The New York Times
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Colapso da Venezuela esvazia a gigante petrolífera PDVSA

As perspectivas para que o país se salve de sua queda livre econômica não são animadoras

William Neuman e Clifford Krauss, The New York Times

06 Julho 2018 | 15h00

EL TIGRE, VENEZUELA - Milhares de trabalhadores estão saindo da estatal petrolífera da Venezuela, abandonando empregos outrora cobiçados, que a mais grave inflação do mundo tornou sem valor algum. E, agora, a hemorragia está ameaçando as chances desta nação de superar uma prolongada crise econômica.

Desesperados, petroleiros, e criminosos, estão retirando da companhia equipamentos vitais, veículos, bombas e cabos de cobre, carregando tudo o que possa ser transformado em dinheiro. A saída da mão de obra e dos equipamentos prejudica ainda mais a estatal que há anos cambaleia à beira do colapso total.

O momento não poderia ser pior para o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que se revela cada vez mais autoritário, reeleito em maio em um pleito condenado por vários líderes do hemisfério.

A Venezuela está prostrada em termos econômicos, bloqueada pela hiperinflação e por toda a sua história de má administração. A fome geral, os conflitos políticos, uma escassez devastadora de medicamentos e o êxodo de mais de um milhão de pessoas criaram uma crise que ultrapassa suas fronteiras.

Para Maduro conseguir encontrar uma saída do caos, a chave terá de ser o petróleo: praticamente a única fonte de moedas fortes para uma nação que tem as maiores reservas petrolíferas estimadas do mundo. Mas, mês a mês, a produção da Venezuela vai minguando um pouco mais.

Os escritórios da companhia estatal, Petróleos de Venezuela, PDVSA, estão se esvaziando, as equipes de terra se reduziram pela metade, caminhões são roubadas e materiais vitais começam a desaparecer. A tudo isto somam-se os graves problemas da companhia que já eram agudos por causa da corrupção, da manutenção quase inexistente, das dívidas devastadoras, a perda de profissionais e até mesmo a falta de peças de reposição.

Agora, os trabalhadores em todos os níveis estão saindo em grandes números, às vezes carregando peças da companhia.

Carlos Navas, 37, trabalhava em uma equipe de perfuração nos arredores do centro petrolífero de El Tigre. Lá ele tinha uma casa com ar condicionado e um carro. Nunca imaginou que um dia não teria dinheiro suficiente parra alimentar a esposa e os três filhos.

Mas no final do ano passado ele deixou o trabalho, contou, porque não podia viver com o que se tornara um salário de fome.

“Antes, se você tinha um trabalho, estava rico”, afirmou Navas, que estava partindo em busca de trabalho nas minas de ouro no Leste. “O seu salário comprava todo o necessário. Agora, a gente não consegue comprar nada, nem mesmo comida”.

Segundo as projeções do Fundo Monetário Internacional, a inflação da Venezuela deverá alcançar a espantosa taxa de 13 mil por cento este ano.

A petrolífera não está muito melhor. A produção se encontra em seu patamar mais baixo dos últimos 30 anos, e não há sinal de que a queda constante deva parar por aí.

A companhia e o governo venezuelano devem mais de US$ 50 bilhões em títulos, e não conseguiram pagar os juros desde o final do ano passado. A China se recusou a emprestar mais dinheiro à Venezuela em troca de futuros pagamentos em petróleo.

Além disso, as exportações de petróleo venezuelanas estão sendo interrompidas também em razão de uma ação legal. Nas últimas semanas, os tribunais determinaram que a companhia petrolífera americana, ConocoPhillips, poderá se apropriar de embarques venezuelanos nas refinarias e nos terminais de exportação em várias ilhas holandesas do Caribe. Internamente, a Venezuela precisou importar gasolina para o mercado nacional, gastando dólares dos quais mal poderia dispor.

Maduro ordenou a prisão de dezenas de gerentes da estatal, inclusive o ex-presidente da companhia, segundo ele na campanha contra a corrupção.

Na região ao redor de El Tigre, muitas das operações da estatal são joint ventures com entidades estrangeiras e outras companhias estatais.

Os executivos do setor falam da dificuldade de trabalhar na Venezuela enquanto as condições sociais estão em declínio.

“As pessoas passam fome”, disse Eldar Saetre, diretor executivo da Equinor, a gigante petrolífera norueguesa que trabalha com a Pdvsa.

Entrevistas com mais de dez atuais e antigos trabalhadores da estatal revelaram uma profunda revolta. Os trabalhadores, muitos dos quais não quiseram se identificar, afirmaram que a deterioração da Pdvsa acelerou.

“Antes, ela era um troféu de ouro”, afirmou um deles. “Não de prata, de ouro. Agora, é um troféu de plástico”.

Uma funcionária com mais de 30 anos de experiência, que se aposentou recentemente, disse que quando começou ganhava o equivalente a cerca de US$ 1.750 por mês.

Agora, o seu salário mensal não compra duas caixas de ovos. “Dá vontade de sair gritando por aí”, afirmou. “É uma bomba relógio. Eu vou aos comícios e fico pensando: Tique-taque, tique-taque”.

Ao sair, os trabalhadores levam equipamentos vitais da companhia./ Patricia Torres e Ana Vanessa Herrero contribuíram com a reportagem.

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