Todd Spoth para The New York Times
Todd Spoth para The New York Times

Novo destino de férias para os ricos

Com US$ 55 milhões será possível fazer uma viagem espacial privada, com coquetéis e Wi-Fi

Sheila Marikar, The New York Times

22 de junho de 2018 | 15h45

HOUSTON - Uma empresa chamada Axiom Space está oferecendo àqueles que nadam em dinheiro algo novo para cobiçar: a possibilidade de férias de oito dias no espaço.

A Axiom está construindo uma estação espacial comercial que pretende ser a combinação entre um hotel chique, um acampamento de férias espacial para adultos e um centro de pesquisa do nível da Nasa a 400 quilômetros acima da Terra. Philipe Starck - designer francês que confere estilo a tudo, de quartos de hotel a babás eletrônicas - foi contratado para decorar os interiores das cabines da estação.

Starck revestiu as paredes com um tecido  tipo camurça, acolchoado como um edredom, em tom creme e centenas de minúsculas lâmpadas LED que brilham em variadas tonalidades, dependendo do momento do dia e do local em que a estação estiver flutuando em relação à Terra.

“Minha visão é criar um ovo confortável e aconchegante, onde as paredes sejam macias e se harmonizem com os movimentos do corpo humano na gravidade zero”, escreveu Starck em um e-mail, qualificando a experiência que deseja produzir como “uma primeira abordagem para o infinito”.

Mike Suffredini, veterano da Nasa que coordenava a Estação Espacial Internacional e atualmente é diretor executivo da Axiom Space, afirmou que seu projeto é muito melhor que as naves espaciais da Virgin Galactic, de Richard Branson, e da empresa de voos espaciais Blue Origin, supervisionada por Jeff Bezos.

“Os responsáveis pela Blue Origin e Virgin Galactic chegam na beira do espaço sideral - não estão entrando em órbita", disse ele. “O que oferecem é uma experiência bem interessante, com cerca de 15 minutos de migrogravidade, pode-se ver a curvatura da Terra. Mas não se tem a experiência de observar a Terra lá de cima, com tempo para refletir, em contemplação.”

E publicando imagens no Instagram. “Teremos wi-fi”, afirmou Suffredini. “Todo mundo estará conectado.”

A previsão de inauguração da estação espacial projetada por Starck é 2022. Ela poderia abrigar oito passageiros, incluindo um astronauta profissional. Cada passageiro pagaria US$ 55 milhões, o que incluiria treinamento de 15 semanas, a maior parte no Centro Espacial Johnson, a 10 minutos de carro da sede da Axiom e, possivelmente, uma viagem em um dos foguetes da SpaceX, de Elon Musk. Até aqui, três entidades se inscreveram para o treinamento em solo, com um preço inicial de U$ 1 milhão, de acordo com Suffredini, mas ele se recusou a informar quais seriam. A viagem inaugural sairá por apenas US$ 50 milhões. “É uma pechincha!”, afirmou.

A Estação Aurora, um luxuoso hotel espacial em construção pela Orion Span, outra empresa espacial com base em Houston, anunciou que cobraria US$ 9,5 milhões por passageiro por uma viagem de 12 dias, mas não mencionou os custos da passagem de foguete de ida e volta.

Há outros obstáculos à acessibilidade além do preço. É necessário ter 21 anos ou mais - não há idade máxima - e passar num exame médico realizado antes do início do restante do treinamento, assim como testes mentais ao estilo “Os eleitos”, que exigem coragem e fibra, como um giro na centrífuga humana.

Seria exigido dos clientes da Axiom o uso de trajes espaciais como os da Nasa no caminho de ida e volta da estação. A Axiom mantém conversas com uma marca de moda europeia, que também recusou a identificar, a respeito de trajes leves com design personalizado para que os passageiros usem quando estiverem na estação.

A estação espacial Axiom teria apoios de mão que, graças a Starck, seriam folhados a ouro ou revestidos com couro macio. Cabines privativas teriam telas para entretenimento e haveria uma grande cúpula de vidro para reunir os viajantes e oferecer-lhes uma vista mais panorâmica da Terra, talvez saboreando uma bebida alcoólica.

“Vinho e coquetéis funcionam bem”, afirmou Michael Baine, o engenheiro-chefe da Axiom. “Cerveja e outras bebidas com gás, não. Não há gravidade para separar o dióxido de carbono em seu estômago, e isso causa muito inchaço.”

É importante trazer desodorante. “Há um compartimento de higiene onde você pode tomar algo semelhante a um banho de esponja”, afirmou Suffredini.

A Axiom captou mais de US$ 10 milhões em investimento até agora.

Suffredini vê a Axiom como um passo necessário para o desenvolvimento e a continuidade da pesquisa científica espacial. Sua empresa pode se alimentar de aventureiros ricaços, mas ele insiste que é um idealista. 

“Se você apenas sai para uma visita e retorna, não pode se considerar um pioneiro”, afirmou. “É preciso ser pioneiro.”

Entre os pioneiros estão cientistas pesquisadores de materiais e biólogos que tentam entender como o corpo humano se adapta fora da atmosfera terrestre. E, possivelmente, também a Tupperware.

“Eles estão interessados em trabalhar com a gente”, afirmou Suffredini, “testando diferentes tipos de frascos, descobrindo como é possível cozinhar neles de maneira higiênica. Mas essa ideia grandiosa que temos supõe a lavagem de pratos, talheres e micro-ondas. E quem quer fazer esse tipo de coisa? Em breve, começaremos a levar um mordomo com cada turma de passageiros.”

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