Clodagh Kilcoyne/Reuters
Clodagh Kilcoyne/Reuters

Novos conflitos dividem a Irlanda do Norte

De 2017 a 2018 foram registrados 68 episódios com armas de fogo e atentados a bomba; incidentes estão relacionados a grupos paramilitares

Patrick Kingsley, The New York Times

15 de maio de 2019 | 06h00

LONDONDERRY, IRLANDA DO NORTE - Começou com uma operação policial em um suposto esconderijo de armas, perto do clube de jovens de Stevie Mallet. Alguns moradores reagiram com pedras, coquetéis molotov e, depois, balas contra a polícia. Uma jovem jornalista acabou morta. Para alguns na Irlanda do Norte, o tumulto ocorrido em meados de abril lembrava o conflito encerrado em 1998. Mas para Mallett, que conhece alguns dos jovens envolvidos, foi até certo ponto previsível. “A gente falando para eles o tempo todo que a situação vai melhorar, mas eles dizem: Quando? Quando é que isto vai acontecer?”, questionou Mallett, caminhando pela rua onde a jornalista Lyra McKee foi baleada, enquanto estava atrás das linhas da polícia. “Continuamos vivendo na pobreza."

Depois de uma guerrilha que durou cerca de 30 anos, o acordo de paz, conhecido como o acordo da Sexta-Feira Santa, convenceu grupos militantes da região, principalmente o Exército Republicano Irlandês provisório, a depor as armas. Foi criada uma nova forma de governo com o poder compartilhado entre os que queriam que a região continuasse fazendo parte do Reino Unido, e os que buscavam uma Irlanda unida. Foram prometidos grandes investimentos para recuperar a economia. Os controles de fronteira foram retirados. No entanto, 21 anos depois do acordo, ainda há os que querem reunir a Irlanda por meio de um conflito armado.

As estatísticas policiais mostram que, embora, nos últimos dez anos, os incidentes relacionados a grupos paramilitares tenham diminuído ligeiramente, continuam ocorrendo: de 2017 a 2018 foram registrados 68 episódios com armas de fogo e atentados a bomba.

O Novo IRA é um dos grupos paramilitares. A esta organização foi atribuída uma série de incidentes, como o do tiro que matou Lyra. O grupo se considera o porta-bandeira da causa republicana da união do país. Entretanto, na Irlanda do Norte, em geral, é considerado pouco mais do que uma gangue de criminosos que usa os objetivos elevados do republicanismo irlandês para mascarar fins violentos.

Mallett afirma que as ações do Novo IRA podem ser em parte explicadas, embora não justificadas, pela precariedade econômica em que muitos se encontram. “As coisas  estavam mudando, mas pararam de mudar”, observou Mallett.

Segundo uma análise, a economia em Londonderry está crescendo mais lentamente do que a de qualquer outra cidade do Reino Unido. A taxa de desemprego está nos 3% menor em relação a todos os distritos do país. Muitos acham que nunca tiveram acesso aos dividendos econômicos do acordo de paz.

O colapso do acordo de divisão do poder regional, que deixou a Irlanda do Norte sem um governo local, também contribuiu para a percepção de que o processo de paz falhou. E, também, a perspectiva do Brexit, que poderá obrigar a reintrodução dos controles de fronteira. Por sua vez, o Novo IRA nega que seus membros sejam motivados pela privação econômica, pelo Brexit ou pelas falhas do processo de paz. Ele afirma que seus membros são movidos, principalmente, pelo objetivo da reunificação irlandesa. “Não tem nada a ver com dinheiro”, disse um membro do movimento. “Podemos ter todo o dinheiro do mundo, mas enquanto não ocorrer a saída total britânica, continuaremos lutando."

Entretanto, a volta dos controles de fronteira, afirmou, poderá tornar-se um instrumento útil para recrutarmos adeptos.“Os controles de fronteira seriam brilhantes. Eles trazem de volta a ideia de que este país foi dividido." / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

 

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