Merrick Morton/20th Century Fox
Merrick Morton/20th Century Fox
Amanda Hess, The New York Times

23 de janeiro de 2019 | 06h00

Enquanto a diretora Marielle Heller se preparava para rodar “Can You Ever Forgive Me?”, um filme biográfico sobre a falsificadora literária Lee Israel, ela sabia que precisaria de um adereço realista para resolver a cena fundamental em que Lee encontra o seu amado gato, Jersey, morto. Marielle queria um gato morto que impressionasse. Queria um objeto inanimado que provocasse uma forte reação na sua estrela, Melissa McCarthy.

O gato morto era tão importante que, ao montar o elenco, Marielle quis garantir a sua presença antes de conseguir o verdadeiro Jersey vivo. Ela queria encontrar um felino que se parecesse com o seu maravilhoso adereço. Afinal, o verdadeiro faria uma enorme diferença. No seu primeiro filme, “The Diary of a Teenage Girl”, ela economizou dinheiro colocando o seu próprio gato, Willie, na frente da câmera. Então quando a treinadora de animais do filme prometeu trazer o que chamou de sua gata de grande performance, Marielle não sabia ao certo o que isto poderia significar. Será que iria fazer xixi em todo lugar?

O nome do gato era Towne (pouco depois, morreu). Era um tipo magro, branco, e para surpresa geral, impressionante. De fato, atendia às indicações - obedecia às suas marcações com a ajuda de um treinador munido de um comando remoto e de um ponteiro laser - mas fazia algo mais. “Towne tinha uma cara muito expressiva”, disse Marielle.

Há um momento no filme em que ele olha para Melissa “com uma expressão de certo modo compreensiva, e também crítica, e o espectador sente isto”, disse Marielle. Os esforços de Towne não passaram despercebidos. “Este gato interpreta melhor do que eu”, afirmou, à certa altura, Melissa enquanto trabalhavam.

Towne é o símbolo de um novo tipo de atuação animal, reconhecido tanto por aquilo que o animal não faz quanto pelo que faz. A interpretação é captada de certo modo naturalístico. Towne passa a maior parte de “Can You Ever Forgive Me?” olhando com ar lânguido da sua caminha.

No momento mais emocionante de “Roma”, está em cena o cachorro da família, um bicho completamente mal-educado; Borras é um cão profissional que se comporta como se lamentavelmente não tivesse sido treinado. Em “Widows”, uma terrier branca peluda chamada Olivia ofega calmamente enquanto violentos criminosos rastejam ao seu redor.

Anteriormente, era comum utilizar meios físicos para controlar os animais, como coleiras de choque e fios de ativação para obter comportamentos nada naturais nos animais dos filmes. Essas práticas provocaram protestos de grupos de defesa dos direitos dos animais, e nos anos 40, as normas de bem-estar dos animais chegaram a Hollyood. O público agora é hipersensível a imagens de sofrimento dos bichos. Provavelmente não é mera coincidência se os atores animais “naturais” são elogiados nesta época em que ingressamos na era da computação gráfica.

“Muita teoria cinematográfica afirmaria que, por melhores que sejam os animais falsos, não produzem no espectador a mesma reação emocional de um animal real,” disse Courtney E. White, instrutora da Columbia College Hollywood. Talvez a onda de elaboradas criaturas falsas de Hollywood tenha inspirado algumas reações negativas, também, e um novo desejo de imagens de animais que parecem cuidadosamente reais.

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