Aubrey Trinnaman/The New York Times
Aubrey Trinnaman/The New York Times

Nunca é tarde para aprender a nadar

'Nunca é tarde' é uma série de reportagens do The New York Times que conta histórias de pessoas que decidiram ir atrás dos seus sonhos

Chris Colin, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2021 | 05h00

Os primeiros 68 anos de Vijaya Srivastava decididamente foram com os pés na terra. Ela fazia caminhadas por Berkeley Hills, na São Francisco Bay Area, passava seu tempo com os netos e trabalhava como voluntária numa biblioteca. Nada disso exigia um mergulho na água, o que achava ótimo, pois a água a aterrorizava. Seu medo de se afogar era o grande problema.

Tendo crescido na Índia, ela nunca teve acesso a piscinas. Quando se mudou para os Estados Unidos, a ideia de nadar de costas ou de um lado para o outro de uma piscina nem passava pela sua cabeça. Mas, um dia, seu médico lhe disse que nadar regularmente melhoraria sua saúde.

“Não consigo nadar”, Srivastava, hoje com 72 anos, confessou. Ela jamais havia colocado seu rosto embaixo d’água.

“Já pensou em aulas de natação?”, perguntou o médico

“Na minha idade?’

“E por que não?”

Depois disso, ela passou um longo período refletindo. (A entrevista abaixo foi editada):

Qual foi seu primeiro passo?

A primeira coisa que fiz foi perguntar à minha vizinha se gostaria de ter aulas junto comigo. Contratamos uma jovem que estava no ensino médio da escola Albany High. Ela havia feito um curso de salva-vidas. Gostei disso.

Perguntamos se já havia dado aulas para alguém idoso. Ela disse que não. OK.

Começamos a praticar três vezes por semana.

Quando decidi aprender a nadar, passei a ir à piscina nos dias em que não havia aula. E comecei a sonhar em nadar. Acordava de manhã, entusiasmada. Quando não conseguia dormir, nadava na cama. Meu marido dizia, ‘o que está acontecendo? Isto não é uma piscina...”

E também comprei maiôs. Depois, percebi que não precisava de dez e doei alguns.

A senhora fez alguma pesquisa sobre natação?

Depois da minha primeira aula, comecei a pesquisar no Google. Primeiro, pensei em procurar alguma coisa no YouTube sobre aprender a nadar. Mas só me confundiu. Mais tarde, minha filha me falou sobre os vídeos de um programa chamado Total Immersion Swimming. São de um rapaz que aborda a física do nado, o que me ajudou muito.

E meus netos também entram na água, observando como nado de costas, ou sentam na borda e ficam me incentivando ou desaprovando.

Quais foram os maiores desafios?

Ficar paralisada, morrendo de medo. Nada jamais me deixou tão aterrorizada, pensando que poderia me afogar. Durante um longo tempo, fiquei só na parte mais rasa da piscina, tinha pouco mais de um metro de profundidade. E rezava em cada aula.

Além disso, não ter a resistência necessária. Meus braços e pernas não estavam preparados. Depois de meia hora, eu me sentia muito cansada.

E qual foi o momento em que tudo começou a dar certo?

Depois de alguns meses, a instrutora passou a insistir para eu nadar até o outro lado da piscina. Disse que não estava pronta e ela respondeu, “Sim, você está”. Finalmente, decidi que, se não tentasse, nunca conseguiria. A instrutora prometeu ficar ao meu lado o tempo todo.

“Mas você é tão minúscula”, disse a ela. E ela disse que não deixaria eu me afogar.

Então comecei a nadar e, quando cheguei na marca dos 1m80 de profundidade, eu tenho 1m60, sabia que não tinha volta. Além do que, não sabia como voltar.

Enfim, cheguei do outro lado. Meus vizinhos do condomínio estavam olhando. Acompanharam minha luta nos últimos meses e bateram palmas para mim. Esperei recuperar o fôlego para nadar e retornar à parte rasa da piscina. Não havia como tirar a mão da parede no final quando a profundidade era de quase dois metros e meio.

O que teria feito diferente quando começou?

Não muita coisa. Talvez tivesse começado mais cedo.

Como essa nova atividade mudou sua vida?

Quando falo a respeito, meus sobrinhos, meus filhos, dizem estar orgulhosos de mim. Não são muitas as pessoas da minha idade, ou da minha família, que nadam. O que tenho feito me dá uma boa sensação. Quando conto para minha família na Índia, meu irmão não consegue acreditar.

E o próximo passo?

Falei com uma amiga para aprendermos a dançar – quem sabe não podemos ter aulas de dança?

O que diria às pessoas que se sentem presas e não querem fazer alguma mudança na vida?

Acho ótimo ter minha vizinha nadando comigo. Motivamos uma à outra. Se um dia estou me sentindo cansada, ela insiste, dizendo “vamos praticar 20 minutos apenas”. E esses 20 minutos se transformam em meia hora.

Essa experiência tornou-a uma pessoa diferente?

Atravessar uma piscina nadando pela primeira vez aos 68 anos de idade é algo que jamais vou esquecer. Recentemente, dei 20 voltas na piscina. Levou 52 minutos. Eu ainda faço uma pausa entre as voltas. Meu próximo objetivo é fazer isso sem interrupção, sem pausas. Chegarei lá.

O que a senhora gostaria de ter sabido antes sobre se sentir realizada?

Tenho uma amiga que me dizia que você deve conhecer o seu corpo, se conhecer – o que o torna feliz, saudável, com raiva. Isso sempre ficou na minha cabeça. E foi o que me ajudou muito.

Mas não há muita coisa na minha vida que eu mudaria. Se você tem a mente em paz e feliz, isso lhe propicia saúde. Você não precisa de muitas coisas na vida.

Que lições as pessoas podem aprender com sua experiência?

Nunca se render. Nunca pensei em desistir. Se coloco alguma coisa na cabeça, eu não desisto. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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