Gianni Cipriano para The New York Times
Gianni Cipriano para The New York Times

O lado obscuro da indústria de luxo na Itália

O desemprego crescente na Europa tem resultado em trabalhadores com salários muito abaixo do mínimo local

Elizabeth Paton e Milena Lazazzera, The New York Times

30 Setembro 2018 | 10h30

PROVÍNCIA DE BARI, ITÁLIA - No sul do país, na cidade de Santeramo in Colle, uma mulher de meia idade trabalhava duro sentada à mesa da cozinha. Costurava cuidadosamente um casaco de lã, do tipo que será vendido por algo entre € 800 e € 2.000 (US$ 935 e US$ 2.340) quando chegar às lojas como parte da coleção de inverno da marca italiana de luxo MaxMara.

Mas a mulher, que pediu para não revelar o nome por medo de perder seu sustento, recebe da fábrica que a emprega apenas € 1 por metro de tecido. "Levo cerca de uma hora para tecer um metro e, assim, quatro ou cinco horas para terminar um casaco", disse a mulher, que trabalha sem contrato nem seguro. "Tento fazer dois casacos por dia.” Uma fábrica local que produz artigos para alguns dos nomes mais conhecidos do segmento de luxo, incluindo Louis Vuitton e Fendi, é quem terceiriza as atividades.

O trabalho caseiro é um dos alicerces da cadeia de fornecimento da moda. É a forma de trabalho predominante na Índia, Bangladesh, Vietnã e China, onde milhões de trabalhadores de salário baixo são encontrados nas condições mais desprotegidas da indústria, por causa da situação irregular de emprego, do isolamento e da falta de recursos jurídicos.

O fato de condições semelhantes existirem na Itália na produção de algumas das peças de roupa mais caras pode chocar aqueles que enxergam a etiqueta de "Fatto in Italia" como sinônimo de artesanato sofisticado. A pressão da globalização e da crescente concorrência significa que a suposição implícita na promessa do luxo - parte de seu valor corresponderia ao fato de o artigo ser feito sob as melhores condições, pelos trabalhadores mais habilidosos, que recebem proporcionalmente - está sob ameaça.

Ainda que não estejam expostos a condições de total insalubridade, os trabalhadores caseiros recebem salários de total exploração. A Itália não define um salário mínimo nacional, mas cerca de € 5 a € 7 por hora são considerados o padrão mínimo por muitos sindicatos e empresas de consultoria. Um trabalhador altamente qualificado pode ganhar até € 8 ou € 10 por hora. Mas os trabalhadores caseiros recebem muito menos, independentemente de trabalharem com bordados, couro ou qualquer outra tarefa artesanal.

Em Ginosa, Maria Colamita, 53 anos, disse que, dez anos atrás, quando seus filhos eram mais novos, trabalhava em casa fazendo vestidos de casamento por € 1,50 ou € 2 por hora. Cada peça levava entre 10 e 50 horas para ser concluída, e Maria disse que trabalhava de 16 a 18 horas por dia. "Eu só parava para cuidar dos filhos e dos parentes - nada mais", disse ela, acrescentando que agora trabalha como faxineira ganhando € 7 por hora. "Agora que os filhos cresceram, posso me dedicar a um trabalho com um salário de verdade".

As duas mulheres disseram conhecer outras costureiras que produzem peças de luxo por ninharias trabalhando a partir de casa. Todas moram na Apúlia, o calcanhar rural da bota italiana que combina vilarejos de casinhas brancas de pescadores e águas cristalinas muito procuradas pelos turistas com um dos maiores centros manufatureiros do país.

"Sei que não recebo o quanto deveria, mas os salários são muito baixos aqui na Apúlia e, no fim das contas, gosto do que faço", disse outra costureira. "É o que fiz a vida toda, e não creio que poderia fazer outra coisa". Embora tivesse um emprego numa fábrica pagando € 5 por hora, ela trabalhava outras três horas por dia informalmente, em casa. "Todas aceitamos que é assim que as coisas são", disse a mulher.

A lenda do "Fatto in Italia", que já dura séculos, foi construída com base na miríade de empreendimentos manufatureiros de pequena e média escala voltados para a exportação que compõem a espinha dorsal da quarta maior economia da Europa. Mas, recentemente, seus alicerces foram abalados pelo peso da burocracia, crescentes custos e desemprego cada vez mais alto.

As empresas do norte do país, onde há mais empregos e salários mais altos, sofreram menos que suas primas ao sul, fortemente atingidas pela fartura de mão de obra barata que atraiu muitas empresas para o exterior, transferindo a produção. O desemprego na Apúlia era de 19,5% no primeiro trimestre de 2018.

Poucos setores são tão dependentes da reserva manufatureira italiana quanto o segmento de luxo. Este é responsável por 5% do produto interno bruto italiano, e estimava-se que 500 mil italianos trabalhassem na área em 2017, de acordo com relatório da Universidade de Bocconi e da Altagamma, organização do setor.

Esses números refletem a saúde do mercado global de artigos de luxo, para o qual as previsões da Bain & Company indicam um crescimento de 6% a 8%, chegando a algo entre € 276 bilhões e € 281 bilhões em 2018, impulsionado em parte pela demanda dos mercados emergentes por artigos "Fatto in Italia".

