Christophe Viseux para o New York Times
Christophe Viseux para o New York Times

O mundo está ficando sem lugar para armazenar petróleo

Com a queda no preço da gasolina, negociantes seguram estoque à espera de dias melhores

Stanley Reed, The New York Times

06 de abril de 2020 | 06h00

O mundo está boiando em petróleo e, aos poucos, esgotam-se os lugares para armazená-lo. Imensos tanques circulares em lugares como Trieste, na Itália, e os Emirados Árabes Unidos, estão cada vez mais cheios. Mais de 80 imensos petroleiros, cada um contento até 300 milhões de litros, estão ancorados no litoral do Texas, da Escócia e de outros lugares, sem ter para onde ir.

O mundo não precisa de tanto petróleo. A pandemia estrangulou as economias de todo o planeta, silenciando fábricas e fechando empresas aéreas, reduzindo assim a necessidade de combustível. Mas a Arábia Saudita, maior produtora do mundo, está envolvida em uma guerra de preços com a Rússia, mostrando-se determinada em seguir aumentando a produção.

“Pela primeira vez na história, estamos diante da possibilidade de o mercado testar os limites da capacidade de armazenamento em um futuro próximo", disse Antoine Halff, sócio da firma de pesquisa de mercado Kayrros. Conforme o espaço de armazenamento se torna mais escasso, os preços, que já caíram mais de 50% esse ano, podem despencar ainda mais. Essa disparidade entre oferta e demanda beneficiou os consumidores, que viram uma redução no preço da gasolina.

E o momento é propício para quem quer comprar petróleo barato, armazená-lo e esperar até o dia em que o produto valerá mais. É aí que entra Ernie Barsamian. A empresa dele encontra onde armazenar o combustível indesejado, e está prosperando. “Normalmente, fechamos cerca de dois acordos de armazenamento por dia", disse Barsamian, que administra uma empresa de Nova Jersey. “Nas duas semanas mais recentes, foram cerca de 120 acordos.”

Os negociantes estão aproveitando um mercado no qual os preços no futuro serão muito mais altos do que os patamares atuais. Por exemplo, um barril de óleo leve americano é negociado a aproximadamente US$ 25 para maio, valor cerca de US$ 6 inferior ao negociado em agosto. Assim, um negociante ou uma empresa de petróleo pode ganhar mais dinheiro comprando hoje com os preços em baixa, vendendo o petróleo no mercado futuro e embolsando a diferença, excluídos os custos de armazenamento, entre outros.

Saber quanto petróleo há armazenado no mundo é uma informação fundamental para se “compreender o estado do mercado do petróleo", disse a analista Hillary Stevenson, da firma de inteligência de mercado Genscape. Mas ela alertou que “a capacidade é finita: há um limite para a rede de segurança". Uma firma, Kpler, usa imagens de satélite para calcular quanto petróleo há nos navios e concentrações de tanques.

Recentemente, a empresa detectou 10 milhões de barris de petróleo, cerca de 10% do consumo diário global, ociosos em instalações de armazenamento. “Estamos em um mercado em que a oferta supera muito a demanda", disse Alexander Booth, diretor de análise de mercado da Kpler. Um indício dessa fartura: o volume de petróleo armazenado em petroleiros aumentou cerca de 25% em março.

Cerca de 80 petroleiros carregados — número mais alto que o normal — navegam pelo mundo sem destino. Booth estimou que ainda haja no mundo capacidade de armazenamento para 750 milhões de barris — espaço insuficiente para o acúmulo que alguns analistas estão prevendo.

O espaço está se esgotando no oeste do Canadá, onde a capacidade de armazenamento de 40 milhões de barris já está 75% cheia, de acordo com a Rystad Energy, para quem os produtores terão de cortar a produção em 11%. Barsamian ainda não vê uma situação emergencial, embora reconheça que boa parte da capacidade nas principais centrais de armazenamento já esteja alugada.

“O espaço de armazenamento do mundo nunca vai acabar", disse ele, dizendo que as operadoras construirão mais tanques que o incentivo do mercado for alto. “Nunca vi isso acontecer.” Mas, de acordo com os analistas, dessa vez a fartura pode ser sem precedentes. “Esse petróleo vai sair de um petroleiro saudita, provavelmente, e ficará parado em algum tanque", disse Booth. “Não é necessário.” / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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