Vincent Tullo / The New York Times
Vincent Tullo / The New York Times

Novo centro artístico redesenha a cena cultural de Nova York 

Após dez anos em construção, o equipamento é localizado em meio à elite, mas destinado a todos

Michael Cooper, The New York Times

19 de abril de 2019 | 06h00

Duas semanas antes da inauguração do Shed ("Barracão"), um centro de artes de US$ 475 milhões localizado onde o parque High Line encontra o empreendimento Hudson Yards, operários de capacete estavam ocupados transformando seu maior teatro em uma pista de dança para a celebração da música negra americana que inaugurou a instalação no dia 5 de abril. Em seguida, eles vão instalar 1.200 lugares para uma série de apresentações da cantora Bjork. Então os assentos serão reconfigurados para um musical inspirado no kung fu, com acrobatas e canções de Sia. E, ainda neste ano, as paredes e o teto do teatro vão desaparecer, e seu revestimento recuará para expor uma praça externa que receberá apresentações ao ar livre.

Nunca houve em Nova York uma entidade cultural nova como o Shed, e a diferença não está apenas no seu edifício incomum. O projeto nasceu da tentativa fracassada de trazer as Olimpíadas para Manhattan. Foi estimulado pelo prefeito Michael R. Bloomberg, que apostou nele US$ 75 milhões do dinheiro público e, posteriormente, outros US$ 75 milhões doados do próprio bolso. Antes mesmo da sua inauguração, o local tinha captado quase meio bilhão de dólares.

Agora, o centro está aberto no empreendimento Hudson Yards, uma novidade que críticos e admiradores compararam a Dubai, descrita em lamento do crítico de arquitetura Michael Kimmelman, do New York Times, como “um agigantado complexo suburbano de escritórios, com um shopping e uma comunidade praticamente fechada, voltada para o 0,1% mais rico”. Se o Shed alcançar seu objetivo de receber os 99,9% restantes, o centro poderá funcionar como um antídoto para isso.

Alguns dos seus defensores o consideram a maior novidade entre as entidades culturais da cidade desde a inauguração do Lincoln Center nos anos 1960; para outros, lembra mais a ascensão do Park Avenue Armory enquanto centro artístico multidisciplinar em 2007. Seja como for, é raro ver uma instituição nova atrair um apoio tão generoso, ganhando uma inauguração dessa escala. O Shed foi desenvolvido ao longo de mais de uma década, e seu nascimento não foi sempre um processo tranquilo.

Tudo começou há mais de duas décadas, com o sonho de um inventor chamado Daniel L. Doctoroff, que desejava trazer as Olimpíadas para Nova York. Quando se tornou subprefeito da gestão Bloomberg, ele continuou a pressionar pela construção de um novo estádio de futebol americano para os Jets, da Liga Nacional, o que reforçaria a proposta da cidade para a realização de uma olimpíada.

O plano foi detido por autoridades estaduais depois de encontrar oposição política e comunitária, encerrando a tentativa de receber os jogos. Mas a cidade já tinha alterado o zoneamento de uma vasta área - abrindo caminho para o que se tornaria os Hudson Yards. Um elemento do plano previa a construção de uma instituição cultural em terras pertencentes à cidade.

Era o tipo de benfeitoria que costuma ser acrescentada a projetos imobiliários para ajudá-los na obtenção de aprovação. Mas refletia também o apoio geral da gestão Bloomberg às artes. A cidade começou a realizar sessões de ideias com os líderes de sua comunidade artística, e decidiram que o novo espaço deveria ser flexível para atender ao desejo de muitos artistas interessados em misturar disciplinas. “Os dançarinos estavam ainda mais interessados em trabalhar com os artistas visuais", afirmou Kate D. Levin, que ajudou a desenvolver o projeto enquanto comissária de Bloomberg para assuntos culturais e integra atualmente o conselho do Shed. “Os músicos queriam trabalhar com os tipos teatrais de expressão do seu trabalho”.

