Milton Michida / Estadão
Milton Michida / Estadão

O outro problema da fronteira: armas americanas indo para o México

As armas de fogo são "despejadas" no México por causa das leis fracas dos Estados Unidos

Ioan Grillo, The New York Times

19 Maio 2018 | 10h00

No pátio abrasado pelo sol em uma prisão nesta grande cidade de fronteira no sul do país, um jovem presidiário de 23 anos explicou calmamente que contrabandeou armas durante anos dos Estados Unidos para o México. Nunca se preocupou em pagar clientes americanos fictícios para comprarem a mercadoria para ele. Ao contrário, ele mesmo frequentava as feiras de armas de fins de semana, ao redor de Dallas, e, aproveitando da chamada brecha das feiras, comprava armas de fogo de vendedores particulares sem a necessidade de apresentar comprovante de antecedentes criminais ou de cidadania.

Depois, voltava com uma dúzia de armas escondidas em geladeiras ou fogões na traseira do seu caminhão e as vendia em sua cidade natal, a algumas horas de estrada ao sul do Rio Grande. O mais solicitado era um rifle AR-15 semiautomático que comprava por apenas 500 dólares e podia vender por cinco vezes este preço. Com isto, ficou mais rico do que jamais sonhara; comprou uma casa,  caminhões novos e motocicletas.

“No começo, eu ficava mal, mas no fim a gente acaba se acostumando”, disse. “E depois, é muito legal. Vendia as armas, ganhava muito dinheiro e era divertido”. Só foi apanhado pela polícia porque um primo o entregou por causa de uma briga, e foi condenado a uma pena de nove anos de prisão.

As armas procedentes dos Estados Unidos destinam-se às gangues do tráfico que inundaram o país em um banho de sangue e destruíram famílias. Em um período de seis anos, o Departamento de Justiça conseguiu apreender 74,5 mil armas de criminosos fabricadas nos Estados Unidos ou importadas de outros países e vendidas no mercado americano.

No México, existe apenas uma loja para a venda de armas de fogo em todo o país, e pertence a uma base militar. Os compradores precisam solicitar a permissão, mostrando pelo menos seis vias de identificação, inclusive a prova de que não têm antecedentes criminais e ainda uma carta do seu empregador. O processo pode levar meses.

O presidente Donald J. Trump que fala enfurecido dos perigos das drogas e dos criminosos que penetram no país, vindos do Sul, deveria se preocupar com o fato de que os Estados Unidos exportam seus próprios perigos mortais e a devastação que causam. Recentemente, ele anunciou que mandaria o exército para a fronteira mexicana, e alguns estados começaram a enviar tropas da Guarda Nacional. 

Se o envio de forças se intensificar, será preciso aumentar os recursos para deter o contrabando de armas de fogo - para as operações contra os traficantes de armas e a revista de veículos que rumam para o sul.

Em estados como o Texas, um migrante sem documentos não consegue tirar uma carteira de motorista. 

Mas qualquer um, até mesmo um membro da gangue MS-13 sem documentos, pode entrar em uma feira de armas e comprar um fuzil semiautomático. O crime organizado se vale desta oportunidade diariamente.

Por sua vez, os esquadrões da morte usam estas armas em massacres em todo o México, o que leva as pessoas a buscarem refúgio do outro lado da fronteira. O site Political Asylum USA diz: “O principal motivo pelo qual alguns mexicanos temem voltar para o México são as organizações criminosas, na maioria de narcotraficantes”.

Evidentemente, o México não pode atribuir toda a sua violência às armas americanas. Políticos e policiais corruptos frequentemente trabalham para os gângsteres; as favelas onde as ruas não são pavimentadas e a ausência de esperança fornecem um fluxo constante de recrutas dispostos a ingressar nos exércitos dos cartéis.

Mas a disponibilidade de armas tão potentes oferece aos criminosos a  possibilidade de derrotar as forças da ordem. Os cartéis compram fuzis de precisão de grosso calibre que surpreendentemente estão à venda nos Estados Unidos, e costumam usá-los para atacar veículos militares e da polícia à distância. Assassinos armados com Kalashnikovs, fabricados na China ou na República Checa e vendidos nos Estados Unidos, que utilizam para matar no México. Os cartéis têm oficinas que transformam AR-15 semiautomáticos em armas totalmente automáticas.

No meu trabalho de repórter sobre a criminalidade no México há mais de dez anos, testemunhei um número incontável de vezes a devastação que estas armas causam. Em um semáforo, na cidade de Culiacán, vi os cadáveres de cinco policiais que sofreram uma emboscada de assaltantes que os alvejaram com mais de 400 tiros. Estive em cenários de crimes onde os assassinos mataram seus alvos com rajadas de centenas de balas atingindo indiscriminadamente pessoas inocentes que se encontravam no local, inclusive crianças.

Ver uma cabeça decepada por balas é algo traumático, mas o custo humano é o que afeta mais profundamente com os gritos de mães, irmãos e esposas chorando sobre os corpos dos seus entes queridos. Quando os jovens se reuniram recentemente em Washington para denunciar a violência das armas, o seu gesto foi inspirador, mas desejei que aqueles jovens se reunissem naquele dia aqui no México. No passado, centenas de milhares de pessoas percorreram em passeatas as ruas do México contra o crime e a corrupção.

Os problemas da violência das armas, do narcotráfico e da imigração são um fenômeno internacional em nosso mundo interconectado - e teremos de trabalhar em todos os países para solucioná-los. Assim como o México precisa combater a brutalidade dos cartéis que levam as pessoas a fugirem para o norte, os Estados Unidos precisam reduzir o fluxo  deste devastador rio de ferro em direção ao sul.

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