e viesse. “Eu quero trabalhar em Miami”, disse Gerardo Mendoza, 27, de Honduras.

“Eu quero jogar futebol na escola”, afirmou Anthony, 16, da Guatemala.

“Aqui é tão bonito”, comentou Nelson, 35, de Honduras. “Os Estados Unidos são todos assim?”

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