As empresas de arquitetura contratadas para projetá-lo - Diller Scofidio + Renfro, em colaboração com o Rockwell Group - criaram a característica mais saliente do edifício: sua concha deslizante. Era uma encarnação física da flexibilidade desejada, mas também um design chamativo que se tornou um dos principais atrativos de um projeto que ainda lutava para se definir. Além disso, fazia dobrar sua pegada.

Inicialmente, os fundadores o batizaram de Culture Shed (Barracão Cultural). “Uma das definições de 'shed' é ‘estrutura de propósito genérico equipada com ferramentas’”, explicou Doctoroff, “e era assim que enxergávamos o local, como uma plataforma para os artistas". 

Os temores iniciais com a possibilidade de uma obra que consumiria os recursos culturais da cidade foram colocados de lado em 2014, quando o Shed nomeou seu primeiro diretor artístico e diretor executivo: Alex Poots, fundador do Festival Internacional de Manchester, na Grã-Bretanha, e ex-diretor artístico do Park Avenue Armory, à frente do qual fez do Upper East Side de Manhattan um destino procurado pelo público da arte de ponta.

Quando procuraram Poots para o projeto, ele não demonstrou interesse.“Lembro de que, quando eles me abordaram, meu interesse era saber de quanto seria a comissão”, disse. Antes de aceitar o cargo, Poots insistiu que o Shed encomendasse obras novas, às vezes com parceiros de outros lugares. Foi uma mudança radical para uma entidade que pensou em alugar seu espaço para instituições visitantes, e para uma cidade cujos apresentadores costumam importar companhias visitantes que mostram obras criadas por teatros e festivais de outros lugares.

“Eu estava descrevendo uma organização bem diferente, com o dobro dos funcionários e um fundo de financiamento até então ausente", lembrou Poots.O conselho aprovou. Mudanças foram realizadas no edifício. Ele queria ampliar a capacidade dos teatros e, mais importante, buscava um isolamento acústico melhor. “Com isso, poderíamos receber Kendrick Lamar a 108 decibéis sem que isso afetasse as galerias e, principalmente, o teatro". 

Essas mudanças somaram US$ 26 milhões ao custo. O Shed captou um total de US$ 529 milhões. Mas ainda restam desafios a enfrentar. Funcionários do centro se mostraram relutantes ao debater seu orçamento operacional ou o plano de negócios da instituição, mas disseram acreditar que será feito um gasto de aproximadamente US$ 50 milhões no primeiro ano. Eles esperam gerar renda com aluguéis; o Shed tem um espaço para eventos no andar de cima, e fala-se em receber ali a Semana da Moda.

Agora o espaço terá de definir a si mesmo, e também o seu lugar na cidade. Faz parte do extremo norte do High Line, o popular parque elevado que ocupa um trecho abandonado da ferrovia? Ou é uma benfeitoria do Hudson Yards num reluzente amálgama entre torres de escritórios, condomínios e um shopping de luxo onde são oferecidos cortes de cabelo por US$ 800?

As tensões são claras. O Shed é visto como um local onde os artistas podem criar novas obras, mas se situa numa área que passou a simbolizar aluguéis exorbitantes que afastaram artistas da cidade. Poots disse que, na sua visão para o Shed - como lugar que abre os braços para o avant-garde e o pop, bem como para a música, o teatro e a dança -, a ideia era criar um elo com a cidade e seus diferentes públicos.

“A ideia de criarmos obras novas, de solicitarmos projetos em todas as formas de arte, possibilita uma paridade", comentou. “Não só entre as formas de arte, mas na sociedade como um todo”. O Shed oferece ingressos a US$ 10 para o público de baixa renda, iniciando um programa de ensino de dança nas escolas e nos centros habitacionais comunitários, e apresentando obras de 52 artistas emergentes de toda a cidade - incluindo o coletivo de dança It’s Showtime NYC!, nascido de artistas que eram proibidos de se apresentarem no metrô.

O seu design flexível contém a possibilidade de apresentar uma grande variedade de obras, sem serem demasiadamente limitadas pelos contornos do edifício. E essa era a ideia, desde o princípio. Os atletas não vieram, mas Bjork e outros artistas virão. /TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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