Tania Toffanin, autora de "Fabbriche Invisibili" (Fábrica invisível, em tradução livre), um livro que conta a historia do trabalho caseiro na Itália, estimou em algo entre 2 mil e 4 mil o número de trabalhadores caseiros empregados na produção de roupas.

"Quanto mais fundo investigamos a cadeia de fornecimento, piores são os abusos encontrados", disse Deborah Lucchetti, da Abiti Puliti, braço italiano da campanha Clean Clothes, que combate a exploração desmedida na indústria das roupas.

Boa parte dos gerentes de fábrica da Apúlia sublinharam sua conformidade com os regulamentos sindicais, o tratamento justo dos trabalhadores e o salário decente oferecido. Muitos gerentes de fábrica acrescentaram que quase todas as marcas de luxo visitam as instalações com regularidade para verificar as condições de trabalho.

Um porta-voz da MaxMara disse que manter uma cadeia de fornecimento que respeite a ética é parte dos valores da empresa, que teria aberto uma investigação do caso.

"As marcas fazem suas encomendas à empresa na ponta superior da cadeia de fornecimento, que vai terceirizando o trabalho para fornecedores cada vez menores, pressionados pelo tempo e custo", explicou Deborah. "Isso dificulta muito a transparência e o policiamento das infrações trabalhistas. Sabemos que o trabalho caseiro é uma realidade. Mas fica tão oculta que as marcas não controlam se as encomendas são feitas por trabalhadores irregulares fora das fábricas contratadas". Mas ela também afirmou que esses problemas são de conhecimento público. "Algumas marcas devem saber que são cúmplices desse sistema".

Essa é, sem dúvida, a opinião de Eugenio Romano, advogado que representa Carla Ventura, ex-proprietária da fábrica falida Keope Srl, num processo contra a gigante italiana dos sapatos Tod's e a Euroshoes, empresa usada pela Tod's como fornecedora principal.

Inicialmente, em 2011, Carla deu início à ação legal contra a Euroshoes, dizendo que o valor cada vez mais baixo pago pelos pedidos e as contas ainda a pagar impossibilitavam a manutenção de uma fábrica lucrativa. Um tribuna decidiu em favor dela, ordenando à Euroshoes que pagasse as dívidas. As encomendas cessaram. No fim, em 2014, a Keope pediu recuperação judicial. Agora, num segundo julgamento, Carla apresentou nova queixa contra a Euroshoes e a Tod's, que, de acordo com ela, teria ciência das práticas de negócios da Euroshoes.

"Parte do problema aqui está no fato de os trabalhadores aceitarem abrir mão de seus direitos para encontrar trabalho", disse Romano. Ele falou do "metodo Salento", expressão local que significa essencialmente o jeitinho italiano: "Seja flexível, use seus métodos, sabe como são as coisas por aqui".

Ainda que as marcas jamais reconheçam oficialmente o incentivo para se aproveitar dos trabalhadores, alguns donos de fábricas disseram a Romano que existe uma mensagem implícita recomendando o uso de uma série de meios, entre os quais está a exploração salarial dos trabalhadores e a indicação para que trabalhem de casa.

Em 2008, Carla chegou a um acordo com a Euroshoes para fabricar partes de calçados destinadas à Tod's. Ela diz que pagava salários integrais e oferecia seguro-saúde aos funcionários. O contrato exigia exclusividade, impedindo-a de estabelecer outros acordos.

Um relatório da Abiti Puliti que incluía uma investigação do jornal local Il Tacco D'Italia envolvendo o caso de Carla revelou que outras empresas da região fabricando peças do mesmo tipo contratavam mulheres que trabalhavam em casa ganhando de € 0,70 a € 0,90 por par. Em 12 horas, um trabalhador pode ganhar de € 7 a € 9.

De acordo com a consultoria trabalhista Studio Rota Porta, o salário mínimo na indústria dos têxteis deveria ser de € 7,08 por hora.

"Sabemos de costureiras que trabalham sem contrato a partir de suas casas na Apúlia, especialmente aquelas que se especializam em técnicas de costura de bordados ornamentais, mas nenhuma delas quer conversar conosco a respeito de suas condições de trabalho, e a terceirização dos contratos as torna praticamente invisíveis", lamentou Pietro Fiorella, representante da CGIL, maior sindicato nacional do país.

 

Segundo ele, muitas dessas mulheres são aposentadas ou desejam flexibilidade para cuidar de parentes.

Outro representante sindical, Giordano Fumarola, indicou outra razão para os salários tão baixos na indústria têxtil do sul da Itália: a transferência da produção para o exterior em países da Ásia e do Leste Europeu nas duas décadas mais recentes.

Uma eleição nacional realizada em março trouxe ao poder um novo governo populista na Itália, depositando o controle nas mãos de dois partidos - o Movimento Cinco Estrelas e a Liga - e a proposta de um "decreto de dignidade" pretende limitar os contratos de trabalho de curto prazo e a transferência de empregos para o exterior. Por enquanto, a legislação prevendo um salário mínimo parece não estar em pauta.

Para mulheres como a costureira de Santeramo in Colle, a reforma parece distante. Não que ela se importe. Ficaria devastada se perdesse sua renda, e o trabalho permite que passe algum tempo com os filhos.

"O que quer que eu diga?", suspirou ela. "As coisas são como são. Esta é a Itália".

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