Ozan Kose/Agence France-Presse - Getty Images
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O maior temor dos líderes autoritários populistas

Impressão de dinheiro e tomada de empréstimos agravam uma crise

Max Fisher, The New York Times

01 Setembro 2018 | 10h15

Crises de aumento da inflação, como a que se aproxima na Turquia, são particularmente perigosas para um determinado subconjunto de autoritários: líderes autoritários populistas.

Os líderes autoritários se mostram particularmente sujeitos à criação de crises desse tipo, particularmente desinteressados em revertê-las e especialmente vulneráveis a uma lenta recuperação. 

Costumam apresentar índices mais altos de inflação, e suas moedas são alvo de uma desvalorização artificial. Os bancos centrais de seus países gozam de menos independência.

São sintomas de fraqueza e exposição ao risco que vão além da política monetária, chegando ao núcleo do poder dos autoritários populistas. Antes da Turquia, tivemos Nicolás Maduro, na Venezuela, e seu antecessor, Hugo Chávez, que levaram seu país da prosperidade à ruína, parcialmente graças a um mergulho numa crise inflacionária.

Quando isso ocorre nas democracias, os líderes eleitos costumam ser substituídos por outros, capazes de controlar a inflação. Foi o que ocorreu na Nicarágua, Chile, Peru e Argentina. Outras formas de autoritarismo (comandadas por um partido, pelos militares ou pela monarquia) podem ruir, como ocorreu no Brasil, mas, com frequência, estas encontram força suficiente para impor reformas.

Os líderes autoritários populistas tendem a ser diferentes. Maduro imprimiu mais dinheiro, agravando a crise. Uma década antes, Robert G. Mugabe, do Zimbábue, implementou medidas parecidas, com efeitos parecidos.

Se o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, seguir ou não esse rumo, ele estará repetindo os padrões de comportamento de um governante limitado e guiado pelo seu sistema num sentido que nem sempre favorece os interesses do país.

O derretimento da Turquia é um microcosmo das patologias inerentes ao estilo de governo de Erdogan, e de outros líderes autoritários populistas. Embora esse tipo de sistema esteja aparentemente em alta no mundo, ele traz riscos especiais que o tornam mais vulnerável ao colapso.

Qualquer ditador sabe que a inflação - capaz de erodir a legitimidade em relação ao público e enfurecer as poderosas elites que esperam algum tipo de compensação - pode trazer riscos. Líderes eleitos simplesmente perdem o cargo, mas um governo autoritário pode entrar em colapso.

Em 1989, trabalhadores enfurecidos com a inflação na China se juntaram aos estudantes em protestos que o governo combateu com uma violenta repressão na praça Tiananmen. Líderes vietnamitas, preocupados com uma alta na inflação nos anos 1980 que poderia derrubar o sistema comunista, adotaram reformas para adaptar a economia ao mercado.

A alta galopante na inflação do Irã, em 2013, alimentou no público um descontentamento tão forte que o líder supremo assistiu passivamente enquanto os eleitores escolhiam um presidente relativamente moderado.

Depois de ascenderem dentro de uma democracia imperfeita ou, em alguns casos, das forças armadas ou de um regime de partido único, os líderes autoritários costumam desmontar o sistema anterior, visto como ameaça. Enquanto se livram de instituições e rivais, enfraquecendo a própria legitimidade, eles se tornam mais desesperados na busca pelo crescimento, entrando em pânico quando a economia sai dos trilhos.

Isto os costuma levar a exagerar nos gastos, ou, no caso de Erdogan, exagerar nos empréstimos tomados. Seu governo incentivou as empresas a gastarem bastante com empréstimos em moeda estrangeira, estimulando um impressionante crescimento econômico, que protegeu a popularidade de Erdogan enquanto o presidente restringia os direitos políticos. Mas o endividamento deu início a uma crise monetária.

A China também teve sua parcela de investimentos exagerados em projetos de infraestrutura de utilidade duvidosa. Mas as ditaduras têm algo que os líderes autoritários frequentemente se sentem impelidos a destruir: instituições. Ainda que sejam injustas, as instituições autoritárias são ao menos previsíveis, e podem agir com independência. São mais capazes de administrar ou amenizar os problemas. Principalmente o banco central.

Mas líderes autoritários como Erdogan, que instalou o próprio genro como ministro das finanças, tendem a interferir nos bancos centrais, com o objetivo de estimular o crescimento no curto prazo e por enxergar ameaças nas instituições independentes. A inflação aumenta como um anúncio de condições piores no futuro.

A gestão econômica tende a ser menos competente, e mais propensa a estimular a formação de bolhas ou o endividamento. Funcionários do baixo escalão sabem que seu principal dever é agradar e glorificar o líder, mostrando-se mais propensos a fazer promessas exageradas ou acobertar a má conduta dos superiores. A lealdade vale mais que a competência.

Como resultado, eles exageram nos gastos e nos empréstimos, e o fazem de maneira especialmente errática e irracional, sem a orientação ou supervisão de banco centrais ou outras instituições.

Conforme o valor da lira segue em queda livre, os maiores riscos são suportados pelos cidadãos da Turquia, e não apenas em termos econômicos.

O cientista político Tom Pepinsky, da Universidade Cornell, em Ithaca, Nova York, fez uma brincadeira no Twitter: “Os políticos e grupos sociais que correm risco de serem transformados em bodes expiatórios na Turquia fariam bem em deixar as malas prontas".

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