Tristan Spinski for The New York Times
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Negócio chinês ajuda a recuperar fábrica de papel dos EUA

A Nine Dragons Paper, dirigida por Zhang Yin, reiniciou uma fábrica de papel abandonada em uma cidade do estado de Maine

Ellen Barry, The New York Times

20 de fevereiro de 2020 | 06h00

OLD TOWN, MAINE - Andrew Edwards, superintendente de operações, cresceu junto a uma fábrica agora extinta e viu o caos humano resultante das falências: as execuções hipotecárias, as demissões, as partidas de famílias jovens. Então, ele tinha todos os motivos para ficar curioso quando uma nova liderança chegou à cidade. Zhang Yin - conhecida na China como a “Rainha do Lixo” e considerada, em 2006, a pessoa mais rica do país - construíra um império, a Nine Dragons Paper, produzindo papelão ondulado a partir de lixo reciclado.

A coisa mais surpreendente a respeito de Zhang era sua promessa de que a Nine Dragons operaria a fábrica por 100 anos, tempo suficiente para empregar os filhos e netos de Edwards. “As pessoas não voltam e refazem essas fábricas antigas, isso simplesmente não acontece”, disse Edwards.

“E aqui está Old Town, no meio de tudo isso, renascendo das cinzas”. O ano de 2019 foi, sob todos os aspectos, desastroso para as relações entre americanos e chineses. Os Estados Unidos estavam travando uma guerra comercial, e as opiniões das pessoas sobre a China ficaram mais negativas.

Mas uma história diferente estava se desenrolando nessa sofrida cidade de 7,5 mil habitantes da Nova Inglaterra. O governo chinês havia cortado a importação de recicláveis americanos, comprometendo as linhas de suprimento que alimentavam os negócios da Nine Dragons. Para manter sua produção de papel a pleno vapor, a Nine Dragons precisava dessa fábrica.

E essa fábrica de Old Town precisava de um salvador. Nenhum bate-boca de guerra comercial mudaria isso. Mas, junto com a gratidão, veio um tom de apreensão. “Este país está sendo recolonizado pela Ásia”, disse Katie Bosse, de 77 anos. Ela crescera “no mato”, em suas palavras, e tinha uma desconfiança muito própria do lugar em relação aos forasteiros.

“A maioria das pessoas faz isso por ganância”. Mas ela viu o gerente da Nine Dragons em um evento e quis pegá-lo de jeito. Porque também tinha isso: depois de tantos anos, havia a chance de conseguir alguma coisa em Old Town. E ela queria ver se conseguia um emprego para o irmão.

Os sucessivos proprietários foram desistindo da fábrica de celulose de 130 anos, disse Bill Mayo, secretário da cidade. Ela fechou as portas de vez em 2015. O espírito da cidade murchou, e os registros criminais começaram a documentar apreensões de drogas e laboratórios de metanfetamina. Tentando manter os serviços, a Câmara Municipal concordou em cortar 20 empregos públicos. David Mahan, funcionário da cidade, falou até em eliminação gradual da coleta de lixo. “Acho que, em dado momento, chegamos ao fundo do poço”, disse Mahan.

Então veio um telefonema sobre a fábrica. “Você tem que voltar agora”, um liquidatário disse a Mahan. Ele discou para o número de alguém que não conhecia: Brian Boland, vice-presidente da ND Paper, que já possuía uma fábrica de papel e celulose em uma cidade a oeste. Mahan ficou atordoado.

“Falei: ‘ND Paper, você está brincando com minha cara?’”, ele contou. “Aí o Brian disse: ‘Sim, ND Paper, afiliada da Nine Dragons’”. Mahan acrescentou: “Fiquei tipo, ‘Beleza, a gente vai se dar bem agora’”. Quatrocentos e cinquenta contratados começaram a aparecer diariamente na fábrica, e uma pizzaria foi aberta na avenida principal. Quando a empresa começou a entrevistar candidatos para 130 vagas, 1,2 mil pessoas se inscreveram.

A ND Paper, afiliada da empresa nos Estados Unidos, parecia fazer de tudo para conquistar a aprovação da comunidade. Patrocinou ligas esportivas juvenis, entrou em desfiles e comprou canoas do outro grande empregador da cidade, a Old Town Canoe, para distribuir como prêmios. “Estávamos com pouca grana, mas agora, este ano, está caindo do céu”, disse Mahan.

Às duas horas de uma tarde ensolarada de agosto, Zhang - conhecida na empresa como “Dona Presidente” - entrou na fábrica de Old Town para a grande inauguração. Pequenina e cintilante, vestia um terno de malha tecido com fios dourados, sapatos de couro com detalhes em ouro e um colar com imensas pedras preciosas. Vinha seguida por familiares.

Zhang se levantou. Mal se via seu rosto atrás do púlpito. “Na China, temos um ditado muito popular: ‘Separados por milhares de quilômetros, reunidos por predestinação’”, disse ela em mandarim, enquanto seu filho traduzia. A parte norte do Maine é terra de Trump, rural e profundamente marcada pelo colapso das manufaturas. Derek King, empresário do ramo imobiliário, foi atraído pelo discurso de Donald Trump por causa de sua linha dura contra a China.

King não estava gostando muito da maneira como os líderes da cidade vinham se aproximando dos magnatas chineses. King é dono de uma fábrica e vê uma boa oportunidade para o mercado de unidades habitacionais. “Às vezes me sinto um pouco hipócrita por estar animado com a presença deles”, disse. “É como se a comunidade, o estado estivesse se prostituindo para arranjar 130 bons empregos aqui”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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