Cody O'Loughlin/The New York Times
Cody O'Loughlin/The New York Times

O novo capelão chefe de Harvard é um ateu

A ascensão de Greg Epstein, autor de 'Good Without God', reflete uma tendência mais ampla de jovens que se identificam cada vez mais como espiritualizados, mas sem filiação religiosa

Emma Goldberg, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2021 | 05h00

Os colonos puritanos que se estabeleceram na Nova Inglaterra na década de 1630 tinham uma contínua preocupação com as igrejas que estavam construindo: como garantiriam que os clérigos fossem alfabetizados? A resposta deles foi a Universidade Harvard, uma escola que foi criada para educar o ministério e adotou o lema “Verdade para Cristo e a Igreja”. Recebeu o nome de um pastor, John Harvard, e levaria mais de 70 anos até que a escola tivesse um presidente que não fosse um clérigo.

Quase quatro séculos depois, a organização de capelães de Harvard elegeu como seu próximo presidente um ateu chamado Greg Epstein, que assumiu o cargo no final de agosto.

Epstein, 44, autor do livro Good Without God, é uma escolha aparentemente incomum para o papel. Ele vai coordenar as atividades de mais de 40 capelães universitários, que lideram as comunidades cristã, judaica, hindu, budista, além de outras comunidades religiosas no campus. Mesmo assim, muitos estudantes de Harvard - alguns criados em famílias religiosas, outros sem muita certeza de como rotular suas identidades religiosas - atestam a influência que Epstein teve em suas vidas espirituais.

“Há um grupo crescente de pessoas que não se identificam mais com nenhuma tradição religiosa, mas ainda sentem uma necessidade real de conversas e apoio sobre o que significa ser um bom ser humano e viver uma vida ética”, disse Epstein, que foi criado em uma família judia e tem sido o capelão humanista de Harvard desde 2005, ensinando os alunos sobre o movimento progressivo focado nos relacionamentos das pessoas umas com as outras, ao invés de com Deus.

Para os colegas capelães de campus de Epstein, ao menos, a noção de ser liderado por um ateu não é tão contra intuitiva quanto pode parecer; sua eleição foi unânime.

“Em um ambiente universitário mais conservador talvez pudesse haver uma pergunta como ‘Que diabos estão fazendo em Harvard, tendo um humanista como presidente dos capelães?’”, disse Margit Hammerstrom, capelã da Ciência Cristã em Harvard. “Mas neste ambiente funciona. Greg é conhecido por querer manter as linhas de comunicação abertas entre as diferentes crenças.”

As dezenas de alunos orientados por Epstein encontraram uma fonte de significado na organização da escola de humanistas, ateus e agnósticos, refletindo uma tendência mais ampla de jovens nos Estados Unidos que se identificam cada vez mais como espiritualizados, mas sem filiação religiosa. Essa tendência pode ser especialmente saliente em Harvard; uma pesquisa do Harvard Crimson sobre a turma de 2019 descobriu que esses alunos tinham duas vezes mais probabilidade de se identificarem como ateus ou agnósticos do que os jovens de 18 anos na população em geral.

“A liderança de Greg não é sobre teologia”, disse Charlotte Nickerson, 20, estudante de engenharia elétrica. “É sobre a cooperação entre pessoas de diferentes crenças e a reunião de pessoas que normalmente não se considerariam religiosas.”

Os capelães de Harvard desempenham um papel enorme no campus, tocando a vida de centenas de alunos, seja por meio da missa oferecida pelo Catholic Student Center ou dos jantares de Shabat em Harvard Hillel. Seu líder se reporta diretamente ao gabinete do presidente da universidade.

Para Epstein, tornar-se o chefe da organização, especialmente enquanto ganha mais reconhecimento da universidade, é a afirmação de um esforço de anos, iniciado por seu antecessor, para ensinar em um campus com raízes religiosas tradicionais sobre humanismo.

“Não olhamos para um Deus procurando respostas”, Epstein disse. “Nós somos as respostas um do outro.”

Alguns dos alunos atraídos pela comunidade secular de Epstein são refugiados religiosos, pessoas criadas em famílias religiosas que chegam à faculdade em busca de um significado espiritual de uma forma menos rígida.

Adelle Goldenberg, 22, cresceu na comunidade hassídica do bairro do Brooklyn, em Nova York, onde se lembra de ter ouvido que não poderia ir à faculdade. Na pré-escola, quando questionada sobre o que ela queria ser quando crescesse, sua resposta era simples: uma noiva. Era a única coisa que podia imaginar para uma garota como ela. Quando ela completou 19 anos, inscreveu-se em Harvard em segredo e fugiu da comunidade.

Uma vez em Harvard, ela teve receio de assumir qualquer rótulo religioso, mas ainda ansiava por encontrar pessoas lidando com questões mais profundas do que o desempenho acadêmico. Ela começou a frequentar as reuniões do grupo humanista e descobriu em Epstein uma forma de aconselhamento que era quase como ter um rabino secular, ela disse.

“Quando a pandemia chegou, eu ficava perguntando,‘ Greg, você tem tempo para falar sobre o significado da vida?’”, lembrou Goldenberg. “Ele me mostrou que é possível encontrar uma comunidade fora de um contexto religioso tradicional, que você pode ter o valor agregado que a religião oferece há séculos, que é o que está lá quando as coisas parecem caóticas.”

Goldenberg refletiu novamente sobre o quão improvável seu caminho tinha sido quando sua mãe pediu para ver o anuário da universidade: “Eu lhe disse, ‘Não acho que você vai gostar’”, Goldenberg disse. “Diz que fui co-presidente dos Humanistas, Ateus e Agnósticos de Harvard. E você pode ver meus ombros.”

A não religiosidade está crescendo muito além dos limites de Harvard; é a preferência religiosa que mais cresce no país, segundo o Pew Research Center. Mais de 20% do país se identifica como ateu, agnóstico ou não religioso – são os chamados de “nones” - incluindo 4 em cada 10 millennials.

Os motivos pelos quais mais jovens americanos estão perdendo a afiliação no país desenvolvido mais religioso do mundo são variados. O sociólogo da Notre Dame, Christian Smith, atribui a tendência em parte à crescente aliança entre o Partido Republicano e a direita cristã, ao declínio da confiança nas instituições, ao crescente ceticismo religioso na esteira dos ataques terroristas de 11 de setembro e ao afastamento das estruturas familiares tradicionais centradas na ida à igreja.

A comunidade de Epstein aproveitou o desejo crescente de significado sem fé em Deus. “Ser capaz de encontrar valores e rituais, mas não ter que acreditar na magia é uma coisa poderosa”, disse A.J. Kumar, que foi presidente de um grupo de estudantes de pós-graduação humanista de Harvard que Epstein aconselhou.

Outros capelães de Harvard aplaudiram os esforços de Epstein para fornecer um lar no campus para aqueles que são religiosamente desapegados, céticos, mas que ainda procuram algo. Alguns disseram que sua escolha para liderar o grupo, na sequência do líder judeu anterior, parecia óbvia.

“Greg foi a primeira escolha de um comitê formado por um luterano, um cientista cristão, um cristão evangélico e um bahá'í”, disse a reverenda Kathleen Reed, capelã luterana que presidia o comitê de nomeação. “Estamos apresentando à universidade uma visão de como o mundo poderia funcionar quando diversas tradições se concentram em como sermos bons humanos e vizinhos.” /TRADUÇÃO LÍVIA BUELONI GONÇALVES

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