Maciek Nabrdalik para The New York Times
Maciek Nabrdalik para The New York Times

O carvão mantém a Polônia quente e os céus poluídos

Governo polonês planeja gastar US$ 8,8 bilhões até 2028 para combater a poluição; cerca de 48 mil pessoas morrem anualmente por causa de doenças respiratórias

Maciek Nabrdalik e Marc Santora, The New York Times

02 Maio 2018 | 15h15

MONTANHA ZAR, POLÔNIA — Do alto do teleférico da Montanha Zar, no sul da Polônia, quase não se veem os vilarejos lá em baixo. Eles parecem obscurecidos pelo nevoeiro matinal, mas a neblina amarela não se dissipa. Fica cada vez mais pesada ao longo do dia, em contraste com a neve branca.

A Polônia tem o ar mais poluído e 33 das 50 cidades mais sujas da União Europeia. O problema é, em grande parte, resultado de sua dependência ao carvão.

Assim como em outras partes da Polônia, a maioria das casas que ficam no sopé da Montanha Zar ainda é aquecida a carvão. Cerca de 19 milhões de pessoas dependem do carvão para o calor no inverno. Em toda a União Europeia, 80% das casas particulares que usam carvão estão em solo polonês.

O carvão é visto como uma alternativa patriótica ao gás russo na Polônia, que se livrou do controle soviético há três décadas, mas continua profundamente desconfiada de sua vizinha do leste.

Muitas esquinas e paradas de ônibus e bonde têm contêineres conhecidos como braseiros, que queimam coque, um derivado de carvão, composto principalmente de carbono. Caldeiras e fornalhas ultrapassadas também queimam carvão.

Andrzej Machno, que mora na pequena cidade de Skawina, a nordeste da Montanha Zar, usa a mesma caldeira de calefação há mais de três décadas. Ele espera um financiamento do governo local para trocá-la por um modelo mais novo e menos poluente. Mas ninguém sabe quando o dinheiro vai chegar, nem se ele terá direito a recebê-lo.

Na Cracóvia, muitos dos edifícios são equipados com caldeiras que datam de décadas atrás. No início do inverno, os entregadores de carvão trabalham sem parar, assim como os consultores ecológicos do governo local, que lançou um projeto para convencer as pessoas a abandonarem a queima de carvão ou madeira.

As autoridades da Cracóvia proibiram o uso do carvão mais barato e poluente e, até 2019, pretendem banir toda a queima de carvão e madeira.

A Cracóvia já reduziu o número de caldeiras obsoletas para cerca de 10 mil, menos da metade de anos atrás.

Mas o governo nacional, sob o partido Lei e Justiça, que defendeu a indústria do carvão, não consegue agir.

Em dezembro, o primeiro-ministro Mateusz Morawiecki anunciou planos para construir duas minas de carvão no sudoeste da Polônia.

A indústria e o transporte também contribuem para a poluição do ar. Os carros da Polônia têm em média 13 anos de idade, a maior média da União Europeia.

Como o problema da poluição faz muitas vítimas, especialmente entre as crianças, o governo enfrenta a possibilidade de sofrer sanções por violar os padrões da União Europeia. Calcula-se que cerca de 48 mil poloneses morrem anualmente devido a doenças relacionadas à má qualidade do ar. O Greenpeace estimou que 62% das escolas de educação infantil da Polônia estão em áreas altamente poluídas.

Em resposta, o governo planeja gastar US$ 8,8 bilhões até 2028 para combater a poluição.

“Não queremos que nossas crianças associem o inverno ao uso de máscaras, mas sim à neve, trenós e bonecos de neve”, disse Morawiecki.

Para educar as pessoas sobre a poluição, especialmente as crianças, surgiu um movimento social.

Jolanta Sitarz-Wojcicka se tornou ativista há dois anos, quando teve um bebê. Em uma escola em Nowe Bystre perto de Zakopane, ela mostrou às crianças fotos de lixo e lhes perguntou o que pode ou não pode queimar na fornalha. O importante não é o que as crianças aprendem, disse ela, mas sim o que elas veem. E elas costumam ver as pessoas queimando qualquer coisa.

Se a situação não melhorar, ela pensa em ir morar na Suécia. Outras pessoas já estão se mudando para escapar da poluição.

Aneta Seidler, líder local de um grupo de alerta contra a poluição do ar em Nowy Targ, no sul da Polônia, tem um filho, está grávida e faz de tudo para não deixar a família sair de casa. Eles vão embora do país no inverno. “Para respirar”, ela disse.

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