Nathan Bajar para The New York Times
Nathan Bajar para The New York Times

O homem que gostaria de ser uma moeda virtual

Kevin Abosch está transformando a tecnologia por trás de criptomoedas em arte, até mesmo carimbando endereços blockchain em seu próprio sangue

Sophie Haigney, The New York Times

20 de junho de 2018 | 10h00

Kevin Abosch queria se transformar em uma moeda. Por quê?

Porque vendeu a fotografia de uma batata.

Voltando ao passado:

Abosch, 48, é um artista conceitual e fotógrafo irlandês que mora em Nova York. Ele está interessado  no blockchain, tecnologia mais conhecida por utilizar moedas virtuais como o Bitcoin e o Ether. A estranha cultura em torno das criptomoedas está entrando no mundo da arte, em obras que exploram o valor, a descentralização e o alarde em torno da moeda digital.

A foto de uma sua obra, “Potato#345”, ganhou as manchetes quando Abosch revelou que foi comprada em 2015 por um empresário europeu que pagou um milhão de euros por ela. A atenção despertada pela venda foi estimulante, ele disse. “Por outro lado, a atenção passa do valor artístico para o valor monetário da obra e, para a maioria dos artistas, a arte é uma extensão do artista, portanto, ele próprio começa a se sentir uma espécie de mercadoria. Para tentar controlar tal percepção, passei a me imaginar como uma moeda”.

Abosch pensou no Bitcoin, que registra uma série de transações em uma rede aberta de computadores. O blockchain Ethereum permite que os programadores criem moedas virtuais, que podem ser transferidas entre os usuários. Abosch criou 10 milhões de moedas. “Mas eu não queria tornar estes dez milhões de moedas em arte virtual”, ele disse. “Eu queria que elas fossem conectadas ao meu corpo”.

Então pediu que fossem retirados seis frascos de sangue do seu corpo. Carimbou o endereço do contrato - uma série de números e letras indicando onde vivem as moedas no blockchain - em 100 pedaços de papel, com o próprio sangue. E chamou o projeto “IAMA Coin” (Eu sou uma moeda). Ele acredita ter conectado “com sucesso o meu corpo físico às obras virtuais”.

Michael Connor, o diretor artístico do Rhizome, um centro filiado ao New Museum de Nova York que busca promover a “arte e a cultura digitais”, afirma que tem visto uma quantidade de projetos relacionados a criptomoedas.

“O Blockchain parece ter certo potencial para propor uma lógica econômica diferente que estrutura a sociedade, fazendo com que muitos artistas estejam interessados nas implicações sociais do blockchain e nas criptomoedas”, acrescentou.

As obras de Abosch - e a maneira como são adquiridas e vendidas - atraem alguns dos estranhos etos do mundo das criptomoedas. Um ex-executivo da indústria tecnológica pagou recentemente uma quantia superior ao preço de um Lamborghini real por uma escultura em neon que Abosch fez com um endereço do blockchain que simbolizava o carro Lamborghini.

A peça “YELLOW LAMBO“(2018) é uma referência a uma piada quase séria que circula na comunidade de criptomoedas sobre a utilização dos lucros para a compra de Lamborghinis.

Abosch criou outra moeda, YLAMBO, e transformou o seu endereço em uma escultura em neon amarelo. Ela foi vendida por US$ 400 mil em uma feira de arte de San Francisco a Michael Jackson, o ex-presidente do Skype.

“No mundo cripto você encontra pessoas que jogam milhões em moedas sem nenhum lastro, mas não entende como uma obra de arte possa valer alguma coisa”, ele disse. “Então você conhece pessoas no mundo da arte que não entendem por que você investe dinheiro em arte que não tem nenhuma manifestação física. É aí que a coisa se torna fascinante para mim”.

Abosch usa uma espécie de touca, destas usadas para fazer um eletroencefalograma (EEG), que mede a atividade elétrica do cérebro. O objetivo é “compreender até que ponto o ego está envolvido ou como ele influi na obra, particularmente quando estou fotografando seres humanos”.

Algumas das obras de Abosch não têm qualquer presença física. “Forever Rose”, embora inspirada na foto de uma flor, só existe como uma única moeda de blockchain que foi vendida para dez pessoas em fevereiro por um total de US$1 milhão. Abosch disse que para ele esta é “a mais pura forma de arte - é a ideia, sem uma forma que a contenha”.

Abosch está transformando também Manhattan em moeda. Para um projeto a ser apresentado em breve, ele criou 10 mil moedas de blockchain  para cada rua de Manhattan, depois imprimiu endereços dos contratos sobre um mapa de dois metros de altura. Os colecionadores poderão adquirir as moedas, ou obras de arte virtuais, por uns poucos dólares cada um. E há mais projetos em andamento.

“Seja o que for”, disse Abosch, “estou no meio disso”.

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