Ian C. Bates para The New York Times
Ian C. Bates para The New York Times

Novas gerações podem salvar indústria de colchões d'água

Charles Hall foi pioneiro da criação do produto e prevê melhoras no setor

Penelope Green, The New York Times

06 de janeiro de 2019 | 06h00

Ele usou inicialmente geleia e amido de milho, mas a gosma, colocada em uma bexiga de vinil, ficava pesada demais para se mexer. E depois de alguns dias, começava a feder. Então tentou a água. Era o ano de 1967 e Charles Hall fazia experiências com um móvel de flutuação, como o chamava, para uma aula de engenharia na Universidade do Estado da Califórnia. (Ele recebeu nota “A“.) No ano seguinte, o seu Poço dos Prazeres aquecido estreou em uma galeria.

As fabricantes de colchões o recusaram, assim como as lojas de departamentos, então Hall tratou de vende-lo pessoalmente, usando a sua perua Rambler para entregar as camas às lojas, a um membro da Jefferson Airplane, a um dos irmãos Smothers, a uma colônia de nudistas e, como não podia deixar de ser, a Hugh Hefner, que encomendara um para a Mansão da Playboy, acolchoado de veludo verde. Hall falou com honestidade dos benefícios da sua invenção: a falta da sensação de peso contribui para a saúde e o bem-estar. “Eu estava tentando melhorar a experiência do sono”, explicou.

Hall e um sócio encontraram investidores, e a sua companhia, a Innerspace Environments, inaugurou mais de 30 lojas na Califórnia. Hall patenteou a sua versão forrada, aquecida, que era vendida com uma armação robusta de pau brasil, mas isto não impediu que surgissem muitos imitadores vendendo  falsificações baratas. O primeiro Pleasure Bed, como Hall chamou o seu modelo, foi vendido por 350 dólares. Em 1975, a companhia de Hall faliu em razão da má administração dos seus investidores, afirmou, e ele partiu para outros empreendimentos.

O colchão de água continuou evoluindo mesmo assim, ignorando as sórdidas associações como grosseiros apetrechos sexuais. Em 1986, segundo a Waterbed Manufacturers Association, as vendas de camas de água chegaram quase à marca dos 2 bilhões de dólares - de 12% a 15% do mercado de colchões dos Estados Unidos - e varejistas como a Waterbed City da Florida ganhavam milhões de dólares.

Hall continuou assessorando várias companhias, e a aperfeiçoar o seu projeto, assim como outros. Já iam longe as camas com estrutura de madeira, e os sloshings (camas que esguicham), como os colchões de água eram chamados, passaram a ser embutidos em estruturas especiais com bordas macias. Em 1991, um em cada cinco colchões vendidos era um colchão de água. Entretanto, poucos anos depois, as camas de água deixaram de ser uma atração. As fabricantes de colchões tradicionais  procuraram melhorar o conforto dos seus produtos.

Recentemente encontrei Hall, hoje com 75 anos, em seu bangalô, no estado de Washington. Era o 50º aniversário do lançamento no mercado do colchão de água, e ele voltou a ficar muito animado com a sua invenção, que modernizou. Há três anos, Keith Koenig da City Furniture (antiga Watertbed City) e Michael Geraghty, um fabricante, decidiram, como disse Koenig, “que já tinha chegado a hora”.

A nova geração de colchões de água de Hall se chama Afloat. Uma cama queen size custa entre 1.995 dólares e 2.395 dólares, e inclui o aquecedor, um kit para encher o colchão de água e esvaziá-lo e uma armação de metal. Koenig vende os Afloat em suas lojas na Flórida desde julho. “A primeira encomenda foi de cerca 100 unidades”, contou, “e venderam bastante rapidamente”.

Este mês, contou, os Afloat poderão ser adquiridos online. E acrescentou que espera que os seus novos colchões não sejam adquiridos  apenas para idosos com achaques, mas para a Geração X, e a dos Millenials. Hall mora sozinho com dois Afloats: um colchão duplo em seu quarto de hóspedes, que pode ser aquecido ou esfriado, e uma cama king size com colchão de solteiro em seu quarto, um modelo aprimorado fabuloso que  ele construiu há alguns anos.

Com 40 patentes em seu nome, Hall também tem casas na Califórnia e nove carros esporte, entre eles um Jaguar Roadster E-Type 1966, um Aston Martin, uma Ferrari e um cupê Mercedes prata. Há ainda fortunas a serem ganhas no quarto de dormir. A dos colchões é uma indústria de 15 bilhões de dólares nos EUA, segundo a publicação do setor, Furniture Today.

Warren Shoulberg, um consultor do ramo de móveis para residências também acredita que chegou o momento. “Esta geração não associa o colchão de água a um lugar onde homens solteiros podem dormir, na esperança de atrair jovens senhoras em suas casas”, disse Shoulberg. “A outra coisa é que os consumidores não têm ideia do que a maioria dos colchões contém”. “O colchão de água é simples”, acrescentou. “É um saco grande cheio de água”.

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