Richard Drew/AP
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Nunca precisar pedir desculpas

Charles M. Blow acha que muitos estão sendo encorajados a crer que a ausência de remorso é algo a ser emulado - e que a mensagem vem da Casa Branca

Alan Mattingly, The New York Times

04 de agosto de 2019 | 06h00

Significaria abandonar-se à mercê do tribunal, e a ideia é simples: Reconhecer os próprios delitos, declarar a própria contrição, e esperar que o remorso favoreça uma punição menor.

Anna Sorokin, uma imigrante russa que dizia ser uma herdeira alemã enquanto praticava fraude após fraude levando uma vida glamorosa nos EUA, aparentemente não compreendeu o conceito. Ou pelo menos não estava interessada em procurar entender.

“Ocorre que não estou pedindo desculpas”, ela declarou ao jornal The Times na cadeia, depois de ter sido condenada a um mínimo de quatro e a um máximo de 12 anos de prisão. “Estaria mentindo para você, para todo mundo e para mim mesma se dissesse que sinto muito por tudo. Eu lamento, isto sim, algumas das escolhas que fiz a respeito de certas coisas”.

As suas escolhas a levaram a passar calotes em credores, como bancos, hotéis e uma companhia de jatos particulares por um total de mais de US$ 200 mil quando começou a pôr em prática o seu sonho de abrir um clube privado de US$ 40 milhões. Vestia roupas de grife, organizava jantares caros em Nova York e dava gorjetas de US$ 100. Segundo afirmou, tentava apenas ser levada a sério.

“A minha motivação nunca foi o dinheiro”, disse Anna. “Eu tinha sede de poder”.

Mas explicar a si mesma não significa que ela esteja se desculpando. “Eu não sou uma boa pessoa”, afirmou.

Charles M. Blow, colunista do Times, acha que muitos estão sendo encorajados a crer que a ausência de remorso é algo a ser emulado - e que a mensagem vem da Casa Branca. Com um governo como o do presidente Donald Trump, ele escreveu: “Tenho medo de que as crianças de hoje aprendam a achar que não existem normas para quem vence”.

Anteriormente, ele escreveu: “No universo de Trump, pedidos de desculpas e punições são para os fracos, para os fracassados”.

Gostem ou não, o presidente pode até ter razão, pelo menos a crer na pesquisa de Cass R. Sunstein, um professor da Faculdade de Direito de Harvard, cujo artigo publicado recentemente no The Times, sob o título “Apologies Are for Losers”.

Talvez este seja o caso na política, disse Sunstein, que colocou uma questão hipotética: “Suponhamos que uma figura pública tenha dito ou feito algo que muitos consideram ofensivo, ultrajante ou desprezível - por exemplo, mentido a respeito do seu serviço militar ou insultado as convicções religiosas das pessoas. A figura deverá pedir desculpas?”

E prosseguiu: “Vamos supor que o seu objetivo não seja ser uma boa pessoa” - imaginemos uma versão política de Anna Sorokin. Ao contrário, que o seu único objetivo seja “elevar o seu status - aumentar a chance de ser eleito, de ser confirmado pelo Senado ou de manter o seu emprego.

“As recentes evidências convergem para uma simples resposta: Um pedido de desculpas seria uma estratégia arriscada”.

Sunstein pesquisou quatro grupos de cerca de 300 pessoas cada um apresentando diferentes situações em que uma figura pública pedia desculpas por seu comportamento questionável, e perguntando se elas apoiariam ou não a pessoa depois de um pedido de desculpas. Em cada caso, “a porcentagem de pessoas que se mostraram menos inclinadas a apoiar a pessoa que cometera o crime era maior do que a porcentagem das que se sentiram mais inclinadas a fazê-lo”.

“Por que?” escreveu Sunstein. “É difícil dizer com certeza, mas uma das razões pode ser que um pedido de desculpas é uma espécie de confissão. O crime torna-se mais evidente. E poderia levar as pessoas a pensar: ‘Achávamos que ele fosse um idiota; agora sabemos que de fato é um idiota”.

Deixando de lado a estratégia, “os pedidos de desculpa deveriam ser moralmente obrigatórios”, escreveu. Mas nem todo mundo se preocupa com este tipo de coisas.

Anna Sorokin está escrevendo um livro de memórias e pretende escrever outro a respeito da prisão. “Acho que tenho sorte por estar em uma prisão de verdade, desse modo terei mais material”, afirmou. Deixando de lado a moral, pedir desculpas pode ser uma “estratégia arriscada”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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