Heather Sten para The New York Times
Heather Sten para The New York Times

Novo filme de Spike Lee critica a Ku Klux Klan

O diretor transforma as memórias de um policial negro infiltrado na KKK em algo mais do que uma lição de História

Salamishah Tillet, The New York Times

15 Agosto 2018 | 10h00

Como diz a frase que aparece na tela, logo no início do último filme de Spike Lee, BlacKkKlansman foi "baseado em material absolutamente real". Mas em vez de começar com sua história "em que a verdade é mais doida do que a ficção" sobre o policial negro chamado Ron Stallworth (John David Washington) que nos anos 1970 se infiltrou no grupo supremacista branco Ku Klux Klan, no Colorado, Lee mostra cenas de filmes que ele revisitara: O Nascimento de uma nação, de D. W. Griffith, e E o Vento Levou, vencedor de vários Oscar.

O diretor utiliza esses dois clássicos do cinema para mais uma vez contar a história do terrorismo racial americano. A justaposição é típica de Lee: uma mescla de sátira, realismo e agressivo comentário político. 

Inicialmente, a desconsolada Scarlett O’Hara anda no meio de centenas de soldados confederados feridos nas ruas de Atlanta. Então, começa a passar um filme de ficção em preto e branco, com Alec Baldwin no papel do narrador segregacionista chamado Dr. Kennebrew Beauregard, que adere à cruel crítica racista. A certa altura, Beauregard esquece sua fala, e Lee projeta imagens do filme O Nascimento de uma Nação no rosto de Baldwin, que vai escurecendo até ficar preto.

Lee não está preocupado com a possibilidade de o público achar isso muito exagerado. Está apenas sendo coerente com os tempos em que vivemos. 

"Estamos vivendo a mais pura insanidade. As famílias estão divididas ao meio, as crianças, colocadas em gaiolas. Voltamos à época em que nossos ancestrais eram separados e vendidos. Este é o mundo em que vivemos".

Em uma carreira de mais de três décadas de uma variedade impressionante, as questões de raça nunca estiveram distantes da superfície da obra de Lee, quer se trate do deslumbrante e incendiário Faça a Coisa Certa, de seu sucesso de bilheteria O Plano Perfeito ou dos documentários Os Verdadeiros Reis da Comédia e Quando os Diques se Romperam. E ele sempre tratou do terrorismo interno provocado pelo racismo, um interesse que data dos tempos da escola de cinema.

No primeiro ano depois de se formar na Universidade de Nova York, em 1982, Lee dirigiu um curta-metragem sobre um realizador afro-americano que ingenuamente acredita que conseguirá filmar uma nova versão de US$ 50 milhões de O Nascimento de uma Nação. O filme de dez minutos foi intitulado "A resposta". Lee quase foi expulso da escola.

"Meu problema é que, no que diz respeito a O Nascimento de uma Nação, nos diziam que D. W. Griffith é o pai do cinema, mas deixavam de lado outras coisas", afirmou. "Quando éramos estudantes, nunca nos disseram que este filme favoreceu o renascimento da Klan. A K.K.K. estava adormecida".

BlacKkKlansman distingue-se por explorar a construção da própria Klan, as tentativas de policiais pretos e brancos de derrotá-la e o fato de que as imagens racistas em geral, bem como a propaganda de Griffith em particular, levaram à violência contra os afro-americanos por mais de um século.

Lee herdou o projeto de Jordan Peele, que depois do sucesso do filme Corra! estava demasiado ocupado para dirigir, mas continuou sendo um produtor do filme.

Com Kevin Willmott, seu frequente parceiro roteirista, Lee definiu que ele próprio faria o filme, adaptando as memórias de Stallworth, The Black Klansman.

São inúmeros toques que são a assinatura de Lee: a provocação política e a conversa sobre esporte, seu uso de material histórico e clipes (principalmente Harry Belafonte como o orador que conta a verdadeira história de Jesse Washington, um negro que foi linchado no Texas em 1916).

Lee quis também garantir que a crueldade da Klan, sua iconografia e as imagens cinematográficas tão familiares ao público contemporâneo ainda produzissem o impacto necessário.

Para Topher Grace, que faz o papel de David Grace no filme de Lee, encontrar o equilíbrio entre o charme do antigo líder da K.K.K. e seu ódio racial foi o maior desafio. "Ele é muito carismático", disse Grace. "Esta é a pior parte. Como ele era sedutor, como foi inteligente por dar um novo rosto à Klan, como isso foi terrível para os Estados Unidos".

Consciente de que o sucesso do filme dependeria não apenas de expor ao público a história de Stallworth como uma lição de História, Lee sabia que também precisava atualizá-la. É por isso que as imagens do comício dos nacionalistas brancos que terminou em morte em Charlottesville, Virginia, em 2017, fecham o filme. 

"É uma obra de época, mas com problemas muito contemporâneos", disse Washington, o astro do filme.

Lee sabia que tinha de tornar explícita a relação entre a década de 1970 e o mundo de hoje. 

"Quando aconteceu o caso de Charlottesville, estávamos em produção", contou. "Eu olhava a TV, meu irmão Anderson Cooper, o Agente Laranja" - seu apelido para o presidente Donald J. Trump - "a Klan, a direita alternativa, David Duke. Eles escreveram o final. Este nada mais é do que um ato terrorista", acrescentou. "O terrorismo nativo 'torta de maçã vermelha, branca e azul'".

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