Amelia Nierenberg/The New York Times
Amelia Nierenberg/The New York Times

Câmara Municipal de Nova York estuda lei para proibir o foie gras

Países como Grã-Bretanha, Israel e Índia já proibiram a venda ou a produção da iguaria

Amelia Nierenberg e Jeffrey C. Mays, The New York Times

09 de outubro de 2019 | 06h00

FERNDALE, Nova York - Em seus últimos dias de vida, os patos Moulard na fazenda da Foie Gras em Hudson Valley são forçados a engolir três vezes ao dia uma ração gordurosa à base de milho. A comida é introduzida por meio de um tubo em suas gargantas, processo conhecido como gavage que provoca o aumento do seu fígado até dez vezes o seu tamanho normal. Quando o pato para de digerir ou depois de um regime de alimentação forçada de 20 dias de duração, está pronto. Os patos são utilizados fundamentalmente para produzir o foie gras, uma iguaria que significa “fígado gordo” em francês.

Cerca de mil restaurantes de Nova York servem foie gras, um convite para um jantar de classe.

“Faz parte da história da gastronomia”, explicou Jonathan Benno, chef executivo do Benno de Manhattan.

Mas o foie gras, que pode ser feito também com gansos, está no centro de um debate em que se pretende determinar se o processo de produção da iguaria é humanitário ou, como sugerem os ativistas dos direitos dos animais, não passa de uma tortura.

A Câmara Municipal de Nova York estuda uma legislação que proibiria efetivamente o foie gras para a venda na cidade de Nova York, um dos maiores mercados do produto nos Estados Unidos. Outros países já proibiram sua venda ou a sua produção, como Grã-Bretanha, Israel e Índia.

Mas os defensores do foie gras afirmam que tortura é um termo exagerado e politicamente motivado. O foie gras, como alimento de luxo, é um alvo fácil, comparado aos animais criados pelos sistemas industriais para amplo consumo.

“Se tentássemos fazer com que as pessoas desistissem de comer carne de frango, que é barata, teríamos um problema, porque isto afetaria o seu bolso”, disse Mark Caro, autor do livro The Foie Gras Wars.

“É um dos itens preferidos por apreciadores e gourmets: as pessoas da maior parte deste país se ressentiriam”, prosseguiu.

Um fígado de pato normal tem uma coloração vermelho escura, cabe na palma da mão e em geral pesa 90 gramas. O foie gras é amarelo, aproximadamente do tamanho de um cérebro humano e pode pesar cerca de 800 gramas. Cada fígado é vendido a mais ou menos US$ 125. Segundo a dra. Holly Cheever, veterinária e vice-presidente da New York State Association, na época em que as aves estão prontas para o abate, algumas são tão grandes que não conseguem andar, e o seu fígado aumentado pode comprimir outros órgãos, dificultando a respiração. Os animais estão de fato em estado de falência do fígado quando o órgão está pronto para ser retirado, acrescentou. “Esta é a forma mais cruel de produzir alimentos”, afirmou.

Embora muitos veterinários concordem, não existe um consenso na comunidade científica.

“As vacas costumam produzir em média de 27 a 28 litros de leite por dia”, disse o dr. Gavin Hitchener, pesquisador da Cornell University, em Ithaca, Nova York. “Agora elas podem chegar a produzir quase 70. Estamos maximizando a sua eficiência. O mesmo ocorre com o ganso que produz foie gras”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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