Adama Jalloh The New York Times
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Nubya Garcia: explorando o passado para fazer jazz para uma nova geração

A saxofonista britânica causou um grande impacto na movimentada cena londrina

Marcus J. Moore, The New York Times - Life/Style

08 de setembro de 2020 | 05h00

Não demorou muito para que a saxofonista tenor Nubya Garcia, de 28 anos, impressionasse profundamente o aclamado meio jazzístico britânico no qual surgiu e fizesse sucesso para além dele. "Ela pode tocar uma nota e você consegue dizer quais são suas intenções artísticas. Ela não está tentando encontrar seu lugar. Está se expressando de uma maneira que já definiu como sua", comentou Shabaka Hutchings, o saxofonista britânico conhecido como uma espécie de padrinho dos músicos da cena do jazz.

Garcia expandiu esse papel com o lançamento recente de Source (Fonte), seu primeiro álbum completo para a Concord Jazz. É seu projeto mais ambicioso até o momento – um conjunto arrebatador de jazz com influências afro-caribenhas que canaliza as experiências de toda uma vida em uma hora de música.

"O foco desse álbum é o poder pessoal, o poder coletivo, o coletivismo. É sobre minha herança, minha ancestralidade, é sobre explorar esses lugares e as histórias de meus pais e de meus avós", contou Garcia em uma entrevista recente via Zoom, sentada no sofá da sua sala de estar em Londres.

A mãe de Garcia é da Guiana e seu pai é de Trinidad. Sua própria história começou no bairro londrino de Camden, com uma família muito musical: seus pais tocavam reggae, rock, música latina e cubana pela casa; uma irmã cantava música clássica; outra tocava violoncelo; e um irmão tocava trompete. Garcia começou tocando violino e piano, quando criança, e depois descobriu um velho clarinete prata em casa. "Estava muito quebrado. Mas simplesmente fiz com que funcionasse", disse ela, que aprendeu a tocá-lo sozinha lendo velhos livros de instrução Abracadabra por um ano.

A pianista Nikki Yeoh esteve com Garcia pela primeira vez quando a saxofonista era uma criança tímida de cinco anos que compareceu com seu irmão a uma de suas oficinas de música. "Ela apareceu uma vez com um clarinete. Tinha uma fascinação verdadeira pela música desde muito nova", relembrou ele. Quando Garcia tinha dez anos, sua mãe comprou para ela um saxofone Yamaha; ela se apaixonou pelo instrumento e nunca mais parou de tocá-lo.

A pedido de sua mãe, Garcia voltou para as aulas de Yeoh, já pré-adolescente, e aprendeu a tocar arranjos de jazz e blues, e canções como Maiden Voyage de Herbie Hancock e On Green Dolphin Street de Bronislaw Kaper.

Garcia era tímida, mas motivada. "Só fiquei na sala, não disse uma palavra e mal consegui tirar uma nota do instrumento. Mas a professora era sempre tão cheia de vida, tão alegre, tão convidativa. Ela nos incentivava a ouvir a música que nossos pais ouviam, se tivéssemos isso em casa, ou a ouvir as faixas que tocávamos na aula", disse ela.

Quando adolescente, Garcia ouvia álbuns antigos de jazz e tocou em diferentes conjuntos nas redondezas de Camden, onde conheceu outros aspirantes a líderes do nascente movimento britânico de jazz e se tornou amiga deles. O baterista Moses Boyd a conheceu em meados dos anos 2000, quando ela tocava piano em uma oficina musical. Por conta própria, ela se tornou membro da Tomorrow's Warriors, uma organização sem fins lucrativos fundada em 1991 pelo baixista Gary Crosby e produtora Janine Irons.

Boyd considerou que ela tocava de forma igualmente melódica e única, inspirada por lendas do jazz como Wayne Shorter e John Coltrane, e, ao mesmo tempo, do jeito dela. E também não há muito ego nisso. "Ela toca de tal maneira que não tenta se exibir", revelou o tubista Theon Cross. Garcia também citou Now's the Time, de Charlie Parker, Saxophone Colossus, de Sonny Rollins, e Go, de Dexter Gordon, como influências.

Uma vontade grande de colaborar tem moldado sua jornada. Boyd se lembrou de ter visto Garcia no Festival Brainchild, na Grã-Bretanha, muitos anos atrás, correndo freneticamente de um palco para o outro com seu saxofone. "Eu me lembro de vê-la correndo pelo gramado. Parecia que estava tocando com dez bandas. É uma das pessoas mais ocupadas do mundo", observou Boyd, dando uma risada. Garcia não se esqueceu disso. A canção contemplativa "Pace", que abre seu novo álbum, é um lembrete pessoal para não se sentir tão sobrecarregada.

Ela escreveu a música há um ano, quando estava se sentindo abatida e avaliando se a vida na estrada era sustentável. "É estranho falar disso agora, obviamente, já que estamos vivendo de um jeito completamente diferente. Não sou boa em dar uma pausa, mas estou aprendendo muito a descansar atualmente", contou Garcia.

Source é outra grande conquista para o meio jazzístico britânico que vem ganhando elogios nos últimos anos com os esforços de músicos como Cross, Hutchings e Boyd. Cross disse que todos eles compartilhavam uma abordagem ligeiramente diferente ao fazer música improvisada. "Nós todos aprendemos a tradição americana, mas começamos a abraçar as origens da nossa própria contracultura. Quando decidimos fazer nossa própria música, partimos desse ponto. É uma nova perspectiva da diáspora africana", explicou Cross.

Todos esses impulsos se comunicam em Source, uma mistura multifacetada de jazz, reggae, cúmbia, hip-hop e soul. Apresentando Sam Jones na bateria, Daniel Casimir no contrabaixo e Joe Armon-Jones no piano e no órgão, é um álbum de esboços que foi tomando forma enquanto Garcia estava na estrada no ano passado. Entre um show e outro, ela anotava as ideias e as executava no piano.

"Tenho mantido minhas habilidades de composição afiadas na estrada, porque você tem de se manter em prontidão. Não dá para simplesmente parar por seis meses e voltar depois, esperando escrever uma sinfonia estrondosa ou o que quer que você deseje fazer", comentou Garcia. A direção criativa do álbum foi decidida no verão passado; em seguida, ela reservou duas diárias de estúdio – um dia antes e outro depois da turnê – e gravou o álbum em duas sessões.

Por meio de cantos meditativos, grooves festivos e ritmos flutuantes, Source é uma afirmação forte que fala diretamente às suas origens. E, embora tenha sido escrita há mais de um ano, parece que foi feita para este momento, e Garcia falou recentemente da onda global de protestos por justiça racial. "Sair em turnê e viajar como uma mulher negra dói. Sempre me sinto no limite, esperando a próxima pessoa que fará algo comigo ou me dirá alguma coisa", escreveu ela em junho no Instagram.

O álbum captura Garcia em momentos calmantes e também cheios de energia. Na parte mais suave, há "Together Is a Beautiful Place to Be", uma mistura de bateria abafada e tons leves, e "Stand With Each Other", reforçada por suspiros delicados. A faixa-título é a afirmação mais ousada do álbum: uma música de 12 minutos que se transforma em dub e R&B silencioso, entre outras coisas.

Buscando o passado enquanto se coloca firmemente no presente, Source lembra os ouvintes de desacelerar e se reconectar consigo mesmos, com sua história cultural e com as pessoas mais próximas de si. "O álbum é sobre o que nos alimenta: o que o alimenta você, o que me alimenta, o que alimenta nossa alegria, o que alimenta nossa inquietude. Tudo isso são nossos sentimentos internos", explicou Garcia.

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