Manu Brabo/AP
Manu Brabo/AP

O EI se enfraqueceu, mas as ameaças de terrorismo crescem e se modificam

O caos continua na Síria dificultando a perseguição aos terroristas

Eric Schmitt, The New York Times

12 Julho 2018 | 15h15

WASHINGTON - Na Alemanha e na França, as autoridades frustraram complôs de terroristas que pretendiam atacar com o mortífero veneno da ricina. No leste da Síria, o Estado Islâmico seguia em retirada sob os assaltos da milícia curda e dos pilotos iraquianos. Enquanto no Iêmen, Somália e Líbia extremistas eram os alvos de ataques aéreos americanos.

Estas ações empreendidas nas últimas semanas mostram a evolução da ameaça do extremismo islâmico em todo o mundo, que persistirá muito depois da derrota do Estado Islâmico no campo de batalha. Dos planos de extremistas solitários aos combatentes alinhados com o Estado Islâmico ou com o Al Qaeda, as ameaças terroristas continuam tão complexas quanto antes, afirmaram funcionários da Inteligência americana e de outros países ocidentais.

O Estado Islâmico utiliza os instrumentos da globalização - Bitcoins e comunicações criptografadas - agora lutando na clandestinidade. “Se observarmos em todo o globo, veremos que o caráter coeso da atuação do EI se manteve”, disse Russell Travers, diretor interino do Centro Nacional do Contraterrorismo nos Estados Unidos. “Não houve nenhuma interrupção, pelo menos ainda não”.

Jim Mattis, o secretário da Defesa americano, reuniu-se recentemente com os comandantes das forças das Operações Especiais e das tropas americanas na África com o intuito de reduzir pela metade as forças do contraterrorismo no continente, ao longo dos  próximos três anos. Entretanto, diversos  especialistas em contraterrorismo manifestaram sua preocupação com a possibilidade de que uma reformulação dos recursos dê tempo aos extremistas de se reagruparem - como fez o Estado Islâmico em 2013, ressurgindo das cinzas do Al Qaeda no Iraque.

“A Europa enfrenta uma intensa ameaça terrorista internacional, multidimensional e implacável”, afirmou Andrew Parker, o chefe do serviço de espionagem interna da Grã-Bretanha, o M15, em um raro discurso em maio.

O EI perdeu quase todo o território que ocupara em 2014 no Iraque e na Síria, mas ainda controla cerca de 2.600 quilômetros quadrados, segundo funcionários americanos. Muitos líderes de alto escalão foram mortos, mas os funcionários afirmam que o grupo ainda pode lançar apelos pelas mídias sociais para que os seus simpatizantes realizem ataques onde quer que se encontrem.

Milhares dos cerca dos 40 mil combatentes de mais de 120 países que aderiram ao Estado Islâmico na batalha desde 2014, morreram, segundo oficiais ocidentais. Mas muitos outros provavelmente se transferiram para conflitos na Líbia, Iêmen ou nas Filipinas, ou estão escondidos em países como a Turquia. “Eu me preocupo com os combatentes mais experimentados que aparecerão periodicamente”, afirmou Travers, observando que o persistente caos que reina na Síria torna difícil monitorar os terroristas em fuga.

Os Estados Unidos estão gastando cerca de 1 milhão de dólares para ajudar a deter os milhares de combatentes do EI em campos mantidos pelas milícias curdas no norte da Síria. Os críticos temem que estas instalações possam acabar fornecendo as condições propícias para a formação de novas levas de extremistas e repetir um erro da guerra do Iraque.

As evidências do extremismo islâmico estão se espalhando por novos países, como a República Democrática do Congo. Um grupo que se alterna com nomes como al-Sunnah wa Jama’ah, Swahili Sunna ou al-Shabab, desencadeou ataques em uma região de Moçambique, na fronteira com a Tanzânia. 

Autoridades locais informaram que não tem vínculos formais com o grupo extremista islâmico Shabab na Somália, mas copiou as suas táticas. As autoridades afirmaram que provavelmente se formou em reação à extrema pobreza da única região predominantemente muçulmana de Moçambique.

E, no mês passado, aproximadamente, forças das Operações Especiais americanas continuaram caçando agentes do EI e da Al Qaeda. No dia 6 de junho, um drone americano matou quatro combatentes do EI perto de Bani Walid, na Líbia, a cerca de 180 quilômetros a sudeste de Tripoli, a capital do país. 

Uma semana mais tarde, um outro matou um agente da Al-Qaeda a 80 quilômetros a sudeste de Bani Walid. Dez dias mais tarde, no Iêmen, ataques aéreos americanos atingiram combatentes da Al-Qaeda na região central de Hadramout que está sendo contestada. No dia 8 de junho, um soldado das Operações Especiais americanas foi morto e quatro ficaram feridos em um ataque na Somália contra combatentes da Shabab.

Em maio, graças à interceptação de mensagens na mídia social as autoridades francesas frustraram o plano de um estudante de origem egípcia que usaria o veneno ricina. E na Alemanha, funcionários que agem com informações das agências de inteligência americanas prenderam no mês passado um tunisiano que tentava comprar  sementes de rícino, usadas para fazer a ricina. As autoridades temem que o conhecimento das operações do campo de batalha esteja penetrando nos canais da mídia social, onde 

acaba se tornando disponível a aspirantes a terroristas.

“Parece que possibilidades deste tipo de uso estão aumentando”, afirmou Travers, falando em geral da utilização de armas químicas e de outros venenos pelos extremistas. “E esta é uma preocupação para todos nós”.

Ron Nixon contribuiu para a reportagem

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