Tomi Um
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'Nada de romantismos sobre o metrô', afirma Maeve Higgins

'Sim, é um lugar enfadonho, cheio de gente. Mas, de vez em quando, é mágico', diz criadora da série 'Aliens of Extraordinary Ability' em audiolivro

Maeve Higgins, The New York Times

21 de dezembro de 2019 | 06h00

Como todo bom nova-iorquino, fico pensando na vida no metrô. A não ser que esteja de mau humor, como aconteceu recentemente num dia frio, em que ninguém respondia às minhas mensagens, meus jeans estavam apertados demais, cheguei atrasado em uma reunião à qual não queria ir, e um rapazote ficou tocando seu rap profano a todo volume na plataforma. Os adolescentes negros muitas vezes são tratados com "excessivo rigor" pela polícia nos espaços públicos, mas este era tão branco quanto o rapper Post Malone.

Vi uma criancinha perto de mim. Perfeito. “Desligue isto!”, berrei para o adolescente. “Não percebe que há uma criança pequena aqui?” Na realidade, eu não ligava a mínima para a criança – que provavelmente estava ouvindo um podcast sobre um assassinato – eu estava apenas irritado. Mas mais do que isto, não precisava de que alguém infringisse o contrato social em que todos acabamos quando desaparecemos debaixo da terra.

Passar o bilhete do metrô ou pular a catraca é um ato que nos introduz em um mundo repleto de regras. Não me refiro a: “deixem os passageiros sair em primeiro lugar”, ou “não abram suas enormes pernas” ou mesmo “paguem a passagem”. A Empresa Metropolitana de Transportes planeja contratar 500 novos policiais “principalmente para dar suporte à evasão das passagens e  às iniciativas para amenizar a falta de moradia”, segundo a sua proposta orçamentária.

O que deixou muitos passageiros incrédulos – tanto em relação ao custo, US$ 50 milhões ao ano em uma época em que o metrô  registra um enorme déficit e precisa desesperadamente de investimentos em reparos, quanto ao fato de que o Departamento de Polícia de Nova York afirma que a criminalidade no metrô hoje é menor do que no ano passado.

Os passageiros preocupados compartilham vídeos e fotos da polícia provocando e apontando armas para adolescentes negros que não pagam a passagem, e levando embora o carrinho de uma vendedora ambulante de comida em prantos.  Notei pichações que diziam: “Mais churros e menos polícia”. Compartilho deste sentimento. Não estou preocupada com a imigrante que oferece comida por um dólar ou com pessoas que precisam ir a algum lugar e não têm US$ 2,75 para comprar o bilhete. Estou preocupada com o empurra-empurra, os atrasos, o bem-estar dos funcionários do metrô e, evidentemente, com os ouvidos das criancinhas.

 As regras com as quais eu me importo não estão escritas, por exemplo: “não incomode os outros passageiros” e “fique sempre de olho na tela do seu celular”. Às vezes, quando consigo deixar de olhar o meu, e estico o pescoço para ver  quantas paradas faltam ainda, observo por acaso uma pessoa que me observa. Ambos fazemos uma careta de desaprovação e depois voltamos aos nossos respectivos celulares. Como tem de ser.

Dito isto, de vez em quando, prestar  atenção pode ser uma experiência fantástica. Uma tarde, olhando pela janela do trem, vi a mulher que até então sentara na minha frente dar dois passos na plataforma, olhar para a própria mão, e depois virar a cabeça para o trem com uma expressão de horror. Naquele instante, o homem ao meu lado gritou com o sujeito sentado na minha frente. Achei que fosse atacá-lo porque ele estava pegando do chão um anel com brilhante.

Ele deu um pulo até a porta e entregou o anel para a mulher desesperada, cujo rosto se abriu em um enorme sorriso. Foi como se ela recebesse uma nova declaração de amor, desta vez  de um homem com a roupa manchada de cimento. Ele pediu desculpas para o sujeito com o qual tinha gritado, e todos caímos na risada. Foi muito bom. Trinta e cinco minutos mais tarde, acenei com a mão despedindo-me do homem de roupa manchada. Ele fez uma cara como para dizer: “Quem diabo é você?” Ele tinha esquecido de que havíamos compartilhado daquele momento e, honestamente, isto o tornou perfeito.

Nada de romantismos sobre o metrô. Os atrasos e a lotação constante me enlouquecem. Quando fui morar em Nova York, fiquei animado com as possibilidades de um futuro maravilhoso de integração entre as pessoas que os trens me abriam. Meus olhos brilhavam quando observava o velho judeu ortodoxo dormitando ao lado de um sujeito com o cabelo à la moicano e de jaqueta de couro que lia ao lado de uma mulher de sari com um bebê no colo, etc. Agora, só quero um lugar para sentar, dar uma olhada no Instagram e comer meus churros em paz.

No entanto, talvez não estivesse sendo ingênua, de acordo com o livro International Express: New Yorker on the 7 Train, sobre a linha lotada de Queens onde se falam 80 línguas. “Uma das características mais notáveis do processo pelo qual uma pessoa se torna um cidadão comum no transporte de massa é que as categorias étnicas e raciais, que talvez parecessem distanciar-se dos companheiros de viagem, em geral são rapidamente menosprezadas como algo secundário”, escrevem os autores. “Este processo que consiste em conhecer e contudo ignorar pelo qual os passageiros se tornam nova-iorquinos ‘blasé’ no metrô é essencial para definir uma comunidade em trânsito”.

No entanto, temo que nem todos vejamos a coisa deste prisma. Eu me pergunto se gente ricas alguma vez usou o metrô. E me pergunto por que razão o governador Andrew Cuomo e a M.T.A. priorizam as soluções erradas, e ainda se conseguirei aguentar muitos anos de um serviço que não é confiável. Depois, algo acontece e eu volto a ser piegas.

No mês passado, estava esperando o trem quando vi alguém pular na plataforma e entrar no trem enquanto as portas se fechavam. Ele não percebeu que deixara cair a carteira na plataforma. Uma mulher a pegou e olhou para mim, fazendo um sinal como para dizer "O que devo fazer?". Relutando, tirei os fones de ouvido e pedi para dar uma olhada na carteira. No seu interior estava a identidade de um homem, e rapidamente, o encontrei no Instagram. Seu perfil dizia que ele nasceu em Donetsk, na Ucrânia, e sua conta mostrava o seu trabalho.

Era um artista conceitual. Mandei um mensagem para ele e esperei sua resposta. Então o meu trem chegou. Entrei no vagão com a mulher e a criança, que se apoiou em mim enquanto eu mostrava a obra do artista para as duas. Ele respondeu imediatamente, dizendo que desceria três estações adiante. Desceu também a mulher com a criança, que acenou para mim como se fôssemos velhas amigas. Do meu assento no trem que se movia, vi que o artista pegava de volta a sua carteira. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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