Amazon Prime Video, via The New York Times
Amazon Prime Video, via The New York Times

Nova série indiana rompe paradigmas e aborda mudanças culturais

'Made in Heaven', produzida pela Amazon Prime, retrata o conflito entre amor, patriarcado e homofobia

Priya Arora, The New York Times

02 de maio de 2019 | 06h00

Em Bollywood e na vida real, a pompa das cerimônias de casamento da classe alta fascinam os públicos em todas as partes do globo. No entanto, a Índia também está às voltas com o feminismo e as liberdades de uma nova era. O ativismo levou o movimento do #MeToo para o subcontinente e derrubou as leis arcaicas da era colonial, como a Seção 377, um artigo da Constituição indiana que condenava relações entre pessoas do mesmo sexo.

É este paradoxo que a Amazon Prime India aborda em sua mais recente série original, Made in Heaven. Centrada em Karana (Arjun Mathur) e Tara (Sobhita Dhulipala), dois amigos proprietários de uma empresa que organiza casamentos, a série trata de problemas enfrentados por uma crescente geração de sul-asiáticos: questões de classe, homofobia e assédio sexual. Na direção, estão três aplaudidos realizadores e roteiristas de Bollywood: Zoya Akhtar (Zindagi Na Miegi Dobara), Reema Kagti (Gold) e Alankrita Shrivastava (Lipstick Under My Burkha).

Em um dos episódios, um casal de pouco mais de 60 anos se casa contra a vontade dos filhos; em outro, um indiano que vive nos Estados Unidos promove um concurso para encontrar uma esposa indiana. Esta objetividade torna Made in Heaven muito atraente - enquanto Bollywood talvez procurasse passar por cima de verdades desconfortáveis, um veículo de streaming, pelo fato de estar livre de um departamento de censura e dos números de bilheteria, liberta os criadores.

Os conflitos entre a tradição e a mudança cultural também ocorrem na vida pessoal dos protagonistas, e a série não tem medo de provocar desconforto no público.

Tara é uma defensora dos direitos de seus funcionários e da necessidade de fazer seus clientes conseguirem o casamento dos sonhos, mesmo quando isso vai contra imposições familiares. Entretanto, em casa, ela está subordinada ao marido, um homem rico que menospreza suas raízes de classe média. Tara luta com seu desejo de adaptar-se à elite com a conclusão dos estudos e com os próprios valores tradicionais.

Com Karan, temos um homem homossexual que não é um conjunto de estereótipos, como a mídia indiana predominante apresenta. A homofobia interiorizada de Karan é retratada de maneira realista e com nuances - em um flashback, quando adolescente, ele expulsa um colega de escola a fim de preservar o segredo da própria verdade. Adulto, ele é expulso e preso segundo a Seção 377 da lei. O assédio da polícia ao qual é submetido na cadeia o obriga a lidar com seu passado, dá a ele a força de pedir desculpas ao colega, anos mais tarde, e a enfrentar a família. 

Às vezes, a série parece usar seus personagens principais para afirmar a natureza cíclica do trauma e do carma. No entanto, ela faz parte de um contingente cada vez maior de produções progressistas para atrair um mercado em grande parte ignorado. A Netflix se comprometeu a utilizar o conteúdo oferecido pelo subcontinente, incluindo Sacred Games, sua primeira série original multilinguística da Índia. A Amazon está trabalhando em seis novos originais indianos. O conglomerado indiano de entretenimento Hotstar (da 21st Century Fox) já anunciou seus primeiros programas originais, entre eles uma adaptação de The Office, produzida inicialmente pela BBC. Outras grandes casas de produção locais, como Zee e Eros, estão trabalhando em originais em suas plataformas.

A aclamação da crítica recebida por Made in Heaven sugere que, talvez, outros programas possam ampliar ainda mais suas fronteiras.  /TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.