Pixabay
Pixabay

O debate sobre as capacidades cognitivas do mundo dos insetos

Conhecer o ‘nada’ como conceito não é algo simples

James Gorman, The New York Times

10 Julho 2018 | 10h15

O que significaria se as abelhas pudessem compreender o conceito de ‘nada’? As abelhas já demonstraram que são capazes de contar. Agora, como os cientistas relataram no mês passado na revista “Science”, as abelhas mostraram que compreendem a ausência de coisas como uma quantidade numérica: nenhum ou zero.

Os únicos animais não humanos que passaram pelo mesmo tipo de teste das abelhas são os primatas e um pássaro. Não uma espécie, mas um único pássaro, um papagaio africano cinzento chamado Alex.

As abelhas se saem muito bem nas experiências, sobre a compreensão do zero, em um sentido que não chega a surpreender. Os pesquisadores continuam descobrindo que os cérebros dos insetos são mais complexos e capazes de aprender, calcular e decidir, do que nós jamais imaginamos. E as abelhas parecem particularmente espertas.

No recente experimento, Scarlett Howard e Adrian Dyer, da RMIT University de Melbourne e seus colegas treinaram abelhas a pousar em displays visuais para ganhar um prêmio.

Algumas foram premiadas se pousassem nos displays de formatos mais variados, e outras se pousassem em displays com menos formatos.

Então, os pesquisadores introduziram um display com nenhuma forma. As abelhas treinadas a pousar em um display com menos formas pousaram no chamado “campo vazio”, o display nada. As abelhas treinadas para pousar no display com mais formas não fizeram isto.

As abelhas se saíram melhor quando o display vazio estava em um grupo com displays com um número maior de formas do que com um número menor.

Os resultados, segundo o Dr. Dyer, mostram que as abelhas “compreenderam que zero é um número inferior a um e parte de uma sequência de números”.

Mas será que as abelhas pensavam da maneira como nós pensamos conscientemente? “Eu certamente não usaria a palavra  consciência”, em relação às abelhas, disse o dr. Dyer. Mas “a evidência é coerente com capacidades cognitivas de alto nível”.

Lars Chittka, da Queen Mary University de Londres, disse que as abelhas mostraram capacidade comparável à dos primatas nas tarefas que os pesquisadores lhes apresentaram. Mas, observou, os seres humanos estão separados dos chimpanzés talvez por seis milhões de anos de evolução e dos insetos por 500 milhões de anos ou mais. O que ambas as espécies estão fazendo poderia ser bastante diferente em termos computacionais.

Ele supõe que as abelhas com suas variadas habilidades - que ele treinou para colocar uma bola em um buraco e mostraram que elas podem aprender umas das outras  a puxar um cordão para conseguir um prêmio - talvez tenham “uma espécie de inteligência mais flexível que nos permite solucionar toda espécie de problemas”.

David Anderson, do California Institute of Technology, estuda as moscas da fruta  e defende tanto a sofisticação dos cérebros dos insetos, quanto a cautela em julgar até onde esta sofisticação pode ir.

“É difícil saber o que esta tarefa pode ‘significar’ para as abelhas”, escreveu em um e-mail, “de um ponto de vista ‘conceitual’, porque  nós não compreendemos a estratégia que os cérebros das abelhas utilizam para solucionar o problema”.

Scarlett Howard afirmou que decifrar os processos mentais é um objetivo futuro. “Até o momento,” ela disse, “nós não sabemos de que maneira um animal representa ‘nada’ no seu cérebro”.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.