Informação para você ler, ouvir, assistir, dialogar e compartilhar!
Tenha acesso ilimitado
por R$0,30/dia!
(no plano anual de R$ 99,90)
R$ 0,30/DIA ASSINAR
No plano anual de R$ 99,90
Josh Edelson/Agence France-Presse — Getty Images
Josh Edelson/Agence France-Presse — Getty Images

O coronavírus está moldando o futuro de como trabalhamos?

Já existe a sensação de que, na Califórnia, a pandemia está criando um ponto de inflexão com o mesmo significado que a Segunda Guerra Mundial

Miriam Pawel, The New York Times

28 de março de 2020 | 06h00

A ironia e o simbolismo eram evidentes quando os membros da California Future of Work Commission se encontraram em uma reunião virtual, marcada apressadamente em meio a uma crise em andamento. A pandemia, e a recessão que certamente se seguirá, ameaça antecipar-se e arrasar os esforços para moldar o futuro do trabalho, e portanto o futuro da Califórnia – como criar bons empregos, reduzir a pobreza e redefinir as relações e as estruturas a fim de diminuir a enorme disparidade da renda que ofusca a riqueza e o sucesso do estado.

Por isso, as recentes reuniões tornaram-se não apenas um experimento para aprender a fazer negócios em um mundo pós-coronavírus, mas também uma conversa repleta de dúvidas, temores e aspirações sobre como o futuro poderá evolver. O coronavírus terá um aspecto positivo se servir de impulso para uma reviravolta construtiva, assim como a nossa repentina dependência forçada nas telecomunicações já está produzindo um impacto.

“Estamos realizando um experimento natural”, disse Peter Schwartz, futurista e membro da comissão. “Um experimento que preferiríamos de não ter feito. Mas iremos aprender da maneira mais complicada, e não rápida, pela necessidade, tudo o que pode ser feito remotamente... Depois disso, não voltaremos à estaca zero. O que aprenderemos de tudo isto em termos de como a nossa sociedade poderá mudar?”

A Segunda Guerra Mundial, a última crise internacional que subverteu a vida na Califórnia, transformou o estado em um centro militar e abriu as portas para décadas de crescimento. Já existe um sentido em que o coronavírus poderá contribuir para criar um ponto de virada de importância equivalente. Para melhor ou para pior, quando a epidemia ceder, não haverá volta.

Se o setor privado conseguir se envergonhar e pagar o auxílio-doença aos seus empregados, será que tirará os benefícios quando o pânico passar? Se milhares de pessoas sem teto puderem ir para hotéis para se protegerem contra a doença, como o governador Gavin Newsom promete fazer, será que mais tarde terão de voltar para as suas barracas?

Enquanto milhões de estudantes e seus professores se adaptam às aulas à distância, será que as universidades continuarão a combater a ideia da educação online? Se as cadeias superlotadas soltarem sem problemas os detentos que aguardam um processo a fim de minimizar o perigo de uma infecção generalizada, será que as autoridades voltarão a trancafiar na prisão os que não têm condições de pagar fiança?

Acaso as dezenas de milhares de pessoas que agora precisam usar o transporte coletivo na cidade de Stockton para trabalhar – mais de um quarto da sua população – voltarão aos seus automóveis para os seus deslocamentos diários de horas a fio até a Bay Area? O coronavírus também expôs falhas econômicas que ainda eram facilmente ignoradas em tempos de paz. Aquele 1% dos cidadãos queria que os sem teto desaparecessem e que os pobres parassem de roubar pacotes das varandas e roubassem os carros. Moradores de San Francisco colocaram blocos na calçada para desestimular os sem teto a dormir ali.

Agora os riscos tornaram-se exponencialmente maiores, e as conexões são mais óbvias. Os trabalhadores da indústria alimentícia e os motoristas do Uber que foram infectados e não tem auxílio doença podem espalhar a doença até entre os mais ricos. Será que o vírus  obrigará a um reconhecimento mais do que tardio das desigualdades estruturais inerentes a uma sociedade que depende de uma classe de serviços que mal consegue sobreviver, mesmo nos bons tempos?

