Yigit Eken/Netflix, via The New York Times
Yigit Eken/Netflix, via The New York Times

Novela turca atrai espectadores de todo o mundo

Símbolo do poder brando da Turquia, as produções são um fenômeno na América Latina, Europa e Oriente Médio

Alex Marshall, The New York Times

13 Janeiro 2019 | 06h00

LONDRES - Numa noite recente, Nahid Akhtar, 47 anos, estava sentada no sofá em Londres gritando com a TV. Assistia a O Último Guardião, a primeira produção original da Netflix em turco. A série, lançada naquele dia, é a história de um jovem negociante de antiguidades, Hakan Demir (Cagatay Ulusoy), que descobre pertencer a uma antiga linhagem de super-heróis que precisam salvar Istambul do mal - e, ao mesmo tempo, encontrar o amor.

"Não, por favor, não mate o baba dele!", foi o apelo de Nahid, grande fã das novelas turcas, justamente antes de o pai de Demir ser morto. "Há tantos órfãos nas novelas turcas", disse. Na tela, Hakan estava às lágrimas. "Aí está outra coisa que gosto nos programas turcos. Mostram muitos momentos emocionantes", comentou Nahid. 

O Último Guardião é a mais recente evidência da difusão das novelas turcas pelo mundo. Na Turquia, várias séries dramáticas disputam os espectadores todas as noites, e cada episódio de duas horas ou mais parece repleto de romance, brigas entre parentes e gângsteres (os episódios de O Último Guardião têm 40 minutos, mais fáceis de administrar). Alguns parecem ligados ao crescente nacionalismo no país; outros enfureceram os conservadores ao mostrar figuras históricas como bêbados e mulherengos.

Os programas são um fenômeno no Oriente Médio e na América Latina e se tornaram símbolo do poder brando turco a ponto de serem usados como moeda de troca em disputas políticas. No dia 1.º de março, por exemplo, a emissora saudita via satélite MBC interrompeu abruptamente a transmissão de novelas turcas, cortando alguns títulos no meio da temporada, aparentemente em resposta ao apoio turco ao Catar (a MBC não respondeu aos pedidos de contato).

Agora, as novelas estão se espalhando pela Europa. Este ano, uma versão dublada de Fatmagul, premiada novela a respeito das consequências de um estupro coletivo, atraiu quase um milhão de espectadores por episódio na Espanha. Outros seriados encontraram sucesso em países como Bulgária e Suécia.

De acordo com Fredrik af Malmborg, diretor administrativo da distribuidora de TV Ecchorights, apenas França, Alemanha, Grã-Bretanha e Estados Unidos resistem. "Os programas de TV turcos giram em torno da família e de questões morais", disse ele. "É tudo um pouco conservador, um pouco antiquado, mas não há cinismo". A Netflix exibe novelas turcas desde 2016, mas, segundo af Malmborg, a decisão de produzir seu próprio seriado demonstra seu crescente apelo.

A segunda temporada de O Último Guardião já foi encomendada, e a Netflix está trabalhando em outra produção original estrelada por Beren Saat, uma das atrizes mais populares da Turquia. 

Já existe na Europa e na América toda uma comunidade de fãs que pode ser explorada pela Netflix. Nahid conheceu as novelas turcas em janeiro de 2017, quando estava de cama. "Tive uma gripe crônica, muito forte", disse ela. Entediada, ela abriu a Netflix, que recomendou a ela um episódio do romance de guerra Kurt Seyit ve Sura.

"Pensei em experimentar algo diferente. Os episódios tinham apenas 45 minutos e fiquei absolutamente encantada", comentou.

A doutoranda Yasemin Y. Celikkol, da Universidade da Pensilvânia, disse que algumas séries demonstraram ressoar especificamente em determinados países. Um programa chamado O Cair das Folhas fez sucesso na Bulgária, segundo ela, porque a trama retrata "as coisas terríveis que acontecem com as famílias quando se mudam para as cidades". Ela explicou que a imigração interna é intensa na Bulgária, e o público se identificou com o que via na tela.

As novelas também ajudaram a mudar a imagem da Turquia na Rússia, disse Yasemin, levando muitos russos a viajarem ao país nas férias - para procurar maridos ou buscar tratamento médico. Mas ela acrescentou que esse movimento parece ter produzido uma reação. Em 2016, uma empresa russa de TV produziu a série Leste/Oeste, a respeito de um casal russo que visita uma clínica de fertilidade na Turquia, mas a mulher russa acaba se tornando a infeliz segunda esposa do médico turco.

"Era como se a novela dissesse às russas, 'Não vão até lá, vocês perderão sua liberdade e o acesso aos filhos'", disse Yasemin. 

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