Cnsa/EPA, Via Shutterstock
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O lado oculto da Lua: o que a China e o mundo esperam encontrar

Missão poderá ajudar a descobrir detalhes sobre a formação do sistema solar

Shannon Hall, The New York Times

19 de janeiro de 2019 | 06h00

O Chang’e-4 da China pousou onde nenhuma nave espacial pousou antes: no lado oculto da Lua. “Este é um passo histórico na exploração científica internacional da Lua, que, pela primeira vez, abre a ‘Luna Incognita’ do lado oculto do satélite para a exploração da superfície”, disse James Head, um cientista da Brown University em Rhode Island.

A missão poderá responder a indagações fundamentais sobre a formação da Lua, sua evolução e sobre a história do sistema solar. Também realizará os primeiros experimentos de radioastronomia do seu lado oculto, realizando um sonho muito antigo dos cientistas, e explorar se a vegetação poderia crescer lá.

A Lua está ligada à Terra pelas marés, o que significa que ela roda exatamente uma vez sempre que circula o nosso planeta, mantendo em todos os momentos sempre o mesmo hemisfério voltado para a Terra. Embora o lado escuro nunca possa ser visto da Terra, ela é iluminada pelo sol e tem as mesmas fases do lado que vemos.

O pouso da Chang’e-4 no dia 3 de janeiro foi o segundo realizado pela China, e o primeiro no lado oculto. No lado visível da Lua, o rosto do “homem da Lua” é bem visível porque é composto de áreas escuras, que se destacam contra o solo lunar frágil. Estas áreas escuras formaram-se quando antigos asteroides atingiram a sua superfície, provocando explosões de lava que escureceram a fachada e a alisaram, apagando os sinais de impactos anteriores.

Mas quando antigos asteroides atingiram o lado oculto da Lua, não houve fluxos de lava. Os impactos simplesmente deixaram uma superfície marcada por buracos com crateras. Isto fez com que o lado oculto ficasse muito mais fino, muito mais antigo e muito mais repleto de crateras.

Alguns astrônomos suspeitam que a dicotomia seja causada pelo fato de a crosta visível ser muito mais fina. Isto tornaria mais fácil para o magma sair do lado visível, disse Briony Horgan, cientista da Purdue University  de Indiana. Mas o motivo pelo qual a espessura da crosta varia tanto continua um mistério. A Chang’e-4 poderá oferecer dicas para a resposta. A origem do sistema solar foi inicialmente violenta. Asteroides e cometas bombardearam os planetas rochosos e deixaram crateras. Na Terra e em outros mundos rochosos, os vulcões eliminaram essas crateras.

O lado oculto da Lua manteve o registro original da sua juventude, particularmente o número de vezes em que objetos antigos colidiram com a sua superfície. Os astrônomos sonham há muito tempo construir um radiotelescópio no lado oculto da Lua porque aquele instalado no lado visível revelaria os inúmeros ruídos que emanam da Terra, como celulares, estações de TV e carros. “Nós usamos os comprimentos de ondas de radio para investigar tudo, desde os buracos negros nas proximidades até as galáxias distantes, por isso um rádio-observatório do lado oculto seria uma enorme vantagem para a astronomia”, disse Horgan.

Uma futura missão lunar permitiria aprimorar o estudo de fenômenos como nuvens primordiais de hidrogênio que se aglutinaram nas primeiras estrelas do universo. “Nós poderíamos ouvir um eco distante do Big Bang e ver o universo em um estado anterior à formação das primeiras estrelas”, disse Heino Falcke, um radio-astrônomo da Radboud University Nijmegen na Holanda.

Falcke apontou para o famoso mapa de calor cósmico do universo como apareceu somente 370 mil anos depois do Big Bang, também conhecido como a radiação cósmica de fundo em micro-ondas. “Esta foi uma imagem de bebê”, ele disse, mas do lado oculto da Lua seria possível “ver um filme da evolução do universo jovem desde a criança que engatinha à puberdade.”

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