Alguns veem motivos de esperança. Saru Jayaraman, que organizou os trabalhadores dos restaurantes e de outras atividades que pagam pouco destacou a recente decisão da Darden Corporation, proprietária dos restaurantes Olive Garden, de mudar totalmente uma postura arraigada e conceder aos trabalhadores o auxílio doença.

“O tempo todo eles afirmaram: ‘Não é possível, não é possível, não vai funcionar’. E de repente, agora é possível”, disse Saru, também comissária de um Futuro da Califórnia, que administra o Food Labor Research Center da Universidade da Califórnia, em Berkeley. “Acho que um momento como este é uma oportunidade para fazer coisas que precisavam  ter sido feitas há muito tempo”,

Quando o líder trabalhista Cesar Chavez começou a organizar os trabalhadores dos campos, os produtores queriam que os operários carpissem com uma enxada de cabo curto, um instrumento de 45 centímetros de comprimento, conhecido como el cortito, que exigia que o trabalhador se curvasse e praticamente agachasse para realizar a sua tarefa. Durante anos, os produtores afirmaram que não havia outra maneira de carpir com eficiência, até que Chávez liderou a luta para banir el cortito, quando foi possível constatar que as enxadas de cabo longo funcionavam igualmente bem.

Hoje, a velocidade, a profundidade e as dimensões da mudança são espantosas. Em meados de março, seis milhões de crianças de toda a Califórnia foram mandados para casa da escola, sem data prevista para voltar. O estado apressou-se a ajudar a elaborar planos para alimentar os 60 % dos estudantes da rede pública que dependiam da merenda gratuita da escola.

Três sistemas universitários públicos que educam quase três milhões de estudantes fecharam e transferiram as aulas online. A legislatura da Califórnia concedeu unanimemente ao governador autoridade para gastar US$ 1 bilhão em medidas emergenciais, e depois tomou a decisão extraordinária de suspender as aulas por quase um mês.  

“Abrigue-se em casa”, a frase usada até agora para descrever o comportamento de último recurso em desastres como os incêndios florestais, tornou-se a nova norma cujo alcance ultrapassa o dos incêndios que se espalham de maneira extremamente rápida. Em meio à emergência, houve momentos mais leves, como cabe a um estado em que atores se tornaram governadores.

O filho de Mel Brooks, separado do pai por uma porta de vidro no pátio, fez um vídeo explicando que ele, sendo jovem, poderia recuperar-se com certeza do coronavírus, mas poderia infectar os outros e assim acabar com uma geração de comediantes – Brooks, Carl Reiner e Dick Van Dyke.

O ex-governador Arnold Schwarzenegger divulgou uma série de anúncios de serviços públicos que se tornaram sucessos na mídia social: um tutorial sobre como lavar as mães com a participação do seu cachorro Cherry; um vídeo mostrando como ele estava se protegendo em casa com Lulu e Whiskey, um pônei e um macaco, os seus pets miniatura, e um pequeno clipe de Schwarzenegger passando de bicicleta diante de um mural dele mesmo em toda a sua glória de fisiculturista, um lembrete para exercitar-se fora de casa – sozinho.

Nos últimos anos, o número de pessoas que se mudaram da Califórnia foi maior do que o das que ali se estabeleceram, obrigadas a sair pela alta do custo de vida, a escassez de habitações, a falta de empregos de classe média com bons salários. As previsões falavam de um déficit de um milhão de trabalhadores com formação superior. O que é uma paisagem muito diferente da Califórnia dos anos 1960 que saudou Schwartz, o futuro Comissário do Trabalho, à sua chegada.

“Todo mundo queria viver aqui”, ele disse. “Era aqui que o futuro estava sendo gestado. Quando a poluição atmosférica ofuscou aquele futuro de maneira tão impressionante que não dava para ver o horizonte, os californianos identificaram o culpado e abriram o caminho para a imposição de padrões para as emissões.

Em meados de março, quando o mundo se abrigava em casa deixando  as rodovias estranhamente vazias, o mapa da qualidade do ar de Los Angeles era de um verde vivo. Talvez isso também, possa fazer parte do futuro. Não haverá volta para a maneira como nós éramos antes da pandemia.

Miriam Powel é a autora de “The Browns of California: The Family Dinasty That Transformed a State and Shaped a nation”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

Tudo o que sabemos sobre:
coronavírus

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.