Farooq Naeem/Agence France-Presse
Farooq Naeem/Agence France-Presse

‘Novo Paquistão’ pouco se distancia do antigo

O país seria como o estado de Medina, fundado pelo profeta Maomé, mas se parece mais com uma ditadura

Mohammed Hanif, The New York Times

27 de julho de 2019 | 06h00

Imran Khan fez campanha para primeiro-ministro com base na promessa de criar um “novo Paquistão". O país seria como o estado de Medina, fundado pelo profeta Maomé (um estado de bem estar social), anunciou Khan. Menos de um ano depois de eleito, ele criou um novo Paquistão, que se parece com uma ditadura em dificuldades.

Os principais líderes da oposição estão na cadeia; outros são proibidos na mídia. Parlamentares são detidos sob acusação de terrorismo ou tráfico de drogas, sem direito a fiança. Nesse novo Paquistão, a economia foi praticamente entregue a nomeações do Fundo Monetário Internacional (FMI). O preço do pão não para de subir, e os bazares onde os pobres negociam entre si estão em fase de demolição enquanto barões da bolsa de valores recebem recursos do governo.

Khan já falou em “dignidade”, perdida quando se recebe dinheiro de potências estrangeiras. E qual foi uma de suas primeiras jogadas depois de assumir o cargo? Receber príncipes árabes na esperança de uma oferta de crédito fácil. Ele disse que preferia morrer do que recorrer ao FMI, mas, pouco depois de se tornar primeiro-ministro, reuniu-se com o chefe do Fundo e, após uma prolongada negociação, obteve um empréstimo de US$ 6 bilhões.

Durante as campanhas eleitorais, políticos costumam fazer promessas que não pretendem nem poderiam cumprir. Eis uma promessa que Khan tenta manter: castigar os políticos corruptos e obrigá-los a devolver o dinheiro roubado - bilhões que, de acordo com ele, estariam guardados nos bancos suíços. Mas, a essa altura, já ficou óbvio que, independentemente da existência de dinheiro desviado em bancos estrangeiros, recuperá-lo. O ex-presidente Asif Ali Zardari, detido sob acusação de lavagem de dinheiro, foi indagado a respeito de suas intenções de fazer um acordo com o governo. “Não darei a eles nem seis dólares", sorriu. 

Como os corruptos não vão devolver o produto do seu saque, Khan teve que recorrer à atividade mundana de pedir empréstimos e cobrar impostos. Mas parece que seus apelos apaixonados para que um maior número de paquistaneses pague impostos não estão funcionando. A proporção entre tributos e produto interno bruto é a mais baixa em cinco anos, de acordo com informe recente do fisco do país. Talvez o motivo seja o fato de as pessoas terem visto muitos de seus líderes deixarem de pagar o que deviam. Ainda que o patrimônio de Khan seja estimado em 3,8 bilhões de rúpias (cerca de US$ 36 milhões) em 2017, ele paga menos imposto do que jornalistas de cargo intermediário.

Khan costumava dizer que era o mais talentoso na construção de equipes. Cercou-se dos mesmos parasitas políticos que antes jurou combater. Mais da metade do seu gabinete serviu durante o governo do último ditador militar, Pervez Musharraf. O encarregado do ministério das estradas de ferro certa vez foi descrito por Khan como alguém que ele não contrataria nem para o trabalho servil; outro desafeto que ele chegou a descrever como bandido se tornou um aliado fundamental, como líder da maioria na assembleia provincial de Punjab.

Quando explica assuntos econômicos, Khan pode soar como a rainha da Inglaterra - como se nunca tivesse que andar com dinheiro nem pensar no orçamento do mês como fazem os cidadãos de classe média. Como muitas pessoas ricas que passam a vida em uma bolha de segurança social, ele defende mitos dignos da autora Ayn Rand para solucionar os problemas da economia. Diz que o 1% mais rico dos paquistaneses não pode arcar com o fardo de sustentar os 99% restantes. Mas os 99% que não pagam imposto de renda certamente financiam o estilo de vida dos paquistaneses ricos por meio de impostos indiretos, como aqueles aplicados à gasolina e à eletricidade. Mas eles raramente conhecem o interior de um hospital ou das escolas erguidas com esses impostos.

