Aubrey Trinnaman/The New York Times
Aubrey Trinnaman/The New York Times

Nunca é tarde demais para escalar aquela montanha

'Nunca é tarde' é uma série de reportagens do The New York Times que conta histórias de pessoas que decidiram ir atrás dos seus sonhos

Tim Neville, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2021 | 05h00

Em seus 40 anos, Dierdre Wolownick aprendeu a nadar sozinha. Na casa dos 50, começou a correr. Então, aos 60, ela se tornou uma alpinista - e não qualquer uma. Quatro anos atrás, aos 66 anos, Wolownick fez uma subida recorde até El Capitan, o monólito de granito do Parque Nacional de Yosemite que tem algumas das rotas de escalada mais longas e desafiadoras do mundo. E ela fez isso em grande estilo. A rota que ela enfrentou na época, a Lurking Fear, normalmente leva quatro dias para ser concluída. Wolownick fez em apenas um.

Claro, o fato da autora e agora atleta patrocinada ter um dos alpinistas mais talentosos do mundo para guiá-la ajudou: seu filho famoso, Alex Honnold, a estrela do documentário vencedor do Oscar de 2018, Free Solo. O filme narra a jornada impressionante de seu filho para se tornar a primeira pessoa a escalar o "El Cap" sem corda ou equipamento de segurança. Seu próprio esforço – com a utilização de cordas - foi “de longe” a coisa mais difícil que ela já fez, disse Wolownick.

Alcançando o topo do El Capitan em 2017, ela se tornou a mulher mais velha a fazer essa escalada, de acordo com Hans Florine, um alpinista americano com um recorde de 179 escaladas na formação vertical da rocha.


As escaladas extenuantes foram um afastamento da primeira metade da vida sedentária e cerebral de Wolownick. Criada em Nova York, ela pintou e tocou piano em Jackson Heights, no Queens. Quando adulta, foi professora de cinco idiomas e escreveu livros, incluindo um livro de memórias em 2019, The Sharp End of Life: a Mother’s Story, em parte sobre sua primeira escalada do El Cap. Em 1990, alguns anos depois de se mudar para o subúrbio de Sacramento, na Califórnia, onde seu marido cresceu, ela fundou uma orquestra em West Sacramento e a regeu.

“Foram coisas maravilhosas e muito satisfatórias, mas nada foi realmente físico. Certamente não havia perigo”, ela disse. “Nunca, em um milhão de anos, achei que pudesse escalar o El Cap.” (A entrevista seguinte foi editada e condensada)

Por que começou a escalar?

Alex sempre amou. Ele era muito quieto, até taciturno quando criança, mas falava sobre escalar. O esporte tem um vocabulário próprio - eles dizem coisas como “jugging” e “rapping” - e eu não tinha ideia do que ele estava dizendo. Ficava chateada por não conseguir me relacionar com ele por causa disso. Achei que deveria tentar para que, pelo menos, pudéssemos conversar.

Como tentou?

Há cerca de 10 anos, Alex estava em casa com uma lesão, então pedi a ele que me levasse à academia de escalada. Achei que iria conhecer o equipamento, escalar até a metade da parede, voltar para casa e ficar feliz. Na primeira escalada, subi cerca de 13 metros, e fiquei totalmente surpresa por não ter medo de nada. Então fiz mais 12 escaladas naquele dia e adorei.

Como era sua vida antes disso?

Uma turbulência total. Meu marido, Charles, caiu morto aos 55 anos no aeroporto de Phoenix, um mês após nosso divórcio e me tornei a executora de seus bens. Meu pai acabara de morrer e eu também estava cuidando de seus bens. Alex quase morreu enquanto fazia snowshoeing em 2004, quando tinha 19 anos. Então comecei a correr, aos poucos, e acabei me tornando uma corredora. Não havia nada na vida que eu estivesse fazendo por mim e correr era para mim. Escalar acabou sendo o mesmo, uma fuga, mas exigiu coragem.

Como superou os desafios da escalada?

O alpinismo é muito físico e há muito o que aprender sobre o equipamento, a física, os ângulos - tudo. Eu era apenas uma velha senhora de meia-idade, completamente ocupada com trabalhos e tarefas domésticas. Eu também estava com medo e às vezes você precisa de uma ajudinha para fazer algo totalmente novo e estranho para você. Mas depois de um mês ou dois, eu já tinha conversado o suficiente comigo mesma e então disse, OK, hoje, você não vai para casa depois do trabalho. Você vai direto para a academia de escalada. E eu fiz isso. Tornou-se uma rotina. O alpinismo era como uma chave abrindo essa porta para toda a vida. Foi maravilhoso.

Como se preparou para o El Capitan?

Fui para Yosemite para treinar três dias por semana durante 18 semanas seguidas. Fui caminhar e escalar. Eu nunca fui capaz de fazer flexões ou pull-ups, então peguei uma daquelas barras que você pode colocar junto à porta e comecei a me exercitar nela. Cada vez que passo por ela, faço 10 pull-ups. Estou fazendo cerca de 50 pull-ups por dia agora. Não são pull-ups do chão, mas, para mim, é extraordinário. Escalar pela rota Lurking Fear foi a coisa mais difícil que já fiz, de longe, mas só o fato de estar em El Cap é uma loucura. Sua vida muda.

O que você diria às pessoas que estão paralisadas ou com medo de fazer mudanças que possam ser boas para elas?

Você primeiro tem que descobrir por que acha que não pode fazer algo e se perguntar se isso é válido. Olha, em cada etapa da sua vida há sempre alguém te dizendo o que comer, o que vestir, que você não consegue dormir sem esse remédio, e tudo isso é um absurdo. Você pode decidir por si mesmo do que acha que é capaz. É tão triste quando as pessoas dizem, ah, tenho 50 anos, não posso... preencha como quiser. Tente mesmo assim! Quem se importa! Você pode se surpreender. /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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