Michele Spatari/Agence France-Presse - Getty Images
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Eficiência de novo tratamento para tuberculose empolga cientistas

Graças a isto, os especialistas agora esperam que haja um progresso contra o que consideram há séculos um inimigo invencível

Apoorva Mandavilli, The New York Times

05 de outubro de 2019 | 06h00

A tuberculose atacou 10 milhões de pessoas no mundo inteiro, em 2017, e matou 1,6 milhão - um dano maior do que o provocado pelo HIV, a malária, o sarampo e o Ebola juntos. A tuberculose é a doença infecciosa que mais mata em todo o globo; cerca de 1,8 bilhão de pessoas carregam a bactéria causadora.

O mundo necessita de novas estratégias para prevenir a tuberculose. Os medicamentos para afastar o perigo da infecção existem, mas os regimes são difíceis e as pessoas muitas vezes não os levam até o fim. No entanto, um novo tratamento, que dura apenas um mês, é tão eficiente quanto os mais longos no combate à doença, afirmaram cientistas, este ano.

Graças a isto, os especialistas agora esperam que haja um progresso contra o que consideram há séculos um inimigo invencível. “Acho que neste momento estamos diante de uma promessa realmente extraordinária”, afirmou Mike Frick, do Treatment Action Group, uma organização de apoio aos doentes.

Entre as pragas que assolam os países em desenvolvimento, a tuberculose tem sido frequentemente uma prioridade menor em relação a outras, principalmente o HIV. (As duas estão ligadas: os pacientes de HIV representam um em cada cinco óbitos causados pela tuberculose no mundo inteiro.)

Em agosto, a Agência da Alimentação e Medicamentos dos EUA aprovou uma nova droga para tratar do tipo mais letal de tuberculose - a primeira aprovação para uma droga contra a doença em mais de 40 anos. E a prevenção? “Na realidade, ela é minimizada e ignorada em um grau que chega a ser escandaloso”, disse Richard Chaisson, professor de medicina na Johns Hopkins University em Maryland.

Os medicamentos preventivos são uma clara opção para os grupos mais vulneráveis: pessoas com HIV; pessoas cujos sistemas imunológicos estão comprometidos porque elas tomam drogas biológicas; e as que convivem com uma pessoa infectada. Mas uma em cada três pessoas no mundo todo tem a bactéria da tuberculose, e apenas uma em cada 10 irá desenvolver a doença. “Nós não dispomos de um bom indicador para mostrar em qual destas pessoas a infecção poderá progredir e elas acabarão adoecendo”, disse Eliud Wandwalo, da organização Global Fund sem fins lucrativos.

As pessoas que se sentem saudáveis frequentemente resistem a drogas. A conduta padrão tem sido um antibiótico chamado isoniazida que mata as bactérias causadoras da tuberculose somente quando elas estão se reproduzindo. É preciso tomá-lo diariamente por nove meses, e ele pode causar dormência, náusea, febre e toxicidade do fígado. Nos últimos dez anos, os cientistas chegaram a dois tratamentos mais curtos: um medicamento chamado rifampicina, tomado diariamente por quatro meses; ou uma combinação de isoniazida e rifapentina, tomados uma vez por semana por três meses. 

Uma alternativa surgiu em março, quando Chaisson e os seus colegas publicaram um estudo no The New England Journal of Medicine mostrando que um tratamento à base de isoniazida e rifapentina tomados diariamente por um mês é tão eficiente na prevenção da tuberculose quanto o tratamento com isoniazida por nove meses. A Organização Mundial da Saúde deverá aprovar a nova conduta até o final do ano. Entretanto, o estudo foi realizado somente com pessoas infectadas com HIV e provavelmente a OMS aprovará a conduta somente para estes pacientes.

O custo é outro problema. Os seus defensores estão negociando com a Sanofi, fabricante da rifapentina, para que baixe o custo para apenas US$ 15 para todo o tratamento de um mês. Pelo menos duas companhias também informaram que estão desenvolvendo versões genéricas. No entanto, os especialistas afirmaram que hoje estão mais otimistas com a prevenção da tuberculose do que anteriormente. A África do Sul mostrou o que a vontade política pode fazer, disse Gavin Churchyard, especialista em tuberculose de Johannesburgo. 

O país outrora tinha um programa terrível no caso da terapia de prevenção da tuberculose, com apenas com mil pessoas que tomavam os comprimidos. Mas em 2008, Pakishe Aaron Motsoaledi, então ministro da Saúde do país, tornou a prevenção da tuberculose uma prioridade nacional. Em 2011, 350 mil pessoas faziam participavam da terapia preventiva. Chaisson fez um cálculo aproximado publicado em 2017 na revista Lancet Global Health que concluiu que, se a prevenção tivesse sido adotada no mundo todo, milhões de mortes poderiam ter sido evitadas.

“Na realidade, a nossa negligência custou vidas, infelizmente”, disse Churchyard. “E está na hora - como se houvesse uma hora para acabar de vez com a Aids, está na hora de acabar de vez com a tuberculose”. Especialistas mostram um novo otimismo em relação à prevenção da tuberculose. TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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