Enquanto os opositores de Khan questionam algumas de suas afirmações, bem como suas credenciais, ele se torna cada vez mais irritadiço. Depois que foi dito que Khan não seria um primeiro-ministro “eleito”, e sim “escolhido" para o parlamento, o líder da maioria proibiu o uso da palavra “escolhido” nas sessões. Desde então, parece que agora nossos deputados usam a palavra “escolhido" como nunca antes.

Quando se está perdido no Paquistão, é comum procurar o exército. Assim, Khan nomeou o chefe do exército, general Qamar Javed Bajwa, para o conselho econômico (muitos diriam que o militar nomeou a si mesmo). O exército já controlava a segurança e a política externa, e agora promete nos levar em novos voos em se tratando da economia.

Para se ter uma ideia de quem está realmente no comando, pensemos no caso de dois legisladores pashtuns que foram detidos sob questionáveis acusações de terrorismo. Ali Wazir e Mohsin Dawar são os líderes do Movimento Pashtun Tahafuz (MPT), que tenta negar a narrativa do governo segundo a qual os pashtuns seriam guerreiros natos. Fazem campanha contra as execuções extrajudiciais e desaparecimentos forçados, pedindo também a remoção de minas terrestres das áreas tribais do Paquistão - houve ocasiões em que disseram que o exército paquistanês pode estar ligado ao fato de sua região natal ter sido transformada em uma zona de guerra permanente - Khan já disse coisas parecidas: chegou a dormir nas estradas de Karachi para bloquear suprimentos da Otan por acreditar, com razão, que esses suprimentos seriam usados em uma guerra contra os pashtuns.

Depois que Wazir e Dawar foram eleitos para o parlamento, eles começaram a repetir nas sessões aquilo que diziam nos comícios do MPT. Então, em uma entrevista coletiva realizada em Islamabad no fim de abril, o general de brigada Asif Ghafoor disse a respeito deles, “Seu tempo acabou". Semanas mais tarde, Wazir e Dawar foram acusados de atacar o posto de controle do exército em Khar Mar, Waziristão do Norte, no qual pelo menos 13 civis teriam morrido. Mas muitos vídeos do incidente parecem mostrá-los discutindo com os soldados, tentando atravessar um bloqueio e sendo alvejados. Nenhum inquérito foi aberto.

Os dois parlamentares continuam sob custódia. E, diferentemente de outros políticos presos que têm permissão para participar das sessões legislativas, Wazir e Dawar não foram vistos desde a detenção, nem se tem notícia deles. O recado é claro: não se meta com o exército, independentemente de ter sido eleito ou não.

O novo establishment do Paquistão não está inventando truques novos, apenas aperfeiçoando os antigos. Um parlamentar crítico ao governo Khan e seus patrocinadores foi fichado sob acusação de tráfico de drogas este mês. A força de combate aos narcóticos, comandada por um general de brigada, afirmou ter encontrado 15 quilos de heroína no carro dele. Para os observadores, foi um momento típico dos governos militares anteriores, quando políticos da oposição eram acusados de roubar gado ou quando uma bomba foi encontrada no lar do poeta dissidente Ustad Daman.

Provavelmente, o exército do Paquistão acredita (com razão) que jamais se esgotarão os colaboradores politicos para ajudá-lo a governar o país. No caso de Imran Khan, os generais encontraram uma entidade rara: um populista ansioso para colaborar, pois nem ele próprio sabe se foi eleito ou escolhido. Khan representa o que o velho Paquistão tinha de mais antigo, somado ao zelo de um esportista que busca a vitória a todo custo. Mas nunca vi um capitão vitorioso mais infeliz e raivoso. Talvez ele tenha percebido que a vitória na eleição não foi fim da partida. O grande jogo estava apenas começando.

Mohammed Hanif é o autor dos romances A Case of Exploding Mangoes [O caso das mangas que explodiam], Our Lady of Alice Bhatti [Nossa Senhora de Alice Bhatti] e Red Birds [Pássaros vermelhos]. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

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