Martin Karius/REX, via Shutterstock
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O paraíso tailandês que ganhou o apelido de “Ilha da Morte"

Koh Tao tem reputação de abrigar crime organizado, com a polícia protegendo os interesses locais

Richard C. Paddock e Muktita Shuratono, The New York Times

08 Novembro 2018 | 06h00

KOH TAO, TAILÂNDIA - Os promotores de turismo descrevem a ilha tailandesa de Koh Tao como um paraíso. Turistas ocidentais procuram os animados bares nas praias e suas águas cristalinas.

Mas, entre alguns estrangeiros, Koh Tao adquiriu uma reputação mais sinistra. Ao menos nove turistas europeus morreram ou desapareceram ali desde 2014. Os tabloides britânicos passaram a chamá-la de Ilha da Morte.

Agora, com uma turista britânica de 19 anos alegando que foi estuprada em Koh Tao em junho, as atenções se voltaram novamente para a história da ilha, questionando a conduta da polícia na investigação de crimes graves contra turistas.

Inicialmente, a polícia negou que o estupro tivesse ocorrido e deteve uma dúzia de pessoas por terem publicado a respeito do episódio no Facebook. A polícia também emitiu mandados de prisão para a editora de um jornal online na Grã-Bretanha e o administrador de uma página do Facebook na Califórnia.

A polícia disse no mês passado que não tinham sido encontradas provas das alegações da jovem, encerrando o caso. Disseram que a investigação seria reaberta caso novas provas surgissem.

A decisão frustrou a mãe da jovem, que ficou furiosa. Ela acusou a polícia de má condução da investigação e de acobertar o crime na ilha.

A Tailândia, que recebeu cerca de 35 milhões de visitantes no ano passado, é um dos destinos turísticos mais procurados do mundo. O governo é sensível a críticas capazes de erodir a reputação do país.

Numa sociedade patriarcal na qual o movimento #MeToo repercutiu pouco, algumas autoridades deram a entender que as mulheres são responsáveis pelo assédio sexual porque usam roupas provocantes.

O primeiro-ministro da Tailândia, Prayuth Chan-ocha, questionou as vestimentas e o comportamento das turistas estrangeiras pouco depois do assassinato de dois mochileiros britânicos, David Miller, 24 anos, e Hannah Witheridge, 23 anos, em Koh Tao em 2014. Hannah foi estuprada antes de ser morta.

Posteriormente, ele se desculpou, explicando que sua intenção era pedir aos visitantes estrangeiros que tomassem cuidado.

Mas restam dúvidas em torno da condenação de dois operários birmaneses, U Zaw Lin e U Win Zaw Htun, tidos como responsáveis pelas mortes. Um juiz os considerou culpados e sentenciou-os à morte, apesar de dúvidas a respeito de provas de DNA e da condução da investigação por parte da polícia. Os defensores dos acusados dizem que eles foram incriminados.

Outros casos de turistas mortos incluem um francês encontrado enforcado em 2015 com as mãos presas atrás das costas. Para a polícia, foi um suicídio. No ano passado, uma turista russa desapareceu com seu equipamento de mergulho. Para a polícia, ela se afogou no mar.

Um moldavo se afogou em outubro depois de sair para nadar de madrugada. Para a polícia, não houve nenhuma irregularidade.

Faz tempo que Koh Tao tem a reputação de abrigar o crime organizado, um lugar onde a polícia protege os interesses locais.

O comandante da polícia encarregado da investigação do estupro, general Surachate Hakparn, disse em entrevista ao Times que a polícia investiu contra os cartéis do crime em Koh Tao após o assassinato dos mochileiros.

O general Surachate defendeu a prisão dos 12 usuários do Facebook, dizendo que a publicação compartilhada por eles identificou equivocadamente um suspeito, fazendo com que ele perdesse o emprego.

A Human Rights Watch acusou a polícia de usar a lei de crimes eletrônicos para impedir que a população questione a “atrapalhada investigação” do caso de estupro.

A polícia segue procurando Suzanne Buchanan, editora de um site jornalístico que publicou reportagens 

a respeito dos assassinatos e do caso de estupro.

Ela disse que o mandado não a afeta, pois mora na Grã-Bretanha. “Estou sendo acusada de disseminar notícias falsas, mas as notícias são verdadeiras", disse ela.

Steven Erlanger, Johanna Lemola e Oleg Matsnev contribuíram com a reportagem.

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