Allison V. Smith para The New York Times
Allison V. Smith para The New York Times

'O mal é real', diz americana para justificar arsenal que mantém em casa

Dana Loesch é porta-voz Associação Nacional do Rifle, organização americana que faz lobby pelo porte de armas

Laura M. Holson, The New York Times

08 Março 2018 | 10h00

DALLAS, Texas - Dana Loesch tem uma inscrição bíblica tatuada no antebraço, uma referência a um trecho do Livro dos Efésios que insta os cristãos a vestirem sua armadura sagrada a fim de se protegerem de um mundo obscuro. É um preceito apropriado para Dana, conservadora de 39 anos, apresentadora de um programa de entrevistas no rádio e comentarista política que vê o mundo através das lentes do medo e da violência.

É por isso que tem um arsenal de armas de fogo estrategicamente guardadas em cofres em sua casa. Ela tem uma pistola perto da cama no caso de se deparar com um invasor, explicou, e que pode usar enquanto não encontra uma espingarda mais potente ou um rifle ali por perto. Às vezes, ela enfia um revólver na cintura. Outras vezes, põe uma faca na bolsa.

"O mal é real", afirma.

Dana é há anos a voz do movimento conservador nos Estados Unidos, no início na Breitbart News Network, onde fazia uma análise da política e da mídia, e mais tarde para um programa de televisão na rede The Blaze. Escreveu o livro, "Hands off My Gun: Defeating the Plot to Disarm America", de 2014, e "Flyover Nation: You Can’t Run a Country You’re Never Been To", de 2016. Desde 2008 tem seu próprio programa nacional de rádio.

Mas só no ano passado as pessoas a notaram realmente, quando apareceu em um anúncio para a Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês). Cenas de violência de rua e protestos apareciam em flashes na tela enquanto Dana convocava os cidadãos a combater a discriminação da mídia e os políticos liberais com o "punho cerrado da verdade".

Segundo os gurus da esquerda e da direita, isso incentivou a violência. Mas Dana, que foi nomeada porta-voz da Associação Nacional do Rifle em 2017, adora uma briga.

"Disseram que eu sou uma puta da NRA", disse. "Sou uma prostituta da NAR. Mas acredito profundamente no direito natural de carregar armas. Tenho paixão por isso".

Dana afirma que já recebeu ameaças de morte, inclusive em cartões de Natal. "Havia figuras com a cabeça estourada", acrescentou.

Desde que ela se lembra, o mundo é um lugar apavorante. Nascida Dana Eaton em 1978 na pequena comunidade de Hematite, no Missouri, seus pais se divorciaram quando ela estava no jardim da infância. Não fala com o pai há mais de dez anos. Sua mãe trabalhava em três empregos. Dana contou que passa o tempo em casa sozinha ou com uma tia. "Não foi a infância mais estável", observou.

Ela encontrou refúgio na casa dos avós em Annapolis, Missouri, uma comunidade de cerca de 450 pessoas. Sua família votava em candidatos democratas. Seu avô caçava veados e guaxinins. Em seu livro “Flyover Nation”, ela lembra do avô de pé na varanda, uma noite, de espingarda na mão. A tia de Dana acabara de chegar; o marido, de quem estava separada, ameaçara matá-la.

"Olhando para trás", disse, "acho que sempre me preocupei com minha segurança".

No final dos anos 1990, Dana cursou a Webster University, nos arredores de St. Louis, onde estudou jornalismo, mas abandonou o curso quando ficou grávida. Em 2000, casou com Chris Loesch, o pai da criança, um músico e filho de um pregador, que atualmente administra a carreira da esposa. Eles assistem semanalmente aos serviços religiosos perto de sua casa, em Dallas.

Dana se desencantou com a política democrata depois do caso do presidente Bill Clinton com Monica Lewinsky. Filiou-se ao Tea Party e organizou protestos.

A atitude belicosa de Dana não agradou ao público conservador. Em 2012, a CNN, que a contratara como comentarista política, distanciou-se da apreciação que ela fez em seu programa de rádio em apoio aos fuzileiros navais que urinaram sobre combatentes mortos do Taleban. Ela afirma que a reportagem sobre seus comentários foi "hipócrita".

Em uma visita recente, Dana foi recebida como celebridade em um campo de tiro na área de Dallas. Ela insistiu com este repórter para que experimentasse seu AR-15: "Não é fácil?". Era. Como um vídeo game.

Mais tarde, desejou ter tempo para visitar uma igreja.

"Somos todos pecadores", afirmou. "Somos todos pessoas que cometem besteiras. Não posso perder nenhum dia".

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