Emon Hassan para The New York Times
Emon Hassan para The New York Times

O obstinado músico que quer ser o "salvador do cravo"

Mahan Esfahani dividiu os públicos na Europa e nos Estados Unidos - e fez inimigos ao longo do caminho

Farah Nayeri, The New York Times

15 de junho de 2018 | 15h30

LONDRES - Mahan Esfahani é um músico que se impôs uma missão. “Enquanto o cravo não tiver a presença que qualquer outro instrumento tradicional tem,  meu trabalho não estará concluído”, declarou.

Esfahani, 34, estreou no Carnegie Hall no dia 1º de maio, e, em agosto, se apresentará nos concertos da BBC no Royal Albert Hall de Londres.

Também é um personagem conhecido por causar controvérsias. Ele costuma falar de maneira explícita  no Twitter, lamentando o que quer que seja, da morte do  autor Philip Roth, à qualidade do delivery de comida chinesa na Alemanha. E em sua campanha para levar o cravo ao conhecimento de todos, ele se mostra particularmente combativo.

“Se o sujeito na rua ou o sujeito que senta ao meu lado no avião não souber o que é o cravo, então nós fracassamos”, ele disse. “Porque o sujeito no avião sabe o que é um piano”. (As cordas do piano soam quando atingidas pelo martelo; as cordas do cravo são dedilhadas.)

Esfahani, que mora em Praga, nasceu em 1984 no ápice da guerra Irã-Iraque. Quando as bombas começam a cair sobre Teerã, a família se mudou para Maryland, nos Estados Unidos.

Quando tinha 9 anos, ouviu pela primeira vez alguém tocar o cravo, enquanto estava na biblioteca depois da aula. Era uma fita cassette da cravista checa Zuzana Ruszickova. (Posteriormente ela foi a sua orientadora.) Mas foi somente nos anos em que frequentou a Universidade em Stanford, na Califórnia, que ele estudou o instrumento.

As escolhas de repertório de Esfahani irritaram alguns públicos. Em 2016, um concerto realizado em Colônia, na Alemanha, foi interrompido por vaias, quando ele tocou por cima de uma gravação da primeira parte de teclado de “Piano Phase”, de Steve Reich (em uma versão aprovada pelo próprio Reich); outros ouvintes o defenderam.

Em abril de 2017, Esfahani disse à revista online de música clássica “Van”, que havia ouvido “pessoas importantes do mundo do cravo dar recitais que foram tocados como se alguém tivesse morrido. Pessoalmente, preferiria fazer uma cirurgia nos meus dentes do que ouvir recitais como estes”.

Respondendo à mesma revista, Andreas Staier, um colega cravista, escreveu que Esfahani “venderia a alma por um pouco de publicidade. Um pouco de calma seria muito melhor. Mas ele não pode se conceder isto. Sua fama e sua carreira têm mais a ver com suas palavras do que com a sua música”.

A revista britânica “The Spectator” notou que Esfahani começou  “pequenas guerras desde que se lançou há dez anos como embaixador e salvador do cravo”.

Mas Neil Fisher, um crítico de arte do “The Times de Londres,” descreveu Esfahani como um “artista tremendamente expressivo”.

“O caráter lúdico constitui uma grande parte dele, na maneira como ele se expressa pessoalmente e na mídia social, mas também como músico”, disse. “O que é muito bem-vindo dado que ele vem de um mundo que poderia ser considerado extremamente seco ou excessivamente acadêmico”.

Esfahani afirmou que atualmente tenta dirigir sua raiva para as pessoas que “procuram o instrumento” e depois o rejeitam.

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