(Sara Krulwich/The New York Times)
(Sara Krulwich/The New York Times)

O adeus ao amigo e escritor anticolonialista Naipaul

Em sua literatura pós-colonial, V.S. Naipaul obrigou os escritores de países como a Índia a olharem honestamente para as suas sociedades

Aatish Taseer, The New York Times

18 Agosto 2018 | 10h00

V.S. Naipaul, que dominou o panorama da literatura pós-colonial, morreu no dia 11 de agosto. Ele era meu amigo, meu mentor, meu mestre. Soube da sua morte por um e-mail online de sua esposa, Nadira: “Vidia se foi gentilmente na noite”.

Vidia, como Naipaul era conhecido por seus amigos, nasceu em 1932 em Trinidad, de uma família de origem indiana que viera como mão de obra contratada depois da abolição da escravatura. Ao longo dos 50 anos de sua carreira, ele proporcionou a jovens escritores como eu - na Índia, na África, no mundo islâmico e na América do Sul - um vislumbre crucial das nossas respectivas sociedades. 

Em uma época em que o Ocidente se desmanchava em pedidos de desculpas, e a outra parte do mundo experimentava um senso de luto, seu grande tema foi o mal que os países, como o meu, fazem a si mesmos quando não assumem a responsabilidade por sua história. Graças à qualidade de uma visão que era quase equivalente à crueldade, ele mostrou ao Ocidente quantos dos seus pressupostos eram uma celebração de sua segurança, enquanto, no Leste, nos forçavam a olhar atentamente para os nossos países. Muitos, como seu contemporâneo e colega prêmio Nobel, Derek Walcott, que acreditavam que a sua preocupação era uma forma de desprezo; Edward Said o descreveu como uma “catástrofe intelectual”. Eu o adorava. Sua honestidade me libertou.

Conheci Naipaul quando eu tinha 18 anos, e estava prestes a ingressar em uma universidade nos Estados Unidos. Ele me disse para não ir. “Os indianos”, falou, “vão para estes lugares, se deslumbram com a instituição e saem não tendo aprendido nada, apenas conversa fiada.”

“O que ele deveria fazer então?” perguntou minha mãe, que é amiga de Nadira.

“Ele deveria sair corajosamente pelo mundo”, ele respondeu.

Nos 20 anos seguintes, ele percorreu como um fio condutor os momentos críticos da minha vida: a publicação do meu primeiro livro, o assassinato do meu pai no Paquistão. Viajei com ele e fiquei com ele. O nosso relacionamento foi marcado, como acredito que todos os seus relacionamentos foram, por uma mescla de crueldade e ternura. Foi como se ele visse uma forma de liberdade em reconciliar as pessoas com a mais severa versão da verdade.

No Wiltshire, Inglaterra, onde ele vivia desde os anos 80, sua ternura e generosidade se destacaram. 

Ele estava seguro, em sua casa. E, neste espírito, foi um maravilhoso mestre. Ele me ensinou sobre pintura japonesa e miniaturas indianas, sobre plantas e árvores no campo, que ele imortalizou em “O enigma da chegada”.

A brutalidade que percorria o seu pensamento vinha de um desejo de ser inatacável de nunca, como ele dizia, “cair na mentira”. Quando a verdade vinha à tona, era esmagadora. Ele leu e não gostou do meu primeiro romance. Antes mesmo que fosse publicado, ele falou comigo pelo telefone. Posso dizer que ele se sentia com uma disposição brutal. “Você não entendeu a forma da ficção. Você tem a ambição de escrever um romance, mas simplesmente o enche com suas próprias experiências”. 

Ele me demoliu durante 90 minutos. Depois disse: “Acho que você fará muito bem a transição para a ficção. Eu não estaria falando tudo isto se não achasse”. Eu me senti aplastado. Lembro que então me dei conta de que a minha existência como escritor dependia da minha capacidade de sobreviver a esta crítica. “O problema de Vidia”, escreveu Nadira mais tarde, “é que ele não dá nada de si mesmo, mas quando dá, é totalmente, chega a ser irritante”.

O que era autêntico neste homem era autêntico em sua obra também. Em um momento revelador do livro “India: a civilização ferida”, em que uma mulher em um jantar começou a falar a Naipaul que os pobres são maravilhosos, “mais maravilhosos do que as pessoas nesta sala”, o julgamento chegou rápido como uma porrada: “Os pobres de Bombaim não são maravilhosos”, ele escreveu, “são como uma raça à parte, uma raça de anões, atrofiados e lentos de raciocínio e enfeiados por gerações de subnutrição; levará gerações para reabilitá-los”.

Voltei com frequência para a sua obra porque sentia que a minha versão dos meus lugares - Índia e Paquistão - embora áspera, restaurava uma espécie de autonomia. Em uma época em que os estudos pós-coloniais nos alimentaram consideravelmente de uma confortável conversa fiada, as obras de Naipaul nos ajudaram a nos apropriarmos do nosso passado.

Ele nunca desviou sua atenção. Estava com ele em Wiltshire, logo depois que meu pai, o governador do Punjab, no Paquistão, foi assassinado. Na época, eu me desentendera com meu pai e não tinha certeza se poderia pranteá-lo. Naipaul, com uma honestidade que me livrou da culpa, disse: “Mas seu pai era também seu grande inimigo. 

Portanto, sua morte veio como uma sensação de alívio”. Eu não teria ousado pensar ou dizer isto.

Esta honestidade veio juntamente com um imenso e perigoso senso de humor. Inúmeras vezes me perguntaram se eu achava que meu pai havia morrido pelo Paquistão. Não sabia o que responder ao certo. Quando perguntei a Naipaul o que ele achava, ele parou um instante depois disse com uma risada: “Melhor dizer que ele morreu no Paquistão. Sim, sim, sim. Melhor dizer isto”.

Naipaul pagou um preço por sua honestidade. Na Índia, muitos expoentes da intelligentsia o denunciaram por acreditarem que sua política era reacionária, que ele dava cobertura à direita hindu. Mas a verdade é que as nuances de suas posições muitas vezes se perderam. Ele foi vilipendiado pela esquerda e cooptado pela direita.

 

Entretanto, sua obra conserva sua complexidade, e ninguém deixou uma leitura de Naipaul com algo tão simples como um slogan político. Depois de sua morte, Salman Rushdie escreveu: “Nós discordamos a vida inteira, sobre política, sobre literatura, e eu estou triste como se acabasse de perder um irmão mais velho muito amado”.

Quando ele estava indo embora, Nadira, leu para ele um trecho de sua obra. Então pediu a um amigo que lesse para ele “Crossing the Bar” de Tennyson. “Eu fiz isto”, ela me disse, “porque o seu corpo já havia ido embora, mas a mente não o deixara”. Foi arrasador ouvir isto. O meu relacionamento com Naipaul esteve repleto das suas alegrias e mágoas. Mas, como certa vez ele me falou em relação à morte do seu irmão: “Nós não controlamos quem pranteamos”.

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