Robert Stolarik para The New York Times
Robert Stolarik para The New York Times

O líder acusado de usar um acidente para atacar os rivais

Para a oposição, ex-primeiro ministro da Polônia tem usado a morte de seu irmão, presidente na época, para obter influência

Marc Santora, The New York Times

24 de junho de 2018 | 10h15

VARSÓVIA - Durante seis semanas em 2010, Jaroslaw Kaczynski continuou a fantasia. De dia, ele aparecia nos comícios políticos em trajes de luto como substituto do irmão gêmeo, Lech, que concorria a um novo mandato de presidente da Polônia antes de morrer em um acidente aéreo em Smolensk, na Rússia. De noite, ele ficava na cabeceira da mãe doente, e contava que Lech estava viajando no Peru e na Argentina.

Somente depois que a mãe se recuperou, Jaroslaw Kaczynski falou a verdade para ela. “Havia momentos em que eu mesmo queria acreditar nessa história”, disse Kaczynski em uma rara entrevista, um ano após o acidente, “que Lech estava vivo”.

Oito anos mais tarde, Kaczynski é a figura política predominante da Polônia. Seu Partido Lei e Justiça desmantelou as liberdades democráticas e enfraqueceu o Estado de Direito na Polônia, empurrando o país para uma áspera disputa com a União Europeia.

O confronto entre Varsóvia e Bruxelas é um desafio para a União Europeia que já está sendo assediada pelos partidos contrários ao establishment em todo o continente - em parte por causa da importância econômica e militar da Polônia, e em parte pelo impacto provocado pelo espetáculo de um país que foi sinônimo de anseios democráticos passar para o lado oposto.

Isto também faz parte de uma espécie de padrão na Europa Central e Oriental, onde Kaczynski formou uma aliança com a Hungria e seu líder populista, Victor Orban. O discurso nacionalista dos dois encontrou opositores. Os líderes da Europa se reunirão em breve em Bruxelas para discutir se a Polônia deverá ser penalizada pelas mudanças introduzidas em seu sistema judiciário que, na opinião de muitos especialistas, mina o Estado de Direito. A falha em tomar medidas pode encorajar nações como a Eslováquia e a Romênia, que flertam com seus próprios modelos de “democracia iliberal”.

Desde o momento da morte de seu irmão, Kaczynski alimentou uma mitologia de martírio e nacionalismo lesado em torno do acidente em Smolensk, usando a tragédia para dar uma nova identidade à Polônia. O governo abriu uma nova investigação, depois de dois inquéritos independentes anteriores que atribuíram o acidente ao mau tempo e a um erro humano. Além de Lech Kczynski, o acidente matou os membros do mais alto escalão militar da Polônia e integrantes do Parlamento.

Segundo alguns críticos de Jaroslav Kaczynski, ele está usando Smolensk como pretexto para prender inimigos políticos. Outros indagam se ele não estaria simplesmente dominado pela angústia, por um desejo de vingança e pela paranoia, e arrastando seu país junto. Ou quem sabe, ambas as coisas.

“É impossível superestimar a importância do acidente de Smolensk na vida de Jaroslav Kaczynski - e na vida da política polonesa em geral”, segundo Marek Migalski, que concorreu a uma cadeira no Parlamento Europeu como candidato de Lei e Justiça em 2010. “Para Kaczynski”, ele acrescentou, “o debate público deixou de ser político - entre pessoas com valores diferentes, agora há uma guerra escatológica entre o bem e o mal”.

Durante anos, o partido de Kaczynski destacou diversas hipóteses tortuosas a respeito do acidente, mas tudo se reduz a duas acusações sem provas: os russos seriam os responsáveis, e os adversários políticos de Kzczynski teriam deliberadamente realizado uma investigação inadequada para encobrir sua negligência.

Para os partidários de Kaczynski, tornou-se crença que o desastre não se deu por acidente. Isto reforça antigas realidades: que a Polônia ainda enfrenta a ameaça da Rússia no leste, e deveria mostrar-se cautelosa com as grandes potências do oeste que traíram a Polônia no passado.

“O modelo Kaczynski de estratégia política, em seu próprio partido e para o país como um todo, sempre foi governar dividindo e fomentando o conflito,” disse Marcin Buzanski, um assessor sênior da Fundação Casimir Pulaski, um instituto de pesquisa não partidário, independente.

Durante uma sessão acalorada no Parlamento, no ano passado, a ira de Kaczynski foi captada em vídeo. “Eu sei que vocês têm medo da verdade, mas não limpem suas canecas traiçoeiras com o nome do meu falecido irmão”, ele disse. “Vocês o destruíram! Vocês o assassinaram! Vocês são uns canalhas!”

Foi uma rara explosão pública de um homem que aparentemente prefere usar o poder nos bastidores. Ele tem uma cadeira no Parlamento, mas não é nem o primeiro-ministro, nem o presidente. Entretanto, como líder do Partido Lei e Justiça, se ele acha que é preciso aprovar uma lei, em geral, ela é aprovada.

Durante anos, a única pessoa que podia persuadir Kaczysnki de que estava saindo do rumo era o irmão gêmeo, Lech. Dos dois, Lech era mais extrovertido, enquanto Jaroslaw era considerado brilhante, mas temperamental.

No dia do acidente, Lech Kaczynski ia visitar um memorial na Floresta de Katyn, onde mais de 20 mil poloneses foram assassinados pelos soldados do Exército Vermelho na Segunda Guerra Mundial.

Ninguém duvida da dor de Jaroslaw pela morte do irmão. Mas é difícil saber se ele acredita realmente nas teorias da conspiração que promove.

Joanna Kluzik-Rostkowska, que foi  tesoureira da campanha de Kaczynski em 2010, passou quase todos os dias com ele, imediatamente após o acidente. “A primeira coisa que ele me disse, sem eu perguntar nada, foi: ‘Não pense por um segundo sequer que eu acredite neste negócio de ter sido um assassinato’”, lembrou  Joanna, que agora está alinhada com a oposição política.

Ela afirma não saber mais o que ele realmente pensa.

Migalski, outro antigo aliado, também não tem uma resposta definitiva. “Será que Jaroslaw acredita realmente que os russos assassinaram seu irmão gêmeo?” perguntou. “Se ele acredita mesmo nisto, então a Polônia corre grande perigo. Porque se houve um crime, terá de haver uma punição”.

Bronislav Komorowski, que se tornou presidente interino depois do acidente com o avião, foi chamado ao gabinete da promotoria em abril e indagado a respeito da negligência do governo na investigação. Donald Ttusk, que na época era primeiro-ministro da Polônia, foi convocado repetidamente para prestar esclarecimentos, mais recentemente no julgamento de seu ex-chefe de gabinete, Tomasz Arabski. Arabski e mais quatro funcionários do governo que exerceram algum papel na organização da viagem, estão sendo acusados de negligência.

Se Arabski for condenado, poderá estar aberto o caminho para processar Tusk, atualmente presidente do Conselho Europeu, que representa os líderes da União Europeia. Acredita-se que Tusk será o principal adversário do partido de Kaczynski nas eleições presidenciais de 2020, na Polônia. “Uma das razões pelas quais Kaczynski está tão ansioso por comandar o judiciário polonês talvez seja o propósito de utilizá-lo contra Donald Tusk”, disse Marcin Matczak, professor de Direito na Universidade de Varsóvia.

Par os observadores externos, as diferentes opiniões sobre o acidente de Smolensk  revelam que a Polônia se tornou um país dividido. Pichações em um bar em Varsóvia resumem o debate: “Smolensk - lição, tragédia, ou a primeira fake news polonesa”.

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