Hector Retamal/Agence France-Presse — Getty Images
Hector Retamal/Agence France-Presse — Getty Images

Novo coronavírus é mais um golpe contra a globalização

À medida que o coronavírus atinge a Europa, surgem questões sobre os riscos das viagens aéreas, as mudanças climáticas e racismo

Steven Erlanger, The New York Times

08 de março de 2020 | 06h00

BRUXELAS — A globalização, expressão abrangente para nossa realidade interconectada, já estava sob ataque pelos populistas, os guerreiros comerciais e os ativistas ambientais, tornando-se um alvo fácil para as queixas inspiradas por todos os problemas que nos afetam. Agora, temos o novo coronavírus.

De acordo com os especialistas, sua difusão pode ser um momento decisivo no debate que vai determinar o quando o mundo vai se integrar ou se separar. Mesmo antes da chegada do vírus à Europa, a mudança climática, as preocupações de segurança e as queixas em relação a um comércio injusto tinham intensificado a ansiedade diante das viagens aéreas e as cadeias de fornecimento industrial globalizadas, bem como as dúvidas quanto à confiabilidade da China enquanto parceira.

O vírus já desferiu outro golpe às economias em desaceleração, e estimulou os populistas a retomarem os apelos (revestidos de racismo e xenofobia) por controles mais rigorosos para os imigrantes, os turistas e até as empresas multinacionais. Em meio a todos os desafios à globalização, muitos deles políticos ou ideológicos, esse vírus pode ser diferente.

“Estamos à mercê da natureza e, quando esses episódios são superados, tendemos a esquecê-los e seguir com nossas vidas", disse Ivan Vejvoda, pesquisador do Instituto de Ciências Humanas de Viena. “Mas esse vírus trouxe ao primeiro plano todas nossas dúvidas em relação ao mundo interconectado que construímos.”

Conforme o vírus se espalha, disse Vejvoda, “a situação faz a China parecer mais frágil, e nossa dependência em relação à China enquanto ‘fábrica do mundo’ parece um ponto fraco". As tensões políticas entre Estados Unidos e China em relação ao comércio, além das preocupações com a mudança climática, já trouxeram perguntas quanto ao sentido e o custo do transporte de peças de um país ao outro e o potencial de tarifas de carbono cobradas na fronteira, disse Robin Niblett, diretor da Chatham House, instituição de pesquisa de Londres.

De acordo com Niblett, somado ao risco de uma cadeia de fornecimento vulnerável à um surto do próximo vírus, ou às vulnerabilidades de uma China autoritária, “Isso leva as empresas a pensarem duas vezes antes de se expor". A globalização de doenças não é novidade, apontou Guntram Wolff, diretor da Bruegel, instituição de pesquisa de Bruxelas, citando as mortes em massa que ocorreram na esteira da chegada dos europeus à América, ou a peste.

“A diferença é que, com os aviões, tudo pode se espalhar muito rapidamente", disse ele. Cidadãos preocupados com o clima já estavam fazendo campanha contra viagens aéreas desnecessárias, além de defenderem tecnologias digitais que permitem a participação remota e a transmissão de informações.

“Chegamos a nos perguntar se o auge global dos transportes aéreos já passou", disse Wolff. “Muitos estão perguntando se realmente precisamos desse tipo de viagem com tanta regularidade.” Esse vírus sublinha o desequilíbrio na globalização. As cadeias de fornecimento do setor privado se tornaram muito eficientes. As viagens aéreas são abrangentes e contínuas. Com isso, o setor privado está constantemente se movimentando pelo mundo.

Mas todas as respostas governamentais coordenadas são frequentemente fracas e desorganizadas — seja em relação à mudança climática, uma crise de saúde ou problemas no comércio. Theresa Fallon, diretora do Centro de Estudos para a Rússia, Europa e Ásia, disse que boa parte da reação pode ser agora dirigida à China.

Ela voltou recentemente de Milão, um dos focos da epidemia, onde os habitantes locais estão mantendo distância dos turistas chineses, disse ela. A crise de confiança na China não se limita à capacidade do país de combater o vírus, disse Simon Tilford, diretor da Forum New Economy, instituição de pesquisa de Berlim.

A falta de confiança “só vai reforçar uma tendência existente entre as empresas de reduzir sua dependência e o risco ao qual estão expostas", disse ele. Mas chegada do vírus à Europa também terá impacto na política, provavelmente estimulando a extrema-direita, inimiga da globalização e dos imigrantes, disse Tilford.

Os políticos que insistem no controle das fronteiras e da imigração serão fortalecidos, mesmo com o vírus ultrapassando facilmente essas barreiras. “Eles vão argumentar que o sistema atual traz ameaças não apenas econômicas, mas também de saúde e de segurança, que são existenciais, e simplesmente não podemos nos dar o luxo de manter tal grau de abertura para agradar as grandes empresas", disse Tilford.

Essa linha de raciocínio pode atrair eleitores “que desprezam o racismo aberto, mas temem a perda do controle e um sistema vulnerável a problemas em uma parte distante do mundo", acrescentou ele. Todos concordaram que o impacto racial da difusão do vírus é delicado. “É sempre diferente quando a situação acontece no nosso bairro, entre pessoas como nós", disse Stefano Stefanini, ex-diplomata italiano.

“Quando acontece na Dinamarca, na Espanha ou na Itália, tem-se a sensação de que o fenômeno ocorre entre pessoas que partilham o mesmo estilo de vida, e tememos que aconteça conosco.” Mas o vírus também permite que as pessoas manifestem uma hostilidade em relação aos chineses que talvez o público relutasse em articular, disse Tilford.

“Já existe uma corrente subterrânea de medo dos chineses na Europa e nos Estados Unidos, pois eles representam uma ameaça à hegemonia ocidental", disse ele. Esse medo é estimulado pela campanha do governo Trump contra a Huawei, empresa chinesa de telecomunicações, mas também por relatos de repressão e censura por parte dos chineses por meio do uso de tecnologias avançadas.

Muitos chineses que vivem ou trabalham no Ocidente relataram uma alta nos episódios de abuso, além de pessoas que os evitam nas ruas e no transporte público. “É um indício do quanto esses sentimentos estão à flor da pele", disse Tilford. O sociólogo italiano Ilvo Diamanti disse que a difusão do vírus “nos fez questionar nossas certezas", porque “torna nossos sistemas de defesa mais complexos, ou até desnecessários, diante de ameaças à nossa segurança".

“O mundo não tem mais fronteiras impenetráveis", escreveu ele no La Repubblica no mês passado. Para se defender do vírus, escreveu Diamanti, “seria necessário defender-se do mundo", escondendo-se em casa. “Para não morrermos contaminados pelos outros e transmitirmos nós mesmos o vírus, teríamos que morrer sozinhos.” Para ele, esse é “um risco pior do que o coronavírus". / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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