Cornell Tukiri / The New York Times
Cornell Tukiri / The New York Times

Nova Zelândia confronta seu passado sangrento

Atos de vandalismo em Hamilton lembram da dor que colonos brancos infligiram aos nativos maori

Jamie Tarabay, The New York Times

14 de dezembro de 2019 | 06h00

HAMILTON, NOVA ZELÂNDIA - Em uma manhã de 2018, um homem maori de 80 anos caminhou até a estátua de um comandante naval britânico da era colonial carregando uma lata de tinta e uma marreta. “A tinta vermelha era para mudar sua aparência, e a marreta, para quebrar seu nariz", disse Taitimu Maipi.

O ato de vandalismo de  Maipi em Hamilton, na Nova Zelândia, tinha como objetivo servir de lembrete da dor que os colonos brancos infligiram aos nativos maori. Acabou resultando em um acerto de contas nacional em relação à memória histórica e à identidade cultural.

O ataque em Hamilton foi amplamente coberto pelo jornal local. Os moradores responderam com cartas denunciando o vandalismo. E o debate chamou a atenção de uma leitora de longa data: a primeira-ministra Jacinda Ardern.

Em setembro, Jacinda anunciou que o currículo escolar nacional seria alterado para incluir aulas a respeito das Guerras Neozelandesas do século 19, durante as quais soldados britânicos mataram mais de dois mil maoris.

Em uma época diferente, o gesto de protesto aparentemente individual - depois do ataque, Maipi passou na prefeitura para deixar suas informações de contato, e acabou dispensado com um aviso da polícia - poderia cair rapidamente no esquecimento.  Mas, após o ato de vandalismo, alguns neozelandeses começaram a pedir a remoção da estátua do capitão John Hamilton (a cidade recebe o seu nome, embora ele nunca tenha pisado lá) por causa do papel desempenhado por ele durante o conflito de disputa de terras com os maori, entre 1845 e 1872.

Esses conflitos tiveram início após a assinatura do Tratado de Waitangi, em 1840, entre o governo colonial e os maori. As disputas envolvendo a veerania nda de terras evoluíram para grandes campanhas de confisco de território e afirmação da sobbritânica.

Os ataques aos maoris foram seguidos por levantes nas comunidades e, mais de 100 anos mais tarde, essas ainda apresentam baixos indicadores sociais, como renda e expectativa de vida, ainda que o governo trabalhe para diminuir essa diferença. A Nova Zelândia ainda paga centenas de milhões de dólares em indenizações ligadas ao tratado.

Outros cidadãos - muitos deles brancos e mais velhos, que escreveram ao Waikato Times - se queixaram da destruição de propriedade pública e disseram que remover a estátua seria como uma tentativa de apagar a história. Alguns usaram termos racistas.

Se parte dos comentários racistas poderia ser ignorada no passado, disse o repórter Aaron Leaman, do Waikato Times, depois do massacre cometido em duas mesquitas de Christchurch, o discurso desse tipo exige atenção. “É fácil subestimá-los como loucura de uns poucos extremistas, mas, depois de Christchurch, o discurso de ódio é levado a sério."

A redação decidiu trabalhar no sentido de educar o leitor, disse Jonathan MacKenzie, editor-chefe do Waikato Times. “Pensamos em publicar algumas reportagens a respeito de pessoas que combateram ao lado dos maoris na guerra; são relatos transmitidos oralmente", explicou. 

Maipi disse que os neozelandeses são mais dedicados à comemoração de guerras estrangeiras do que ao reconhecimento da própria história, por causa do custo pago pelos maoris. “Precisamos ensinar ao país essa história; precisamos ensinar às nossas crianças", defendeu. “A história será contada pelas crianças. Se não contarmos a elas, a história morrerá.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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