Bryan Denton para The New York Times
Bryan Denton para The New York Times

O livre pensamento em uma livraria de Pequim

O proprietário, Liu Suli, já foi preso por protestar contra a política do governo

Jane Perlez, The New York Times

30 Março 2018 | 10h15

PEQUIM - Depois da brutal repressão ao movimento democrático da China em 1989, Liu Suli, um líder estudantil que escapou por pouco de ser morto a tiros perto da Praça da Paz Celestial, lembrou de um sonho de infância enquanto meditava em sua cela na prisão.

Se ele tivesse uma livraria, assim como desejou quando tinha sete anos, não teria que gastar dinheiro com livros. Atrás das grades, e com seu impulso de empreendedor intacto, ele viu seu sonho sob uma luz diferente. Uma livraria pode ser uma maneira mais plausível de buscar pela liberdade de ideias.

Depois de sair da prisão, ele abriu uma livraria e encomendou uma gama eclética de volumes que se inclinavam para a filosofia, a história, a ciência política e uma ampla dose de pensamento ocidental.

E agora a livraria All Sages, um refúgio de prateleiras e mesas precisamente organizadas, prospera em um prédio comum perto da Universidade de Pequim.

Uma sobrevivente da rígida censura na era do governo do presidente Xi Jinping, a loja representa um espírito político independente.

Uma grande imagem de Bertrand Russel, o pensador britânico, destaca-se entre uma galáxia de posters literários que revestem a parede da escadaria da entrada.

“A China não é uma sociedade liberal, não é um país livre”, disse Liu. “Mas a livraria é uma maneira de expressar nosso desejo de liberdade e nossa esperança pelo estabelecimento de uma sociedade livre.”

Os livros estão todos em chinês. Isso faz com que a seleção dependa não apenas do gosto amplo de Liu, mas também das editoras chinesas.

Eles, por sua vez, estão sujeitos aos censores do Partido Comunista que controlam o que é publicado por autores chineses e escritores estrangeiros traduzidos para o chinês. A censura não é uma arte precisa, mas é uma presença constante. As diretrizes internas do partido sobre o que é proibido são passadas do aparato de propaganda para os chefes das editoras.

Algumas regras básicas prevalecem, disse Liu. A maior prioridade é a proteção do Partido Comunista. “Qualquer coisa que explique o Partido Comunista como uma ameaça está na mira,” ele disse.

Isso leva a escolhas curiosas. Os livros sobre os campos de trabalho da União Soviética são proibidos, mas os relatos sobre os campos de concentração nazistas são tolerados.

Com cerca de 600 grandes editoras estatais e 3 mil editoras menores, os títulos às vezes passam despercebidos pela rede. Os editores tendem a ser liberais e amantes da literatura. Alguns desafiam os parâmetros.

Entre as vendas constantes da All Sages estão livros sobre a história americana e as biografias dos primeiros presidentes - George Washington e Thomas Jefferson, em particular. O interesse nos pais fundadores dos Estados Unidos está ligado à sede de saber como o país se tornou uma potência democrática e global, disse Liu.

Um livro que Liu sabe que nunca conseguirá colocar em estoque se destaca. Obras críticas de Mao Zedong são automaticamente proibidas, e um livro de memórias sensacional, “A vida Privada do Camarada Mao”, de Li Zhisui, médico pessoal de Mao, é considerado uma abominação em particular. O livro descreve Mao como uma personalidade tirânica, com um apetite sexual diabólico e uma higiene pessoal terrível. "Não há literalmente nenhuma maneira de obter este livro na China", disse ele.

Em um fim de semana recente, um gerente de uma empresa de produtos químicos na cidade de Shenzhen, no sul do país, empurrou um carrinho cheio de livros para o caixa para despachar para casa por correio aéreo. Oficiais militares de alta patente, autoridades do partido, figuras ricas da sociedade e empresários famosos são todos clientes.

"É um segredo o que eles compram", disse Liu. "Mas dê uma olhada nos livros e você verá."/ Zoe Moe contribui com a reportagem.

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