Agence France-Presse - Getty Images
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O debate a respeito do que é melhor para as tribos isoladas

Morte de missionário americano em ilha tropical por grupo indígena levanta discussão

Jeffrey Gettleman, The New York Times

09 Dezembro 2018 | 06h00

Em meados de novembro, um jovem americano fez uma fatídica viagem à Ilha Sentinela do Norte, um pequeno pedaço de terra na Baía de Bengala e lar daquele que deve ser o povo mais isolado do planeta - uma tribo de 50 membros.

Desde quando era menino, John Chau, um missionário evangélico que gostava muito de viajar, sonhava em trazer o cristianismo para os habitantes da Sentinela do Norte.

Distante do litoral da Índia, no arquipélago das Ilhas Andaman, Sentinela do Norte tem mais ou menos o tamanho de Manhattan. Seus habitantes são caçadores e coletores. Eles seguem um estilo de vida que já existe há dezenas de milhares de anos. Nenhum forasteiro conhece seu idioma. Eles atacaram todos que tentaram colocar os pés na sua praia, aparecendo virtualmente nus enquanto disparavam suas flechas. Em seguida, recuam da praia e desaparecem na floresta. Muitos de nós ficam surpresos em saber da existência de um lugar assim no século 21.

Mas a morte de Chau, tão comentada na mídia, tirou a ilha do esquecimento e trouxe algumas questões morais fundamentais. Como devemos interagir com esses grupos tão frágeis? Será que o melhor é impedir que qualquer pessoa interaja com eles? Ou esse comportamento seria paternalista, negando a eles coisas que o mundo todo considera desejáveis, como ensino e atendimento de saúde?

Chau, 26 anos, chegou trazendo presentes (tesouras, alfinetes, uma bola de futebol) e eles o mataram. O que ele fez foi ilegal. O governo indiano proíbe o contato, considerando os habitantes da ilha um “tesouro humano ultrassensível". Talvez essa seja uma atitude paternalista; talvez tenha bons fundamentos morais.

Para Chau, o imperativo moral era chegar à ilha. Na sua visão de mundo evangélica, é um ato de compaixão trazer os demais para o cristianismo; essa é a única maneira de salvá-los do inferno.

Após a morte dele, muitas pessoas, incluindo missionários, descreveram seu comportamento como ingênuo, delirante e irresponsável.

A professora de linguística Anvita Abbi, que conhece Sentinela do Norte, disse que eles têm o direito de defender seu território. Ela disse que a situação é semelhante às leis de autodefesa dos Estados Unidos, que permitem às pessoas que disparem contra invasores.

“Essas pessoas estão nos dizendo claramente para que não cheguemos perto. Elas não querem nos conhecer. Ainda assim, continuamos invadindo o território deles, incomodando-os, e isso pode até resultar na morte da tribo". Por causa do seu isolamento, disse a professora, eles não têm imunidade contra as infecções do mundo exterior. Ela disse que Chau colocou essas pessoas em perigo.

O antropólogo John Bodley, da Universidade do Estado de Washington, concorda. “Os forasteiros precisam respeitar os desejos deles e tratá-los com dignidade, como seres humanos", disse. 

“Respeitá-los significa não supor que sabemos melhor do que eles como os próprios deveriam viver.”

Mas será que os forasteiros podem supor que os membros da tribo não desejam contato com eles sem se comunicar com eles? O antropólogo Kim Hill, da Universidade do Estado do Arizona, disse que é “desumano e pouco sábio manter esses grupos isolados pela força, construindo em torno deles cercas de proteção". 

Em primeiro lugar, se uma população ficar demasiadamente pequena e isolada, é provável que se acabe. O contato pode ser perigoso, mas a falta de contato também o é. Em segundo, algum tipo de encontro com um forasteiro é inevitável, disse Hill, e “um contato acidental é uma oportunidade para o desastre". 

Sentinela do Norte é isolada, mas fica a apenas cerca de 50 quilômetros da capital da região, Port Blair, cada vez maior.

Para Hill, a solução é aprender o que esses grupos desejam, para que então possamos tomar uma decisão a respeito do seu futuro. “Os humanos são uma espécie extremamente sociável", disse. “Nenhum grupo deseja viver eternamente no isolamento. Eles o fazem por medo.”

Mas como iniciar um diálogo com um grupo que recebe todos com o arco em punho? Vishvajit Pandya é um antropólogo indiano que fez três visitas à Ilha Sentinela do Norte. Em 1998, ele acompanhou uma equipe do governo que trouxe ao grupo alguns sacos de cocos. Os membros da tribo aceitaram as frutas sem machucar ninguém, mas, em seguida, fizeram gestos obscenos.

“É preciso um pouco de coragem e criatividade", disse Pandya a respeito da etapa seguinte. “Temos que começar oferecendo presentes, anos e anos oferecendo presentes, e isso deve permitir que aprendamos a língua deles. É necessário um esforço para criar um diálogo. Não é fácil, mas todos têm o direito de decidir a respeito do próprio futuro. Esse é o primeiro direito, o direito a ter direitos.”

Quando perguntei se a ilha era bonita - as poucas fotos que vi mostram praias de areia branca e mares de uma água azul - ele retrucou: “Não, é imunda. Nojenta. Diga a todos que evitem o lugar". Então, ele riu. 

“Na verdade, a paisagem é interessante. Os ventos são tão fortes que as árvores têm todas o mesmo formato arrepiado.”

“O lugar é lindo", acrescentou ele. “Mas, por favor, não vá até lá.”

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