O enigma de López Obrador

Se vencer as eleições no México, Obrador mostrará ao mundo que será o presidente da mudança ou o homem que muitos mexicanos temem

Guillermo Osorno, The New York Times

23 de junho de 2018 | 10h00

CIDADE DO MÉXICO - A menos de um mês da eleição presidencial no México, a vitória de Andrés Manuel López Obrador parece inevitável. Não se discute a possibilidade de ele vencer, e sim o tamanho de sua vitória.

Uma pesquisa afirma que ele obterá 54% dos votos, em uma disputa que envolve outros dois importantes candidatos. Outra sondagem sugere que sua coalizão, “Juntos Faremos História”, dominará o Congresso. Uma vitória deste tipo transformaria o mapa político de uma maneira similar ao realinhamento de alianças políticas e prioridades nacionais promovido por Margaret Tatcher, Ronald Reagan e Carlos Salinas de Gortari, do México.

Depois de 18 anos de tentativas, López Obrador, conhecido amplamente pela sigla Amlo, pode ter uma oportunidade histórica. Ele afirmou que sua presidência sinalizará o início da quarta revolução mexicana, na sequência da independência da Espanha, no início do século 19, das reformas liberais, realizadas mais tarde naquele século, e da Revolução Mexicana do início do século 20. 

Ele promete um governo austero e nacionalista, que combaterá a corrupção e a desigualdade. Afirmou que trabalhará por emendas constitucionais para mudar a política energética, eliminar a imunidade para funcionários do governo e autorizar mecanismos de democracia direta, como referendos presidenciais.

Muitos mexicanos querem transformações, acreditando que o país não pode tolerar mais desigualdade, corrupção e violência. Mas eles também têm sérias reservas quanto às posições de López Obrador e suas duvidosas alianças - questionando sua capacidade de dar conta das complexidades dos problemas do México.

São bem fundamentados os receios de que, na falta de um contrapeso político, López Obrador possa se tornar poderoso demais. Mas o diagnóstico dele para as necessidades do México - uma economia mais forte e o fim da corrupção - e seu plano para lidar com a violência, incluindo um programa de ajuda a jovens envolvidos na guerra às drogas, estão no foco.

   

Em 1988, Amlo se juntou a um movimento político contra a candidatura de Salinas de Gortari que levou à fundação do Partido da Revolução Democrática (PRD). Como presidente do PRD em Tabasco, ele ganhou notoriedade nacional ao liderar marchas de protesto contra a fraude eleitoral.

López Obrador acabou ascendendo a presidente nacional do PRD, e sob sua liderança, o partido conquistou vários governos estaduais e assentos no Senado e na Câmara do Deputados. Nas eleições de 2000, López Obrador foi eleito prefeito da Cidade do México. Aquele momento e o papel dele foram cruciais, permitindo-lhe promover disciplina financeira e políticas de austeridade ao mesmo tempo que implementava uma ampla variedade de programas sociais. 

Em 2003, ele havia se tornado um dos políticos mais populares do México, com taxas de aprovação próximas a 80%. Em 2006, sua candidatura à presidência parecia tão óbvia quanto invencível. Sua mensagem encontra eco em todos os tipos de eleitores mexicanos: da classe trabalhadora aos jovens com nível superior de educação.

López Obrador defende certos valores tradicionais da esquerda: uma preocupação com a desigualdade e a pobreza e a crença de que o governo deve ter participação determinante na economia. Ele é um cristão que não está particularmente interessado em políticas de gênero, direitos reprodutivos ou minorias sexuais, um nacionalista cético em relação a fórmulas políticas ou econômicas impostas a partir do exterior. 

Esta é sua terceira tentativa de chegar à presidência. Em 2006, ele também liderava as pesquisas, mas, além de ter cometido seus próprios erros, seus adversários o definiam como um candidato perigoso, comparando-o ao então presidente venezuelano, Hugo Chávez, morto em 2013. O truque funcionou, e ele perdeu por uma minúscula margem.

Em 2012, após a derrota para Enrique Peña Nieto, ele deixou o PRD para fundar o Movimento Regeneração Nacional, conhecido como Morena. Em menos de três anos, o Morena emergiu como uma alternativa viável aos arraigados partidos PRI e PAN.

López Obrador se aliou com uma gama de atores políticos: de líderes sindicais corruptos a representantes da extrema direita. Fartos da corrupção, da economia em recessão e do aumento da taxa de crimes violentos durante o mandato de Peña Nieto, muitos mexicanos tendem a considerar López Obrador a única alternativa para a mudança.

Na tentativa de conquistar o empresariado mexicano, ele se posicionou como um moderado na política. Em um esforço para garantir que ele não colocará o país em uma profunda dívida, como as que assolam tantos governos de esquerda na América Latina, seus assessores prometem uma política fiscal equilibrada, controle da dívida externa (que foi às alturas em 2017) e acabar com um terço dos empregos públicos mais bem pagos no país.

Pairam sobre estas eleições estratégias dos candidatos para confrontar o valentão à frente da Casa Branca e defender os direitos dos mexicanos nos Estados Unidos, mantendo, ao mesmo tempo, a relação econômica com o vizinho ao norte, que é vital para a economia mexicana. López Obrador e sua equipe saíram em defesa do Nafta. 

Durante o segundo debate presidencial, em 20 de maio, ele reiterou que a melhor política externa é a política doméstica: lidar com a solução de problemas dentro do México antes de tentar resolver problemas regionais. Ele também sugeriu que a relação do México com a Casa Branca melhoraria naturalmente sob sua administração por causa da autoridade moral renovada que ele traria à presidência, após o corrupto governo de Peña Nieto.

A julgar por seu histórico como prefeito da Cidade do México, parece provável que, como presidente, ele manterá uma política fiscal prudente para lutar contra a corrupção e ampliar as políticas sociais. Mas também parece provável que, se assegurar o poder absoluto, ele mobilizará suas tropas para combater inimigos, dividir o mundo entre bons e maus e usar estratégias como consultas populares para evitar obstáculos legais.

López Obrador tem de entender que deve governar para todos. Ele está correto em ressaltar que o México padece de um capitalismo clientelista e que muitas instituições públicas foram sequestradas por interesses privados. Mas ele nubla a atmosfera quando chama o empresariado de predatório, e os ministros da Suprema Corte, de gângsteres. Se ele pretende combater a corrupção, deveria também ter como alvo alguns colegas de turma.

Se ele conquistar a presidência e obtiver maioria no Congresso, suas propostas de emendas constitucionais serão aprovadas rapidamente. E seu sucesso reavivará uma persistente questão nas mentes de muitos mexicanos: ele será um agente de transformação ou o homem forte de ainda mais uma revolução mexicana?

Guillermo Osorno é jornalista e escritor mexicano. É editor da revista online Horizontal.MX.

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