Sarah Blesener/The New York Times
Sarah Blesener/The New York Times

Nova York, uma cidade especialmente vulnerável à pandemia

A densidade populacional é um inimigo numa situação como esta, avalia epidemiologista da Universidade de Stanford

Brian M. Rosenthal, The New York Times

02 de abril de 2020 | 06h00

Nova York tentou conter a disseminação do coronavírus cancelando aulas, fechando comércios não essenciais e instando a população a ficar em casa quase o tempo todo. Mas enfrenta um outro obstáculo na tentativa de evitar novos casos: sua alta densidade populacional.

Nova York é muito mais abarrotada do que qualquer outra cidade dos Estados Unidos. Tem cerca de 11 mil habitantes por quilômetro quadrado, enquanto São Francisco, a segunda da lista, tem cerca de 6.600, de acordo com dados do censo.

O fato de haver tanta gente em tão pouco espaço parece ter ajudado o vírus a se espalhar rapidamente pelo metrô lotado, pelos parques cheios e pelos prédios de apartamentos apertados, formando círculos de infecção cada vez maiores e fazendo de Nova York o epicentro do surto nos Estados Unidos.

“A densidade é de fato um inimigo numa situação como esta”, disse Steven Goodman, epidemiologista da Universidade de Stanford, na Califórnia. “Nos grandes centros populacionais, onde as pessoas interagem com muito mais pessoas o tempo todo, é aí que os vírus se espalham mais rapidamente”.

Em um dia de trabalho comum, mais de 5 milhões de pessoas embarcam nos trens do metrô nova-iorquino - número de viagens que Los Angeles precisa de quinze dias para somar. Muito mais pessoas vivem em moradias públicas apertadas em Nova York - 400 mil - do que em qualquer outra cidade. E todos os anos quase 40 milhões de pessoas visitam a Times Square, uma das atrações turísticas mais movimentadas do mundo.

Nas últimas semanas, enquanto o coronavírus invadia o país, esse mar de gente se tornou um alvo fácil.

A Dra. Deborah L. Birx, coordenadora da resposta ao coronavírus da Casa Branca, disse em 23 de março que a “taxa de ataque” - a porcentagem da população infectada pelo vírus - era de quase 1 em 1.000 na área de Nova York, cinco vezes maior que em outras regiões do país.

“Então, para todos os meus amigos e colegas em Nova York, esta é a população que mais precisa de autoisolamento e um absoluto distanciamento social agora”, disse ela. “Claramente, o vírus estava circulando na cidade por várias semanas para ter esse nível de penetração”.

A preocupação com a densidade populacional sempre esteve no topo da lista enquanto as autoridades nova-iorquinas discutiam a propagação do vírus em tons cada vez mais alarmados. A cidade agora está entre os piores focos da contaminação do planeta: no momento, Nova York tem mais casos de coronavírus per capita do que a Itália, um dos piores epicentros do vírus no mundo.

O coronavírus parece se espalhar de pessoa para pessoa através de gotículas produzidas por tosse, espirro e saliva. É transmitido sobretudo por pessoas com sintomas, mas a transmissão assintomática também parece possível.

O vírus se espalhou por todo o mundo, até mesmo por cidades e países que não são muito movimentados. Mas os pesquisadores notaram que a cidade de Nova York tem uma população e uma densidade demográfica semelhantes às de Wuhan, cidade chinesa onde surgiu o novo coronavírus.

Nova York é uma cidade única, um centro econômico regional que também é um ímã para o comércio e o turismo internacionais, atraindo 60 milhões de visitantes por ano. Antes do surto de coronavírus parar a cidade, mais de 3 mil aviões pousavam em seus aeroportos todos os dias.

Recebendo diariamente viajantes e passageiros de estados vizinhos, a cidade abriga cerca de 10 milhões de pessoas ao mesmo tempo.

Talvez existam outras razões além da densidade populacional para cidades como Los Angeles terem uma taxa tão menor de casos de coronavírus em comparação com Nova York, disseram os pesquisadores.

Outro fator que pode explicar a diferença nas taxas de Nova York e Los Angeles talvez seja o clima mais quente do sul da Califórnia, com temperaturas que alguns acreditam que podem retardar o avanço do vírus.

Entre outros fatores possíveis estão as melhores medidas de contenção ou apenas a aleatoriedade de quem contraiu o vírus.

Ainda assim, especialistas em saúde pública disseram que a densidade provavelmente é a maior razão pela qual o vírus se espalhou por Nova York e ainda não atingiu outros lugares com a mesma intensidade. Eles pediram que outras cidades do país prestem mais atenção.

“Nova York muitas vezes é a primeira a ser atingida, por causa da densidade e da quantidade de viajantes internacionais”, disse Thomas R. Frieden, ex-diretor dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças e também do Departamento de Saúde da cidade de Nova York.

“A questão agora é se o resto do país aprenderá a lição e evitará o drama que a cidade está enfrentando e provavelmente irá piorar nos próximos dias e semanas”. / Patricia Mazzei, Adam Popescu e Liam Stack contribuíram com reportagem. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.