Gabriela Portilho para The New York Times
Gabriela Portilho para The New York Times

Novos nomes na política brasileira

Confiança nos partidos políticos tradicionais nunca foi tão baixa, levando alguns novatos a entrar na disputa

Shasta Darlington, The New York Times

06 Junho 2018 | 15h15

SÃO PAULO, BRASIL - Pedro Markun já acreditou que hackear o sistema político brasileiro era a melhor maneira de mudá-lo. Nos dez anos mais recentes, o programador de computadores de 32 anos agitou o establishment político com invasões digitais, como a clonagem do blog do presidente para permitir comentários.

Agora, ele quer fazer mais do que abalar o establishment: quer derrotá-lo nas urnas e conquistar uma vaga no congresso. Markun é parte de uma nova onda de candidatos que foram impelidos a agir por um escândalo de corrupção que envolveu os principais partidos do País e derrubou políticos poderosos.

O presidente conservador Michel Temer foi acusado na Operação Lava Jato, que há anos investiga a lavagem de dinheiro centrada na empresa petroleira controlada pelo estado, Petrobrás. Em abril, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de esquerda, começou a cumprir uma sentença de 12 anos relacionada ao caso. Mais de metade dos senadores do País e um terço dos legisladores da Câmara dos Deputados são investigados por crimes. Mas a maioria pretende se candidatar à reeleição em outubro, quando o Brasil escolherá também seu próximo presidente.

De acordo com as pesquisas de opinião, a corrupção é a maior preocupação dos eleitores, enquanto a confiança nos partidos políticos é a mais baixa já vista no País. Os nomes de fora tentam aproveitar esse descontentamento. “Percebi que o problema não estava na política, mas nos políticos", disse Markun. “E a única maneira de aproximar a política das pessoas é trazendo pessoas comuns para a política.”

Outra candidata de fora, Michelle Guimarães, ex-executiva da Johnson & Johnson, disse ter sido atraída para a política por causa do mau estado dos serviços de saúde em seu Estado natal, Amazonas. “Decidi que era hora de aposentar os mesmos políticos que estão no poder há 30 anos", disse Michelle, candidata a deputada.

Para a baiana Camila Godinho, ambientalista e assistente social, a decisão de se candidatar ao Congresso foi motivada pelo desejo de expandir as opções do eleitorado para além das famílias políticas tradicionais que ocupam esses cargos há gerações. “Temos que mostrar à população que há outras escolhas", disse Camila.

Esses novos nomes - algumas centenas deles disputam assentos nas Câmaras de deputados estaduais e federais - enfrentam obstáculos consideráveis. Pelas regras eleitorais do Brasil, os candidatos não podem se lançar como independentes, e os líderes dos partidos que costumam participar tendem a favorecer os veteranos leais em detrimento dos novatos. Também de acordo com a lei, os candidatos só podem começar a campanha em agosto. Mas aqueles que já ocupam cargos eleitos usam suas responsabilidades oficiais para se apresentar ao eleitorado antecipadamente.

Em resposta ao escândalo da Lava Jato, o Supremo Tribunal vetou as contribuições empresariais para as campanhas, e o Congresso aprovou um fundo público de financiamento de campanha. Mas o dinheiro, bem como a publicidade gratuita, é alocado aos partidos com base em sua representação atual no congresso. Isso coloca os partidos menores em desvantagem.

Alguns brasileiros influentes criaram iniciativas apartidárias para treinar novos políticos antes do início da campanha. O Renova BR ofereceu bolsas a 133 brasileiros de todo o espectro político interessados em se candidatar ao Congresso. O dinheiro cobre as despesas cotidianas enquanto os participantes recebem aulas intensivas de direito eleitoral e constitucional, processo legislativo e financiamento e marketing de campanha. Muitos dos novos candidatos também são ajudados pelo Agora, grupo criado em 2016 para aumentar o envolvimento do público em geral nas questões de políticas públicas.

Mesmo se muitos dos novos candidatos fracassarem em ser eleitos, os defensores da injeção de sangue novo na política brasileira dizem que o esforço em 2018 é apenas o começo. Ilona Szabó, cofundadora do Agora, disse, “teremos mais de um ciclo eleitoral".

Os eleitores comuns começam a prestar atenção. Filipe Nogueira Consoline, 33 anos, produtor musical de São Paulo, disse estar pensando em votar nos novos candidatos.

Ele disse: “É uma forma de deixar para trás a corrupção, mas também de trazer algo novo, e não apenas os mesmos senhores brancos de sempre".

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