The New York Times
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O curioso caso de um livro usado que custa mais de US$ 2 mil

Exemplares de um mesmo romance estão à venda na Amazon por preços que variam de US$ 0,99 a US$ 2.639,52

David Streitfeld, The New York Times

27 Julho 2018 | 15h00

SAN FRANCISCO - Muitos vendedores de livros na Amazon procuram vender sua mercadoria o mais barato possível. Afinal, esta é a estratégia em um mercado competitivo. Outros comerciantes são favoráveis  a uma estratégia contraditória: eles põem o preço lá em cima.

"Bizarro!", escreveu no Twitter no mês passado a autora de romances Deborah MacGillivray, ao descobrir que exemplares de seu romance One Snowy Knight, de 2009, estavam sendo oferecido por milhares de dólares. Um deles, inclusive, por "US$ 2.639,52, com frete grátis", enfatizou.

Como outros exemplares da brochura eram vendidos por outros vendedores na própria Amazon por US$ 0,99, a autora ficou perplexa. "Será que eles esperam enganar alguma pobre alma?", escreveu Deborah em um e-mail.

A Amazon é o maior mercado de livros novos e usados que o mundo já viu. Ela vende diretamente alguns livros, enquanto outros são vendidos por terceiros. Essa estratégia maluca de preços acontece no segundo caso.

Os livros foram o primeiro produto da Amazon, os quais, aliás, contribuíram para criar a fama da companhia. Entretanto, agora constituem uma parcela minúscula de seu faturamento. A Amazon está se expandindo praticamente em todos os campos e áreas geográficas. Ao mesmo tempo, a impressão que se tem, agora, é de que a livraria original está sendo operada por algoritmos, com uma participação mínima do ser humano.

A curiosa estratégia de preços ocorre em recantos remotos da livraria da Amazon, aos quais não se presta muita atenção, afirmou Guru Hariharan, diretor-executivo do Boomerang Commerce, que desenvolve tecnologia para comerciantes e marcas.

Os vendedores terceirizados, segundo Hariharan, variam: tanto podem ser marcas muito respeitadas quanto indivíduos que usam o mercado da Amazon como uma oportunidade de "arbitragem". Eles põem à venda produtos aos quais têm acesso e ajustam preços e estoques tendo em vista unicamente o lucro. 

Depois vêm os especialistas em preços mirabolantes. "Eles fazem estes livros parecerem escassos, tentando justificar o preço exorbitante que eles mesmos estabelecem", explicou Hariharam, que trabalhou na Amazon há dez anos.

A companhia informou em um comunicado que "monitora continuamente e retira de circulação" as ofertas que violam suas políticas. Entretanto, não entrou em detalhe quanto a tais políticas.

Há dez anos, Elisabeth Petry escreveu um tributo à mãe, a romancista Ann Petry. At Home Inside, publicado pela University of Mississippi Press, hoje está esgotado, no entanto, recentemente, exemplares de segunda mão estavam à venda na Amazon. Um exemplar descartado por uma livraria custava US$ 1.900, uma pechincha em comparação ao oferecido por US$ 2.464. Uma nova  pesquisa a respeito do livro revelou ainda outro preço. Desta vez, tratava-se de um único exemplar à venda, por US$ 691. Um cliente pode pagar até três vezes mais, dependendo do vendedor pelo qual optou.

Um dos vendedores do livro de Deborah MacGillivray é Red Rhino, que diz estar sediado na Carolina do Norte. Todos os livros que se encontram nas primeiras páginas da sua vitrine  - incluindo Farenheit 451, The Very Hungry Caterpillar e 1984 - custam US$ 600. No ano passado, Red Rhino recebeu cerca de 1.400 comentários no serviço aos clientes - 91 positivos -, embora alguns dos que se dispuseram a comentar aparentemente nem sequer soubessem o que é um livro. "O livro está intacto,  não está quebrado", escreveu um deles.  Outro comentou: "Muito bom. Foi notada flexibilidade em vários pontos".

Red Rhino não retornou os e-mails para comentários enviados por meio de suas páginas da Amazon.

Deborah disse que ficou mais perplexa do que nunca por causa da estratégia de preços. "Não há nada ilegal em pôr à venda um produto a qualquer preço que o mercado aceite", disse, mas acrescentou: "Ao mesmo tempo, acredito que a Amazon não vá querer que sua plataforma seja usada para práticas menos que honradas".

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