Pavithra Reddy/The New York Times
Pavithra Reddy/The New York Times

Na Índia, um refúgio da dança se fecha para o mundo

Com a pandemia, Nrityagram, perto de Bangalore, tornou-se uma versão mais independente de si mesmo: um refúgio, com um único foco na dança clássica indiana

Marina Harss, The New York Times - Life/Style

24 de outubro de 2020 | 05h00

Outro dia, fiz um tour por Nrityagram. Essa pequena comunidade perto de Bangalore, no sul da Índia, é um oásis de calma e devoção total a uma arte antiga, a dança clássica indiana. Pássaros cantavam e, em torno dos edifícios baixos de cor de terra com seus estúdios de dança e um pequeno templo, centenas de árvores com seu verde vibrante pingavam com a umidade (é o fim da estação chuvosa). No caminho, vi uma menina em roupas roupa laranja e amarela, sonhando acordada numa figueira.

Ela deslizou do seu poleiro e veio se juntar ao passeio. Esta cena no início da manhã – as árvores, o céu cinzento ameaçando chuva, as pessoas sentadas para o café da manhã - se desenrolava enquanto eu assistia pela tela do meu smartphone tarde da noite em meu apartamento em Nova York.

Era um tour virtual, no WhatsApp. É mais ou menos a única maneira que você tem de visitar Nrityagram atualmente, uma vez que ela fechou as portas para o mundo exterior no início da pandemia. “Temos de viver nossas vidas exatamente como se nada aconteceu”, afirmou Surupa Sen, diretora artística de Nrityagram, de 23 anos, numa entrevista pelo Zoom. Sob sua liderança, esta comunidade continua a ser o que sempre foi, mas ainda mais: um refúgio da dança, independente e concentrada no seu foco, que é se afastar de um mundo caótico e às vezes amedrontador.

O vírus se propagou por toda a Índia. É o segundo país mais afetado depois dos Estados Unidos em número total de casos e as mortes ultrapassam os 100 mil. Mas em Nrityagram, a vida continua incrivelmente inalterada. Mesmo antes do lockdown geral declarado na Índia, a comunidade já havia limitado o acesso.

Os alunos de dança – quase 150 frequentam as aulas - vindos de vilarejos vizinhos e mesmo de Bangalore tiveram de se afastar por medo de o vírus ser introduzido na pequena comunidade intimamente interligada. A forma de dança praticada por Sen e seus alunos é a Odissi, que teve origem no Estado mais oriental de Odisha.

É uma das oito formas de dança clássica oficial na Índia, com movimentos e formas que evocam esculturas e baixos-relevos vistos nos templos medievais. É também, originalmente, uma forma de devoção, dedicada à divindade Magannath, cujo nome significa senhor do universo. “A ideia é que você se submeta a algo universal”, disse Sen.

Seus trabalhos ampliaram a forma, mas permanecem fiéis à sua motivação básica, a busca da transcendência. Ela e seus dançarinos devotam a maior parte das suas horas despertos ao aperfeiçoamento desta arte, refinando e fortalecendo seus corpos por meio de exercícios e aperfeiçoando sua dança por meio de aulas e ensaios de técnicas em que aprendem a tradicional coreografia Odissi, como também novos formatos criados por Sen.

No momento o grupo é formado todo por mulheres; o único homem voltou para Mumbai para visitar a família no início da pandemia e não retornou ainda. A vida ali continua como de rotina. Às seis horas da manhã, as alunas levantam e fazem uma corrida matinal. Depois, cada uma fica responsável pela limpeza de alguma parte da aldeia e colocar flores nos pequenos altares nos estúdios de dança. Esses rituais “são parte da prática, parte da retribuição ao guru”, ou “professor” e à escola.

“E faz parte do seu treinamento”, disse Lynne Fernandez, diretora executiva de Nrityagram. Em seguida há uma sessão de aquecimento com práticas de ioga ou de uma forma de arte marcial chamada Kalaripayattu. Às 10h30 - “nosso momento favorito do dia”, disse uma das dançarinas – elas retornam ao estúdio para mais três ou quatro horas de aula. Mais horas no caso de Sen estar criando uma nova dança. Durante as tardes, elas dão aulas.

Que hoje vêm acontecendo pelo Zoom, embora todos concordem que não é bom para transmitir as nuanças da dança. “Não é o mesmo tipo de energia”, disse Pavithra Reddy, que está em Nrityagram há 30 anos. “E fazemos tudo mais lento de maneira que os dançarinos entendam o que estamos buscando”. Isto tudo implica pelo menos seis horas de dança a cada dia (exceto às segundas-feiras, dia de descanso), mais o condicionamento.

Parece exaustivo, mas segundo Rohan “o estranho da dança é que ela lhe dá energia. Nunca me sinto cansada”. Além das dançarinas e de Aishani Dash, a menina na árvore, existem seis outros membros da comunidade cujo trabalho permite aos estudantes se consagrarem à sua arte.

Dois funcionários de escritório e dois voluntários que vêm ajudando a criar uma Food Forest, um sistema agrícola que exige pouca manutenção, mas é produtivo, e que fornece a maior parte do alimento da comunidade. E também estão ali Fernandez e sua mãe, à qual todos se referem como vovó.

É ela quem elabora os cardápios e prepara picles para durarem por todo o ano. Como não podem mais viajar ou fazer apresentações para os habitantes da localidade, as dançarinas se apresentam entre si. “O que ajuda a manter esse ímpeto”, disse Dhruvatara Sharma, membro do grupo. “Na verdade, a pressão é maior.

Você tem de ser perfeita porque está dançando para um público realmente conhecedor”. Sen também se apresenta e o local informal, mais íntimo, permite a ela experimentar novas formas de dança que hesitaria se fosse uma apresentação convencional. “Na última vez dancei quatro peças que normalmente nunca faria. Todas eram tristes, sobre nostalgia. Normalmente seria exagerado, com muita intensidade”. O que as dançarinas têm ganho sobretudo é tempo.

Mesmo aqui a dimensão do tempo mudou na pandemia, abrindo espaços no cronograma das dançarinas e em suas mentes. “Odissi vem de uma era em que as pessoas tinham mais tempo, quando você vivia um momento muito mais longo. Encontrar essa sensação de nostalgia, de ânsia por alguma coisa, leva tempo. Você tem de permanecer nesse estado durante um tempo, sentar e vivenciar todas as suas cores”. Agora, protegidas contra a tempestade que as cerca, esse momento chegou para as dançarinas de Nrityagram. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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