Devin Yalkin para The New York Times
Devin Yalkin para The New York Times

O belo e assustador submundo divino na Catedral de São João

Entre os achados estão anjos de madeira, santos em fila, e dois bispos enterrados

Helene Stapinski, The New York Times

05 Outubro 2018 | 15h45

Quando visitou pela primeira vez a Catedral de São João, o Divino, de estilo gótico, no ano passado, na capacidade de deão interino, o reverendo Clifton Daniel III pediu para ver o porão. Talvez essa sombria curiosidade viesse do seu passado gótico sulista (ele é da Carolina do Norte).

“A cripta foi a primeira coisa que quis ver", disse ele, com o sotaque característico do Sul dos Estados Unidos. “Eles me disseram que não havia nada ali a não ser velharias. Mas eu pedi que me mostrassem.”

Nos cantos escuros daquele porão, o deão Daniel descobriu uma série de tesouros estranhos: um anfiteatro grego, móveis antigos e vitrais, anjos de madeira, gárgulas de gesso, restos de metal retorcido do World Trade Center, e uma série de santos formando fila “como quem quer ir ao banheiro”, como diriam alguns dos exploradores do local. 

Havia um imenso cristal de quartzo e um imenso fóssil antigo - ambos transferidos para a cripta depois que um incêndio danificou a catedral em 2001 (os alicerces são de 1892.)

Agora, a cripta da catedral, cujo tamanho corresponde ao da própria igreja de São João, está passando por uma lenta reabilitação sob a direção do deão Daniel, nomeado deão permanente em junho.

Uma das metas do deão Daniel é trazer alguns dos objetos de volta ao andar de cima da igreja de São João.

“Eu me apaixonei pela cripta, e continuo enamorado dela", disse o deão Daniel. “Sótãos e porões são símbolos do inconsciente, e é por isso que são lugares misteriosos - lugares que podemos explorar e onde encontramos coisas inesperadas, fazemos descobertas e nos assustamos para valer. São lugares maravilhosos para quem tem a coragem de embarcar nessa viagem.”

As obras na cripta começaram no semestre passado, e prosseguem intermitentemente. O anfiteatro grego, fora de uso, foi derrubado, revelando tumbas que continham os restos de dois bispos e do primeiro deão da catedral, William Grosvenor, atuante entre 1911 e 1916.

O novo deão também se dedicou a conhecer melhor as salas laterais, batizadas com os nomes das capelas da catedral diretamente acima: São Tiago, São Salvador e São Martinho. Uma das salas contém tubos e peças sobressalentes para o órgão do andar de cima; outra tem uma antiga caixa de oferendas em madeira decorada com coroas de flores e imagens de Netuno, bem como uma cadeira de estilo italiano que pode ser - “É apenas um palpite", disse o deão Daniel - do século 16.

A Sala de São Tiago, usada como estúdio de artista, é iluminada graças a tijolos de vidro. Em uma das extremidades do estúdio há uma estante de livros moderna que, quando empurrada, abre uma passagem secreta para um quarto usado por artistas que já trabalharam aqui.

Greg Wyatt, artista residente da catedral nos 28 anos mais recentes, se lembra com carinho da época em que trabalhou no espaço da cripta durante 14 meses, em 1982-83, enquanto criava sua Fonte da Paz.

“Ninguém sabia que eu morava lá embaixo", disse ele. “Trabalhávamos em turnos de 18 horas.” 

Carpinteiros construíram a porta na estante com o objetivo de dar ao escultor privacidade quando ele precisasse dormir. Os operários também instalaram um teto especial no banheiro do estúdio, decorado com imagens da Capela Sistina.

Mas nem tudo na cripta é misterioso e estranho. Alguns operários ainda trabalham ali - nos seus espaços mais normais. Dois ginásios para crianças, uma cozinha industrial para o sopão de domingo e escritórios administrativos também ocupam a imensa cripta.

“É ótimo, exceto pela falta de janelas", disse Mia Michelson-Bartlett, que trabalha aqui há cinco anos. “Esse é o único ponto negativo.” Entre outras coisas, o departamento dela organiza visitas à cripta no dia das bruxas. Mas Mia não conta a todos que trabalha numa cripta. “Dizemos apenas que trabalhamos no andar de baixo.”

Embora não tenha planos concretos para a cripta, o deão Daniel sabe que deseja construir uma livraria, uma loja de lembranças e um café na ala norte do andar de cima, mais moderna. “Estamos imaginando uma catedral para o século 21", disse ele. “A pergunta é, como seria esse espaço? Não apenas fisicamente, mas em termos da nossa missão.”

O deão Daniel planeja recomeçar o programa de construção da catedral para o treinamento de veteranos. “É uma forma de honrá-los e agradecê-los pelo serviço prestado", disse ele. “Mas preciso encontrar dinheiro para financiar o projeto.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.