Felix Brüggemann para The New York Times
Felix Brüggemann para The New York Times

Novo museu alemão reabre antigas feridas

O objetivo inicial do Humboldt Forum, que deve abrir em 2019, era mostrar uma Alemanha confiante e aberta para o mundo

Graham Bowley, The New York Times

18 de outubro de 2018 | 06h00

BERLIM - Na manhã de um domingo de fevereiro, cerca de 100 manifestantes dirigiram-se ao Humboldt Forum, um novo museu que estava sendo construído na margem do Rio Spree, em Berlim.

Berrando no microfone, um manifestante alertou que o museu estaria para sempre associado ao sangue derramado pelo império. “Este”, afirmou, apontando para a fachada de pedra do Humboldt Forum, “será um memorial da era colonialista!”.

O Forum custará 595 milhões de euros (700 milhões de dólares) e está prestes a ser concluído. Toma todo um antigo palácio, pertencente ao passado imperial teuto-prussiano bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial. 

A perspectiva de os objetos reunidos durante a era colonial serem transferidos para a antiga residência do Kaiser Guilherme II chamou ainda mais a atenção para aquele período. Grande parte dos materiais etnológicos que estarão expostos no museu foram reunidos em circunstâncias pouco claras.

Um novo museu repleto de joias da arte e da cultura não ocidental no centro da capital unificada parecia uma boa ideia: ele mostraria uma Alemanha confiante e aberta para o mundo. Também daria ao país outra instituição de classe mundial da qual poderia orgulhar-se, comparável ao Museu Britânico ou ao Louvre. O Forum unirá as coleções do Museu de Arte Asiática e do Museu Etnológico de Berlim, reunindo um dos mais ricos acervos mundiais de arte e artefatos não europeus. Mas tão impressionante quanto o museu em si é o debate acirrado ao qual deu origem.

As divergências provocaram a renúncia de um membro muito respeitado do conselho de assessoria, Bénédicte Savoy. “O bebê morreu ao nascer”, ela disse, denunciando o museu como um projeto conservador que não reflete a moderna Alemanha transformada pela imigração e que implora por uma perspectiva totalmente nova.

Cerca de 30 anos após a reunificação das Alemanhas Oriental e Ocidental, aqui há um anseio por uma identidade que vai além do Holocausto e da Segunda Guerra Mundial, da divisão pós-bélica, da reconstrução e da reunificação. Enquanto a moderna Alemanha busca definir-se de uma maneira mais complexa, impõe-se a urgência de discutir as glórias passadas das realizações científicas, da história, da arte e da exploração para confrontar-se com uma parte nada confortável do seu passado.

No centro destes tumultos, o Forum divide os que querem seguir em frente e celebrar as realizações nacionais dos que aconselham cautela diante do risco de a Alemanha esquecer o que ela foi. A Alemanha encarou as atrocidades nazistas, mas ainda sequer começou a reexaminar sua era colonialista da maneira adequada, afirmam os críticos.

O secular Schloss, a construção original que está no centro do debate, é visto por seus defensores como uma ligação com uma era de grandes filósofos; os seus críticos o veem como o símbolo da sede do poder imperial em uma época de militarismo e expansionismo nacional - características que desapareceram sob as bombas despejadas pelos Aliados sobre o castelo em 1945.

E há anda uma preocupação, muito mais sensível em razão dos recentes avanços da extrema-direita na política alemã: de que a recriação do Schloss assinale a consequente nostalgia por uma época em que a Alemanha era grande, uma visão do passado que tratou superficialmente dos horrores do século 20.

Em termos históricos, a Alemanha construiu um império depois de outros países europeus, como a França e a Grã-Bretanha.

Mas as suas atividades colonialistas envolveram atrocidades como o genocídio de grupos étnicos no Sudoeste Africano, então alemão, a atual Tanzânia.

Muitos dos objetos da coleção da fundação da herança prussiana foram reunidos em um espírito de investigação científica, quando os exploradores trouxeram objetos coligidos ao redor do globo para preservá-los e aprender com o seu estudo, disse o historiador da arte Horst Bredekamp, um dos três diretores que fundaram o Forum. Mas inúmeros outros, segundo os críticos, foram arrancados pela força, ou entregues por um povo que não tinha qualquer outra chance.

O debate produziu alguma ação. Há planos para trazer especialistas curadores dos países de onde os objetos se originavam.

A Fundação alemã das Obras de Arte Perdidas, que tradicionalmente investiga as obras saqueadas pelos nazistas, anunciou que ampliará os seus trabalhos e dará bolsas a museus para a investigação da procedência colonial.

A fundação da herança e o seu presidente, Hermann Parzinger, concordam que a origem dos objetos das coleções do fórum precisa ser totalmente investigada, e algumas coisas deverão ser devolvidas.

Mas ele propõe uma estratégia gradual que exige primeiramente um repensamento europeu mais amplo dos princípios de ressarcimento.

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